Cláudia Fonseca, natural de Lisboa, rumou a norte uns dias antes da data prevista para o parto. Instalou-se num hotel da Póvoa de Varzim, aproveitou para descansar, para ler o que lhe sobrava dos livros sobre gravidez que tinha comprado e ficou simplesmente à espera que o Vicente decidisse nascer.

Estas não foram apenas umas férias à beira-mar. Cláudia e o marido, David, decidiram que era a mais de 300 quilómetros da terra natal que o filho iria nascer, não por capricho, mas porque lá está instalado um dos hospitais do País mais bem preparados para respeitar as vontades dos pais na hora do parto.

O serviço de obstetrícia da Póvoa de Varzim atrai casais de todo o País por seguirem as vontades dos pais e também por terem capacidade de oferecer a hipótese de um parto sem epidural, com hidroterapia, musicologia e bola de Pilates. Além disso, aqui é a mulher que escolhe a posição em que pretende dar à luz.

Cláudia e David tinham traçado todas as diretrizes que gostavam de ver respeitadas no dia. A isto chama-se Plano de Parto e, ainda que seja um direito de todos os pais, são poucos aqueles que dele usufruem. De tal forma que, no ano passado, o parlamento aprovou os projetos de lei do PS e do PAN para reforçar a proteção da mulher na gravidez, no parto e após o nascimento da criança, propondo, entre outras medidas, a criação de um “plano de nascimento”. Os socialistas propõem que esse plano se transforme num documento em que a grávida manifesta as suas escolhas para o parto e pós-parto, que deverá ser preferencialmente elaborado até às 36 semanas de gestação, num modelo a definir pela Direção-Geral da Saúde.

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Para já, e sem modelo oficial, a forma como a mulher quer que o parto decorra é estabelecida através de planos-modelos disponibilizados na internet. Encontramos três no site da Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e no Parto (APDMGP), um feito como se de uma carta ao médico se tratasse e os outros divididos em tabela ou por tópicos. Foi este último exemplo que Cláudia usou, especificando assim por escrito alguns dos seus pedidos. “Queria ter o máximo de mobilidade, fosse com bola de Pilates ou na piscina, queria ter música relaxante e óleos essenciais, queria que o bebé fizesse contacto pele com pele comigo de imediato, ou com o David caso não fosse possível ser comigo, e não queria que, em momento nenhum, me pressionassem para fazer epidural ou cesariana”.

Escrevemos este último parágrafo no passado porque, no entretanto, o Vicente nasceu, depois de um longo trabalho de parto, que acabou numa cesariana de urgência, algo que não estava nos planos de Cláudia. “Mas está tudo bem”, garante. A mãe sabia que o plano escolhido não é uma série de regras estritas a serem cumpridas, mas sim uma espécie de guia para o que gostava que acontecesse naquele dia. “A última palavra é sempre dos profissionais de saúde”, refere.

E foi isso que aconteceu. Depois de um trabalho de parto de mais de 12 horas, foi Cláudia que sugeriu a epidural e até partiu dela a vontade de passar para uma cesariana. Como o contacto pele com pele imediato não é possível quando o parto é cesariana, foi David, o marido, que o fez, logo desde o primeiro minuto de vida, assim como tinham pedido.

A classe médica resiste

Sara do Vale, uma das fundadoras da Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e no Parto, explica à MAGG que o plano de parto começa ainda quando a mãe está gravida e só termina no pós-parto. “Para a fase da dilatação, a mulher pode escolher se quer epidural, se quer ter um acompanhante no quarto, se quer que os exames vaginais sejam feitos sempre pela mesma pessoa e pode até escolher a banda sonora que esteja a tocar no momento”.

Na fase da expulsão, a mãe pode escolher se quer, à partida, episiotomia — o corte dado para alargar o canal de parto — e deve ter liberdade para escolher a posição em que quer ter o bebé. “Mas nada aqui é fixo”, lembra Sara, que além de mãe também é doula e já acompanhou muitos partos. “Este é sempre um plano de preferência, nunca uma coisa fechada”.

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Nos cuidados a ter com o bebé, os pais podem escolher o contacto pele com pele imediato e até qual o momento do corte do cordão umbilical.

Fazer um plano de parto é, para a presidente desta associação, uma forma até de a mulher ter noção de tudo o que pode acontecer em cada uma das fases e não deve nunca ser visto pelos profissionais de saúde como uma espécie de afronta ao seu trabalho.

Mas a verdade é que existem muitos casos em que a vontade da mãe colide com a do médico. Que o diga Bruno Rito, enfermeiro-parteiro do Hospital Garcia de Orta que já assistiu a muitas situações nas quais o plano de parto é tido como uma “excentricidade” da mulher.

“Sair da zona de conforto é um desafio e, por isso, a maioria dos médicos prefere seguir aquilo que está habituado a fazer em vez de respeitar a vontade da mãe”, garante. E refere uma situação em específico. “O parto na posição deitada só é confortável para o médico. Mas naquele momento tão importante, não é o médico que tem que estar confortável, é a mãe”, salienta. É por isso que lutou durante anos para ver implementado no hospital onde trabalha o parto verticalizado. “A mulher deve assumir a posição que quiser, seja de cócoras, sentada, de pé, de lado. A mulher sabe o que faz e, na hora do parto, não tem que ser tratada como uma doente”.

Ainda assim, o enfermeiro, que exerce há 22 anos e a trabalha em obstetrícia desde 2007, admite que vê uma diferença nos últimos anos, não tanto da equipa médica, mas sim dos pais, que chegam ao dia do parto muito mais seguros do que querem. “Todas as mulheres têm um plano para esse dia, mesmo que não escrevam, está na cabeça. Mas enquanto não passa para o papel não perturba ninguém”, refere.

Catarina Barreiros veio para perturbar e, grávida de 28 semanas, já tem tudo bem pensado e esta semana vai passar tudo para o papel. “Não quero que se avance imediatamente para uma cesariana e a epidural só quando eu me sentir desconfortável com a dor. Tal com a episiotomia, que só quero que seja feita se for mesmo necessário”, explica.

Aos 26 anos, e antes de ser mãe, não tinha sequer ideia do que era isto do plano de parto. E também não foi a obstetra que lhe falou dessa possibilidade. Como teve um descolamento da placenta logo no início da gravidez que a levou a cuidados redobrados, sentiu necessidade de um acompanhamento mais holístico a todo o processo e recorreu a uma clínica de medicina tradicional chinesa, onde ouviu pela primeira vez falar desta hipótese de poder escolher o que acontece no dia em que a Gracinha nascer.

Por ter ficado preocupada com o seu próprio desconhecimento, decidiu aproveitar os seus mais de 14 mil seguidores no Instagram para fazer um pergunta de resposta sim ou não a mulheres que estavam ou já tinham estado grávidas: “Alguma vez ouviram falar de um plano de parto?”. De um total de 195 respostas, apenas 30 mulheres sabiam do que se tratava. “O desconhecimento é enorme. Na próxima semana, por exemplo, vou visitar uma série de maternidades para decidir onde quero ter a minha filha. Sabiam que isto é possível? Eu não!”, exclama. Arriscamos dizer que se a pergunta fosse aberta ao Instagram, Catarina teria muita gente com quem partilhar o ar de surpresa.