Com apenas cinco episódios, “Chernobyl” foi capaz de retratar o desastre nuclear de 1986 bem como as consequências políticas e sociais que dali resultaram. Mas a série da HBO não é um documentário e, por isso, houve espaço para alguma liberdade criativa à medida que a história ia sendo contada.

Apesar de a série criada por Craig Mazin (“O Astro-Nabo”) ter sido fiel a vários momentos importantes, como a morte do bombeiro totalmente queimado ou as equipas responsáveis por abater os animais da região, nem sempre foi assim.

Em que é que “Chernobyl” acertou e errou sobre o desastre nuclear?

A cientista interpretada por Emily Watson, uma das figuras principais, nunca existiu e serviu apenas para representar todas as especialistas femininas que estiveram envolvidas durante toda a crise.

Em entrevista à revista “Variety”, Mazin revelou que lhe fez sentido “colocar uma personagem feminina no centro da investigação”. Até porque, continua, a União Soviética sempre contou com várias mulheres cientistas.

“A ciência e a medicina foram as áreas onde os soviéticos eram mais progressivos do que o resto do mundo. Havia muitas mulheres cientistas ou médicas”, explica.

Ainda assim, houve outras cenas que aconteceram tal e qual como vimos na série. É o caso da queda do helicóptero, retratada no segundo episódio da série. Só que não ocorreu imediatamente a seguir à explosão de quarto reator da central nuclear, mas sim duas semanas depois.

Divergências temporais à parte, a queda foi real e matou todos os que estavam a bordo do aparelho. E o momento ficou registado em vídeo por Vladimir Shevchenko, um realizador ucraniano que, em 1986, conseguiu acesso à região para filmar o documentário “Chernobyl: Chronicle of Difficult Weeks”.

Na gravação, vê-se o helicóptero a colidir com a grua, altamente radioativa, usada para cobrir o reator exposto e a cair numa questão de segundos.

O filme só viria a ser lançado em 1990 — e foi catalogado como o pedaço de filme mais perigoso de sempre. O rolo e a câmara foram armazenados numa caixão de aço num armazém em Kiev, na Ucrânia. Quando teve acesso às gravações, o realizador reparou que havia manchas no rolo que atribuiu à humidade e às más condições de armazenamento do local onde os objetos tinham ficado guardados.

Mas na verdade tudo aquilo era consequência da radiação que corrompeu a cor da gravação. Um ano depois das filmagens terem sido captadas, Vladimir Shevchenko não resistiu aos ferimentos consequentes da exposição à radiação e morreu.