Beber muita água e colocar protetor solar com regularidade são os cuidados mais frequentes no verão. Também há quem procure manter-se longe do sol nas horas de maior calor e quem não dispense fechar as persianas durante o dia para manter a casa fresca. São tudo cuidados válidos, no entanto insuficientes — dos parasitas fecais das piscinas à poluição, sem esquecer as bactérias que comem carne ou a proliferação de algas nocivas, há muito mais riscos associados aos dias de descontração longe da escola e do trabalho.

Vamos a números: de acordo com um estudo publicado no ano passado, as atividades recreativas estão associadas a 90 milhões de doenças nos Estados Unidos, por ano. E qual é o maior inimigo? A água. Os banhos são um dos principais catalisadores das infeções respiratórias, de ouvidos e de pele.

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Em casos mais dramáticos, os agentes patogénicos presentes em poças, lagos, rios e oceanos podem originar doenças mais graves, como por exemplo doenças gastrointestinais e, em casos mais raros, exposição a bactérias carnívoras — que comem, literalmente, carne humana. Aconteceu no mês passado na Florida, EUA, quando Tony Meredith contraiu uma infeção chamada fasciíte necrotizante. Uma em cada três pessoas que contrai esta bactéria acaba por morrer — felizmente, Meredith sobreviveu e encontra-se agora a recuperar.

No meio de tanto dramatismo, o que é que devemos fazer? Deixar de ir de férias? Obviamente que essa não é a resposta. No entanto, é fundamental saber os riscos associados a atividades tão banais nesta época como dar um mergulho numa praia, piscina ou lago. Sabendo os perigos, terá noção de como pode prevenir problemas.

Explicamos-lhe tudo de seguida.

Piscinas

Haley Phelps/Unsplash

As piscinas são um dos principais causadores de doenças transmitidas pela água, por isso todo o cuidado é pouco. O maior perigo são os parasitas fecais (o nome científico é cryptosporidium), que podem originar doenças gastrointestinais. Apesar de quase nunca ser fatal (só houve uma morte registada desde 2009), origina sintomas como desidratação, perda de peso, dores de estômago, febre, náuseas e vómito.

Este verão, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), uma agência norte-americana que se dedica à proteção da saúde pública e segurança da população, emitiu um alerta, pedindo às pessoas que não frequentem piscinas públicas se estiverem com diarreia.

“Um único incidente de diarreia na água pode libertar milhões de micróbios”, lê-se no comunicado. Falamos dos micróbios criptos (abreviatura para cryptosporidium), giárdia, shigella, norovírus e E.coli. “Isto pode deixar outras pessoas doentes se engolirem um pouco de água contaminada.”

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Segundo o CDC, “a maioria dos micróbios morre em poucos minutos devido à ação de desinfetantes comuns usados em piscinas, como o cloro e o bromo, mas o cryptosporidium é um micróbio que pode sobreviver durante mais de sete dias, mesmo em água adequadamente clorada. Por esta razão, a cryptosporidium é a principal causa de surtos nos Estados Unidos relacionada com a água da piscina”. Entre 2009 e 2017, registou-se um aumento de 13% dos casos a cada ano.

Então e que cuidados deve ter para não contrair este parasita? Além de não nadar, ou deixar as crianças nadarem, com diarreia, deve tomar um banho antes de entrar na piscina e evitar engolir água. Consulte também os resultados da última inspeção sanitária da piscina para ter a certeza de que o tratamento de água está a ser feito em condições, e verifique os níveis de cloro (devem ser de pelo menos 1 ppm em piscinas e parques aquáticos) e bromo (pelo menos 3 ppm). O pH deve rondar os 7,2 e 7,8.

Rios e lagos

Deni Williams/Flickr

Toda a gente sabe que Portugal tem praias fluviais inacreditáveis, e em cada recanto do interior parece existir um rio ou um lago propício a mergulhos. Mas cuidado: segundo dados do CDC, divulgados no verão passado, entre 2000 e 2014 houve um total de 140 surtos de doenças associados a banhos em águas recreativas não tratadas. Estes surtos originaram 4.958 doenças e duas mortes.

A grande maioria dos surtos teve como causa confirmada patógenos gastrointestinais, como o norovírus, shigella e E.coli. Mais uma vez, estes são transmitidos sobretudo através da ingestão de água contaminada. Em lagos e rios, essa transmissão pode acontecer através das fezes dos nadadores, poluição, contaminação por águas residuais ou escoamento de esgotos. A maioria dos surtos, porém, foi causada por parasitas transmitidos por aves, toxinas e produtos químicos ou proliferação de algas nocivas.

As duas mortes foram causadas por uma espécie chamada Naegleria fowleri, um parasita que entra pelo nariz e destrói o tecido cerebral.

Há mais. De acordo com um estudo publicado em maio, as concentrações de antibióticos em alguns rios do mundo ultrapassam os níveis seguros. Os investigadores procuraram 14 antibióticos utilizados habitualmente em rios de 72 países dos seis continentes, e encontraram concentrações que chegavam a estar 300 vezes acima dos níveis recomendados.

“Os resultados são preocupantes e demonstram uma contaminação cada vez maior dos sistemas de rios com compostos derivados de antibióticos”, referiu, segundo cita o “The Independent”, o professor do Instituto de Sustentabilidade Ambiental de York, Alistair Boxall.

Os antibióticos nos rios podem causar o desenvolvimento de bactérias que conseguem resistir aos medicamentos, o que poderá significar que estes deixem de ser usados na medicina. As Nações Unidas estimam que a crescente resistência aos antibióticos mate dez milhões de pessoas até 2050.

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Para prevenir este tipo de situações, o ideal é procurar locais recreativos que sejam tratados. Se escolher um local mais selvagem, procure evitar lagos e rios rasos, com pouca circulação de água, superlotados e sem casas de banho públicas. Os nadadores devem evitar também entrar em águas descoloradas, com odor, espumosas ou escamosas, ou a seguir a chuvas fortes ou enchentes.

Oceanos

Mohamed Nashah/Unsplash

Também segundo dados do CDC, as doenças associadas aos oceanos advêm da proliferação de algas, amebas e patógenos fecais. Um relatório publicado a 23 de julho pelo Environment America descobriu que 2.600 dos cerca de 4.500 locais de praia nos Estados Unidos apresentavam níveis de bactérias acima dos limiares recomendados pela Agência de Proteção Ambiental (EPA).

Mais uma vez, a principal fonte dos patógenos perigosos somos nós: “Os dois maiores causadores de poluição nas nossas praias que podem deixar as pessoas doentes são a poluição e o escoamento de esgoto”, lê-se no relatório.

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Um estudo publicado em junho na revista “Annals of Internal Medicine” também concluiu que as bactérias que comem carne estão a atingir praias onde antes não chegavam. Devido às alterações climáticas, a bactéria perigosa de nome Vibrio vulnificus, que prefere águas mais quentes, está a mover-se para norte.

Para prevenir problemas, o ideal é frequentar praias que sejam sujeitas à monitorização da qualidade da água. Pode consultar esta lista no site da Agência Portuguesa do Ambiente. Segundo a Quercus, a associação ambientalista portuguesa, 375 praias portuguesas têm “qualidade de ouro” este ano.