Tudo o que precisa de saber sobre a dieta de eliminação

Não emagrece, mas ajuda a descobrir o que é que lhe está a causar gases, inchaço ou diarreia grave. Três especialistas explicam.

A dieta de eliminação permite identificar os alimentos responsáveis pela sensação de mal estar ou alergia alimentar.

The Lazy Artist Gallery/Pexels

Nem sempre a barriga inchada é uma desculpa. O desconforto que sente de vez em quando a seguir a comer pode ter como causa a ingestão de um tipo específico de alimento (ou de uma componente presente em vários) que, frequentemente, cria este desconforto. Infelizmente nem sempre o nosso organismo tolera todos os membros da pirâmide dos alimentos, sendo por isso importante perceber se não anda a comer algo que lhe faz mal.

A diferença entre intolerância alimentar e alergia

Uma pessoa pode ser alérgica ao amendoim e, ao ingerir ou contactar com este alimento, o sistema imunitário vai ter uma reação que pode até levar à morte. No caso da intolerância, o organismo apenas tem dificuldade em digerir o amendoim. Isto pode originar sintomas como diarreia, flatulência, dor ou desconforto abdominal.

Foi por isso que surgiu uma dieta que elimina alimentos, mas não tem com objetivo emagrecer. O propósito passa, antes, por descobrir que ingredientes alimentares lhe estão a causar desconforto abdominal ou outro tipo de má disposição. Alguma vez sentiu gases, inchaço, diarreia grave, obstipação ou alterações de peso inexplicáveis? A culpa pode estar em algo tão simples como uma alergia ou uma intolerância às lentilhas.

Mas como é que se faz uma dieta de eliminação? E se não fizer a menor ideia de quais são os alimentos que lhe fazem mal? Três nutricionistas explicam.

O que é a dieta de eliminação?

De forma simples, a dieta de eliminação consiste em eliminar alguns alimentos durante quatro a seis semanas, de forma a perceber quais é que são os responsáveis pela sensação de mal-estar. No caso de alergia alimentar, este plano também pode ajudar a prevenir a ocorrência de uma reação alérgica.

De acordo com a nutricionista Sandra Gomes Silva, esta dieta serve “para ser testada a tolerância a um determinado alimento ou composto a que o utente suspeita que poderá ser intolerante.”

Na prática, “retiram-se todos os alimentos diretamente responsáveis pela alergia, mas também aqueles que poderão conter o alergénio na sua composição. Assim, é essencial que se tenha em conta a lista de ingredientes de uma receita e de um produto já embalado. Para isso, a leitura e a interpretação dos rótulos tornam-se cruciais”, acrescenta a nutricionista Cláudia Cunha, autora do livro “Livre Trânsito”.

Não é por isso uma dieta, no sentido mais amplo do termo, mas um meio para chegar ao diagnóstico do problema.

A dieta de eliminação e a dieta baixa em FODMAP são diferentes

Se nunca ouviu falar em FODMAP, este é um conceito que vai precisar de entender antes de iniciar a dieta. À primeira vista pode-se confundir com “food map”, ou seja, “mapa da comida”, mas o verdadeiro significado é ligeiramente mais complexo do que esse.

Uma equipa de investigação da King’s College of London descobriu um conjunto de alimentos que eram mal digeridos pelo intestino delgado. Estes alimentos integram os FODMAPs. Descodifiquemos a sigla: F de fermentáveis, O de oligossacáridos, D de dissacáridos, M de monossacáridos e P de poliois.

“FODMAP são hidratos de carbono de cadeia curta (açúcares e fibras) que não são bem absorvidos no intestino delgado e seguem para o intestino grosso onde alimentam a flora bacteriana intestinal”, explica Mafalda Almeida, nutricionista e autora do blogue “Loveat”. Em que é que isto resulta? Gases, que originam flatulência, distensão e dores abdominais e cólicas.

Estes são alguns dos sintomas de quem recorre à dieta de eliminação. Além das cólicas, existem outras alterações nos movimentos intestinais, como prisão de ventre ou diarreia, provocadas pela presença dos hidratos de carbono de cadeia curta no intestino grosso, que aumentam a retenção de água no intestino.

Quando já tem uma ideia dos alimentos que podem estar a fazer-lhe mal, o processo é simples: basta eliminá-los. Imaginando que suspeita que o seu organismo não tolera feijão, cajus ou iogurtes, deve retirar estes três alimentos do seu dia a dia. Se sentir melhorias no chamado “período de eliminação”, vai começar a reintroduzir novamente estes alimentos. Se calhar até correu tudo bem quando voltou a comer cajus e iogurtes. Se o feijão voltou a deixá-lo com algum tipo de desconforto, então se calhar chegou a uma conclusão: tem uma intolerância a este alimento.

A situação pode tornar-me mais complicada quando não tem a mínima suspeita do que é que lhe faz mal. É aqui que entra a chamada dieta baixa em FODMAP, desenvolvida por uma equipa da Universidade de Monash, em Melbourne, na Austrália, em 2005, que ajuda a identificar o que se deve retirar temporariamente da alimentação.

A nutricionista Cláudia Cunha, especializada na dieta baixa em FODMAP, explica como se processa a aplicação do método: “Na primeira fase da dieta baixa em FODMAP pretende-se eliminar os alimentos que vão ser fermentados pelas bactérias intestinais e que causam sintomas de síndrome do intestino irritável.”

“Na dieta baixa em FODMAP consegue-se identificar exatamente quais os alimentos que causam sintomas sem ter que recorrer a exames caros ou sem ter de sujeitar o paciente a ingerir grandes doses de lactose ou frutose para identificar a sua tolerância”, acrescenta.

Vamos a um exemplo prático: deixou de comer tudo o que são hidratos de carbono de cadeia curta e começou a sentir-se melhor. Agora, alimento a alimento, vai voltar a consumi-los. As campainhas de alarme soam quando, após ingerir um determinado produto — imagine, o grão —, sente-se novamente mal.

Apesar dos benefícios da dieta pobre em FODMAP, a nutricionista Mafalda, que escreveu o livro “Equilíbrio”, alerta: “Deverá ser temporária pois restringe muitos alimentos nutritivos e importantes para o organismo.” Esta é a principal desvantagem deste método: é necessário redobrar cuidados sobre as suas necessidades nutricionais, de modo a não retirar nenhum nutriente importante para o bom funcionamento do seu organismo.

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