Alex Macheras tem 22 anos e o emprego de sonho: viaja em primeira classe a testar aviões

À MAGG, recorda como aos 14 anos já colaborava com uma rádio e as festas loucas em aviões onde nenhum passageiro ainda tinha entrado.

A última festa em que esteve aconteceu no voo para Manila, nas Filipinas, onde havia colunas de som, sistema de luzes, uma disco ball e um mini palco de dança

Alex Macheras

O contacto com Alex Macheras, 22 anos, foi totalmente aleatório e aconteceu durante a última edição da Innovation Days em Toulouse, França, onde a Airbus apresentou as novidades da indústria da aviação. Para onde quer que Alex fosse, havia a certeza de que uma grande entourage o seguiria — e isto reforçava a sua imagem.

Com mais de 45 mil seguidores no Instagram, o jovem é já uma sensação da indústria de aviação depois de ter começado, desde muito novo, a comentar para várias estações de televisão. Atualmente, combina essa vertente com o teste de novos aviões, nos quais nunca ninguém andou, e viaja um pouco por todo o mundo. Sempre em primeira classe.

Durante as conferências, que estavam repletas de jornalistas, influenciadores e entusiastas do meio, o Twitter foi amigo e tornou próximas duas pessoas que nunca se tinham visto na vida. Enviei uma mensagem, apresentei-me como jornalista da MAGG e lancei o isco: “Estou em Toulouse a cobrir o evento da Airbus. Estaria disponível para uma entrevista?”.

A resposta chegou em menos de dois minutos: “Sim, estou por aqui. Vemo-nos no intervalo?”. E assim foi. Apesar do néon das luzes da sala de palestras que encadeavam os olhos, preparei umas perguntas e esperei o intervalo.

Interessava-me perceber como é que um miúdo de 22 anos se tinha tornado neste fenómeno que especialistas do meio geralmente criticavam. Especialmente por acharem que Alex não tinha experiência e que só se limitava a replicar aquilo que lia nos comunicados oficiais. Anunciada as quase duas horas de pausa, encontrámo-nos.

No início, a dúvida. “Esta entrevista é sobre quê?”, perguntou-me com a mesma humildade com que aceitou o convite. Feita a explicação, Alex mostrou-se surpreso. “Pensei que fosse sobre a conferência da Airbrus”, desabafou. Mas a verdade é que estava preparado para responder a qualquer pergunta que o tivesse como ponto de interesse. E isso comprovou-se na forma articulada e assertiva com que contou a sua história.

Nasceu em Londres, no Reino Unido, e desde muito cedo que se lembra de ser obcecado com o que se passava no céu. Foi a partir dessa paixão que começou a pesquisar e a ler sobre toda a indústria da aviação: como funcionavam os aviões e como é que era feito o fabrico.

“Lembro-me que quando era muito mais novo passava horas a ler tudo o que encontrava sobre aviões, enquanto os miúdos da minha idade estavam de férias ou a brincar”, revela. Depois de toda a pesquisa, foi com 8 anos que criou o primeiro site onde comentava, de forma regular, as últimas notícias sobre o tema. E as suas opiniões foram chegando a cada vez mais pessoas.

“Com o passar dos anos, os artigos que eu publicava iam sendo cada vez mais lidos até que uma rádio em Londres me contactou e me convidou para comentar uma história que eu tinha escrito no meu site. Nessa altura tinha 14 anos”, continua. Mas isso não foi um problema.

É que, segundo ele, os responsáveis pela rádio sabiam do investimento que Alex tinha feito ao longos dos anos. E a necessidade de terem alguém que comentasse notícias de aviação foi suficiente para que pudesse assinar o seu primeiro contrato com aquela idade.

Mas a velocidade a que a vida de Alex ia mudando implicava um esforço ainda maior. A profissionalização de uma paixão acontecia ao mesmo tempo que o jovem conciliava os estudos — mas conta que nunca, em algum momento, olhou para o que fazia como um trabalho. “Gostava e ainda gosto muito disto para ser um trabalho. É uma paixão”, reforça.

No entanto, tudo isto aconteceu sem qualquer influência da família. “A minha mãe faz bolos de casamento e o meu pai é engenheiro de carros. Foi tudo baseado num interesse que foi crescendo em mim desde muito novo.”

E essa é uma das críticas que muitos especialistas e entusiastas do meio apontam a Alex: a inexperiência. Mas o jovem britânico vive bem com isso e assegura que não se foca na “negatividade da fama” ou no sucesso repentino, referindo-se ao Instagram que é onde fala para uma maior audiência (mais de 45 mil seguidores contra os cerca de 25 mil do Twitter).

