No coração de Ponta Delgada, cidade açoriana de São Miguel, há um alojamento turístico que tem tudo o que é preciso para se sentir confortável e em casa. Chama-se Armazéns Cogumbreiro, numa homenagem àquilo que este espaço já foi: uma espécie de Armazéns do Chiado que abriu portas em 1913. Aqui havia desde roupas a loiças, as últimas tendências vindas de capitais europeias, como Londres. Foi aqui que nasceu o primeiro elevador da ilha, aquele onde hoje vemos imagens que recordam o passado que ali se viveu.

Mas aquilo que outrora fora o maior estabelecimento comercial dos Açores, é hoje, e desde junho de 2017, um edifício renovado e pensado pelo arquiteto português Aires Mateus, que, por dentro e por fora, manteve a traça original — aquela que foi inspirada nos armazéns alemães da época da sua construção, no início do século XX, portanto a única do género na ilha.

Ficha técnica

Mostrar Esconder

Morada: Rua Machado Santos, 1 9500-018 Ponta Delgada
Telefone: 965 889 661 / 96 6773 226
Email[email protected]
Preço: 80€-130€

Amigo dos Cogumbreiro e interessado naquele edifício desde que o viu, Aires Mateus — responsável pela sede da EDP, o que valeu ao seu atelier uma vitória no Prémios Valmor e Municipal de Arquitetura — respeitou a traça, mas reuniu no interior a leveza e contemporaneidade. “A dona do edifício é a minha mãe, mas o grande mentor do projeto foi o meu pai”, diz à MAGG Rita Franco, administradora destes alojamentos, em conjunto com a irmã, Raquel Franco. 

Foi por aqui que MAGG se instalou durante três dias. Com nove quartos, com nomes que homenageiam cada uma das ilhas do arquipélago, foi no Santa Maria, um dos três de tipologia superior (há ainda três standart e três deluxe) que ficámos. Com um pé direito alto e uma grande porta interior que nunca se ouve porque só desliza, o branco é o tom predominante, rasgado apenas pela cor de alguns apontamentos, como a cabeceira, as almofadas ou a manta da cama, dos cadeirões, da madeira do chão, dos pés da mesa, da luz que nos entra no quarto através de duas grandes janelas.

Uma mesa, uma cama e uma cozinha podem conviver no mesmo espaço, sem lhe retirar o bom ar

É minimalista, mas acolhedor. É sofisticado, mas sem ponta de pretensiosismo. Numa altura em que se promove a feliz ideia do menos ser mais, nesta espécie de T0 de luxo de paredes despidas não existe a poluição das coisas que não interessam, porque aquilo que importa mesmo é reparar na arquitetura, em perfeita harmonia com decoração. A mesa pequena e redonda, na mira de uma das janelas e, portanto, da luz, é perfeita para quem ainda traz algum trabalho, para quem quer ler o jornal ou escrever, na companhia de um chá ou de um café, elementos disponíveis na cozinha corrida, onde existe fogão, forno, torradeira, chaleira e todos os utensílios importantes para cozinhar e comer.

A mesa é iluminada pelas enormes janelas que deixam ver as ruas mais movimentadas de Ponta Delgada

A privacidade que nos acompanha desde o momento em que chegamos ao momento em que nos despedimos, vão, gradualmente, dando-nos a impressão de que aquele é o nosso sítio, não aparecesse a cama feita e a caneca do café que ficou por lavar no sítio. Não há receção, a entrada da rua faz-se através de um código. Não nos cruzamos com pessoas, porque a capacidade deste alojamento não é muito vasta — e ainda bem, porque dificilmente se manteria o mesmo mood se fosse de outra forma.

Sem banheira ou jacuzzi, a casa de banho é como tudo o resto: simples e elegante. Bem iluminada e em mármore, a única coisa a apontar refere-se ao chuveiro, mas esse será um defeito que está longe de ser exclusivo dos Armazéns Cogumbreiro. Está em todos os hotéis e em muitos alojamentos turísticos e é importante falar dele: as torneiras — que aqui nem são das mais complexas, acreditem — precisam quase de um manual de instruções porque, à primeira vista, não se entende por onde vai sair a água e, pior, como é que se regula o quente e o frio, terrível junção de contratempos.

Crítica. A minha carta de amor ao hotel Quinta das Lágrimas

Ora, nada pior do que esta aprendizagem a funcionar no modelo tentativa-erro porque, à partida, vamos estar despidos e à mercê do jato de água (normalmente gélido) que pode, a qualquer instante e sem aviso, irromper de uma das saídas de água. Senhores que inventam torneiras, por favor limitem a oferta ou, pelo menos, revejam a facilidade com que se manuseia a coisa. Nós, comuns mortais, teremos em nossas casas o modelo mais básico e, portanto, não estamos familiarizados com estes luxos que não são funcionais e que, honestamente, se dispensam. 

Por outro lado, o secador, pormenor que tende a pecar em termos de qualidade e potência, é aqui perfeito. E já que falamos em padrões irritantes de hotéis, aproveitamos para referir que nos Armazéns Cogumbreiro os candeeiros contrariam a tendência, porque evitam aquele liga e desliga frenético que nos dá a sensação de estar numa discoteca, sensação terrível para o processo de produção da seratonina, a hormona que nos dá sono.

A casa de banho é simples, mas continuamos a ter problemas com chuveiros complicados

Nos Armazéns Cogumbreiro não existe pequeno-almoço incluído. Primeiro, porque temos uma cozinha, com toda a comodidade para armazenar, cozinhar e arrumar. Depois, porque no andar que dá acesso à rua está a cafetaria e gelataria, aquela de que gostámos tanto, que foi o nosso ponto de café diário, mesmo nos dias em que já não nos encontrávamos alojados aqui.

Ainda inserida na arquitetura deste edifício antigo, mas simples e contemporânea, e com a luminosidade permitida pelas grandes janelas que marcam todos os espaços dos Armazéns, com a mão de Aires Mateus, aqui há iogurtes com cereais, croissants, quiches, empadas, bolo lêvedo de várias formas, baguels, tostas, diferentes tipos de panquecas, chás, sumos naturais, sem esquecer as refeições que se servem à hora do almoço. Há ainda os gelados, artesanais, perfeitos para um dia de sol. Ao fim de semana, há a possibilidade de escolha o brunch, que conseguirá, de certo, dar-lhe a energia que precisa para o dia todo, por 15€.

O prédio sofreu uma profunda intervenção do arquiteto Aires Mateus, que manteve a traça original do edifício

Este espaço da Rua Machado dos Santos, uma das mais movimentadas de Ponta Delgado é  sofisticado e bem acabado, mas simples, o que não significa que seja frio ou sem graça. Pelo contrário: numa estadia nos Armazéns Cogumbreiro não estranhamos um sítio que não é nosso, porque aqui estamos na pequena casa que sempre quisemos ter. Não vamos esquecer a versatilidade do contexto: perfeito para ir em casal, também é ideal para quem vai sozinho e procura o conforto, mas atenção porque é aquele que prefere a privacidade e descrição.

Consoante a época e a tipologia do quartos, os preços variam entre 80€ e 130€ por noite.

*A MAGG esteve alojada a convite dos Armazéns Cogumbreiro