Na passada quinta-feira, 13 de junho, a Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou informação sobre aquilo que está a acontecer no Sudão, na sequência de uma manifestação contra os militares que detém o poder do país, desde que o antigo presidente Omar al-Bashir, foi deposto, em abril.

A denuncia dá conta de “sérios abusos do Exército e milícias, que incluem violações individuais e coletivas de manifestantes, ativistas de direitos humanos e funcionários de hospitais em Cartum onde os feridos foram tratados.”

A informação só esta semana é que começou a chegar às altas esferas políticas e comunicação social porque o aparelho de poder sudanês, controlado por militares, além de impedir a entrada de jornalistas, encerrou o acesso à Internet em todo o país. O cenário de violência foi tornado público por jornalistas locais, por artistas e influenciadores digitais.

Fala-se em “massacre”. De acordo com o que a Organização Mundial de Saúde (OMS), as forças do Conselho Militar de Transição do Sudão invadiram um acampamento de manifestantes em Cartum, no início do mês de junho, para pôr fim aos protestos. Mataram mais de 100 pessoas, violaram outras 70 e deixaram 500 pessoas feridas. 

A 7 de junho, a OMS já tinha avançado com denúncias, relatando que as forças de segurança haviam feito “incursões nos hospitais de Cartum”, levando também ao encerramento dos serviços de emergência e saúde. A 5 do mesmo mês a “CNN” relatou que foram encontrados vários corpos a flutuar no rio Nilo. Os escritórios locais da Al-Jaazera foram fechados, mas antes disto o canal ainda conseguiu descrever o momento como um dos mais violentos da história recente do país.

Além de Oddisse, um rapper sudanês a residir nos Estados Unidos, ter alertado para a situação, apelando à atenção da comunidade internacional, Shahd Khidir, uma influenciado digital sudanesa, a viver em Nova Iorque, fez uma publicação de lágrimas nos olhos na sua conta de Instagram, a dar conta daquilo que se está a passar no seu país: “Está a acontecer um massacre no Sudão, o meu país, e há um apagão dos media e  censura da Internet, há dias consecutivos.”

No texto que partilhou, Shahd dá conta ainda da morte de um amigo, que, segundo a informação que está a ser divulgada nas redes sociais, foi baleado por militares, quando tentava proteger duas mulheres, que estavam entre os manifestantes.

A onda de violência já deu origem a um movimento nas redes sociais, que representa o apoio contra os massacres: vários utilizadores estão a substituir a sua fotografia de perfil por uma imagem com o fundo azul. A campanha #BlueForSudan teve início a 11 de junho e ganha vida com uma hashtag que tem como objetivo servir de apoio e ponto de encontro para troca de informação relativamente ao que se está a passar no país.

Outra publicação no Instagram dá conta do número de vítimas. “No Sudão em apenas 3 dias: 113 mortos, 723 feridos, 650 detidos, 48 mulheres violadas, 6 homens violados, 1000 pessoas desaparecidas, a tua ajuda será apreciada, podes usar as hashtags no Twitter, mantém-nas ativas e faz com que o mundo saiba.”

Os protestos na capital do Sudão começaram em dezembro, na sequência de uma série de protestos que deram origem a um golpe militar que depôs o Presidente Omar al-Bashir, a 11 de abril. O homem, que estava no poder há mais de 30 anos, foi condenado à prisão, tendo-se instalado um regime de transição militar. Já em 2010, al-Bashir havia sido acusado pelos tribunais internacionais pelo genocídio na zona Oeste do País, no Darfur.

Mas após dois meses de negociações entre lideres dos manifestantes pró-democracia e os responsáveis pelo aparelho militar, as conversas cessaram a 3 de junho, dando lugar ao conflito. O Conselho de Transição foi acusado de nada fazer e de utilizar a violência como arma de poder, o que fez com que os manifestantes levassem a cabo, no passado domingo (primeiro dia de trabalho no Sudão), 9 de junho, uma campanha de desobediência civil, cujo objetivo seria fazer os militares abdicarem do poder: apelaram a todos os apoiantes da causa, pedindo-lhes que ficassem em casa, faltando ao trabalho, o que levou a uma quebra dos serviços.

António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, pediu “uma investigação rápida de todas as alegações de violência sexual”, tendo sublinhado que os responsáveis por estas ações de violência e tortura devem ser responsabilizados. Uma equipa já foi encarregue de investigar os relatos.

Pramila Patten, enviado especial da ONU para a Violência Sexual em Conflitos, já veio exigir a “cessação imediata e completa de toda a violência contra civis, incluindo a violência sexual”, reporta a “Lusa”, citada pelo “Observador”.