“Uso o Instagram para mostrar os bastidores daquilo em que estou envolvido durante o dia. E não é muito diferente de publicar uma fotografia daquilo que se faz no fim de semana. Claro que tenho a possibilidade de chegar a um maior número de pessoas que, como eu, são entusiastas da aviação mas sinto que estou na posição única de mostrar áreas exclusivas a que outros não têm acesso”, defende.

Se há pontos negativos? A altitude, enquanto bate na madeira para afugentar os maus presságios. Mas é só isso, explica. É que até ser reconhecido nos aeroportos lhe é perfeitamente natural.

Quanto às críticas, o analista diz estar ciente do que se diz pela internet fora. Mas também para isso tem uma resposta preparada e assertiva: afinal, explica, não está a representar nenhuma empresa e isso dá-lhe toda a liberdade de que precisa. É pago pelos meios de comunicação para os quais trabalha, o resto prefere não comentar.

“No final de contas, nunca assumi ser um especialista. Limito-me a analisar aquilo que está a acontecer na indústria que acompanho há anos. Não me limito a ler os comunicados oficiais e a aceitar quando uma companhia aérea me diz que tudo o que eles anunciaram é perfeito. Aos meus olhos pode não ser. Se a empresa tiver algum problema com a verdade, isso diz mais do seu caráter do que do meu”, continua.

As festas e a experiência de estar num avião onde nenhum passageiro ainda entrou

Mas afinal, o que é que Alex Macheras faz quando não está a comentar nas rádios ou na televisão? Aquilo que muitos poderiam considerar ser o emprego de sonho: a viajar pelo mundo em primeira classe e a testar aviões onde ainda nenhum passageiro entrou.

“A fase de testes passa por tentar perceber porque é que aquele modelo de assentos funciona tão bem, ou porque é que os estores das janelas caem na vertical ao invés de fecharem na horizontal. No fundo, é reconhecer e perceber o que é que permite criar um ambiente de conforto máximo aos passageiros.”

Quanto à suposta responsabilidade de sentir que não pode falhar um único detalhe, o analista desvaloriza e diz que não sente essa pressão. No entanto, não esconde que está sempre atento a tudo “mesmo que não queira.”

“No fundo, acaba por ser um bocadinho como saber que o vizinho tem um carro igual ao meu. Se tivermos acessórios ou extras diferentes, eu vou querer saber para poder comparar com aqueles que não tenho para perceber se valem ou não a pena considerar numa próxima compra.”

Mas Alex tem noção do privilégio que é poder participar numa experiência deste tipo. “Adoro a sensação de estar num avião onde nunca ninguém entrou”, e diz que só aí é que é possível sentir coisas que em voos comerciais não seriam possíveis — como a textura do chão.

“Alguma vez se sentou no chão durante um voo? Neste tipo de voos [quando os aviões saem da fábrica para um dos centros da companhia aérea por que vão voar] é possível e pode ter a certeza que eu o vou fazer sempre que conseguir.”

É neste tipo de voos que, segundo explica, se pode realmente aproveitar o prazer de voar. Até porque toda a experiência é muito mais calma — desde o momento em que se chega ao ponto de descolagem até ao voo em si. “Não há o risco de se perder o voo, não se passa pela segurança… é tudo muito mais relaxado.”

E é isso que permite todo o tipo de experiências, também muito devido às pessoas que, geralmente, testam os aviões com Alex. Embora seja sempre um grupo pequeno de, no máximo, dez ou 12 pessoas, isso não significa que todo este processo seja aborrecido.

“Houve um voo que fiz com destino a Banguecoque onde, antes da descolagem, um dos passageiros parou numa loja que havia lá perto e comprou baldes de frango para comermos durante a viagem. Assim que descolámos, colocámos um pano de piquenique no chão do avião e preenchemos aquilo tudo com comida: desde batatas a frango assado ou chocolate. Foi a refeição mais estranha que comi num avião, mas foi incrível”, revela.

Mas também há festas, e o analista britânico não tem problemas em revelar isso. A última em que esteve aconteceu no voo para Manila, nas Filipinas, onde havia colunas de som, sistema de luzes, uma disco ball e um mini palco de dança.

“Passámos a noite em festa a mais de 35 mil pés de altitude e enquanto sobrevoávamos o Médio Oriente. Havia álcool, chocolate e petiscos. Quando chegámos a Manila estávamos todos muito cansados, mas faz parte da experiência e por isso é que é tão única.”

A MAGG esteve em Toulouse, França, a cobrir o evento Innovation Days a convite da Airbus

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