Leveza é diferente de ligeireza. Tradição não é o mesmo que tradicionalismo. A liberdade reside na possibilidade de dependência de quem nós gostamos ou, visto de outra perspetiva, “o amor é uma excelente prisão”, contrariamente ao ódio, que é “uma má liberdade.”

Os paradoxos, os “trapezismos, malabarismos, contorcionismos” que as palavras permitem deliciam António Bagão Felix, 71 anos, ex-ministro da Economia, tanto quanto a botânica o fascina, área a que esteve para se dedicar, não tivesse sido o rasgo de última hora que o fizera alterar o curso da sua vida rumo a Económicas. Ainda que possam parecer distantes, a realidade é que o universo vegetal e o dos significados não vivem separados e isolados. Estão intrinsecamente ligados, como acontece a tudo que o vive no mundo. No cosmos, aliás.

“Raízes de Vida”, o seu novo livro, editado pelo Clube do Autor, é um espelho disso mesmo. Numa visão contrária à antropocêntrica, aquela em que tudo parte do homem, nestas 232 páginas, que integram o contributo de Ana Paula Figueira, não só se aprende sobre o mundo vegetal, como nos deparamos com as reflexões do autor que, naquele momento, passam a ser também as nossas. Portanto, mais do que um livro sobre plantas, trata-se de um livro sobre a vida, como o próprio autor explicou à MAGG, numa conversa descontraída, de mais de uma hora. É importante entender a estrutura do livro: para cada parte da árvore, da raiz ao fruto, António Bagão Felix atribui uma série de “celas” — porque acabam por ser “prisões”, o não significa que sejam más — desde amor, à amizade, lealdade, silêncio, exatidão, sensatez, busca ou tradição.

Mas houve mais nesta conversa: conversámos sobre os seus próprios paradoxos, sobre a curiosidade e sobre a memória. Falámos sobre uma sociedade que, a seu ver, está cada vez mais individualista, sobre a ideia do utilitarismo que dita os nossos dias. Falámos sobre o respeito pela natureza, sobre o futuro incerto que receberá as próximas gerações, sobre a evolução tecnológica, que trouxe coisas maravilhosas, mas outras mais tóxicas, como é o caso da raiva, cobardia ou ódio que proliferam em caixas de comentários. Falámos ainda sobre os prazeres de cada idade e sobre como é que a busca por conhecimento se torna em fruição absoluta, longe do sentido da obrigação. Não é por acaso que as netas lhe dizem que é uma enciclopédia.

Editado pelo Clube do Autor, o livro está à venda por 14,01€

Gosta de paradoxos.
O paradoxo é uma palavra de que eu gosto muito foneticamente e que traduz muito a forma como vejo a vida. Isto é, há um conjunto de contradições com que nos vamos deparando na vida, no nosso desenvolvimento. O paradoxo no início da vida começa por ser uma contrariedade, um obstáculo, uma anolamia. Com o correr da vida e, falo por mim, é um jogo. É uma maneira de nos conciliarmos com aquilo que aparentemente é antagónico. Eu acho isso muito interessante. Há uma frase absolutamente notável do Agostinho da Silva, que dizia: “Nem sou do ortodoxo, nem sou do do heterodoxo, só exprimo em cada um deles metade da vida. Sou do paradoxo, que a contém no total”. Eu concordo plenamente com esta ideia. E, de facto, o livro é também um livro dos meus paradoxos. Dos bons, dos maus, desde logo o paradoxo aparente que é um economista gostar mais de botânica do que de Economia. Isto é, de um profissional que gosta mais daquilo em que é amador do que de aquilo em que é profissional. Gostar no sentido de fruição da vida — evidentemente que gostei da minha profissão.

E, depois, é um paradoxo da razão face à emoção, que eu vivo muito no domínio futebolístico. Eu sou um ser completamente paradoxal a ver um jogo do Benfica, porque encontro o outro que está dentro de mim, mas que é contrário a mim. Sou completamente emocional, completamente parcial, completamente parcelar, portanto só vejo para um lado, e não consigo ter a temperança adequada para perceber que aquilo, como dizia um treinador italiano o Arrigo Sacchi: “O futebol é a coisa mais importante, de todas as coisas menos importantes”. É claro que é uma estupidez, porque depois desligo e passo a ser a pessoa que era antes do jogo. Mas pronto, estes são dois paradoxos que tenho na vida.

É isso que o trevo na capa representa?
O trevo é um paradoxo absolutamente notável do ponto de vista botânico. O trevo tem três folhas ou folíolos. Por isso é que se chama trevo — de três. Mas nós andamos no trevo à procura daquilo que não é o trevo. É um bocadinho como na vida: andamos à procura daquilo que é o sonho, isto é, queremos que a realidade se torne no sonho e o sonho na realidade. E, portanto o trevo que procuramos é o de quatro folhas. Primeiro, é uma anomalia técnica e botânica, porque não podemos chamar ao trevo de três folhas o de quatro folhas. Não queremos a normalidade da natureza, queremos a excecionalidade daquilo que procuramos. É um bocadinho isto que procuramos e que sempre achei piada nisto do trevo.

É um livro em que se aprende sobre o mundo botânico, mas em que também se reflete sobre a vida, como diz na capa, com “respostas da natureza às inquietações do homem.”
É esse o propósito. Isto é um livro sobre a vida, sobre aspetos de tradição, de civilização, de valores, referências, relações. No fundo, é o que nós somos, nós e as nossas circunstâncias. E pensei que para escrever sobre a vida podia falar sobre a vida de outros seres vivos, que são as plantas e as árvores. Pensei que podia juntá-las, acasalá-las e talvez ir buscar à botânica aspetos mais impressivos para mim da ideia da vida, do que é a vida, dos seus valores, relação, da lealdade, solidariedade, da prudência, de tudo o que eu falo aqui.

Por isso é que o dividi em seis partes: as raízes, o caule, os ramos, as folhas, as flores e os frutos, o que nos vincula, o que nos sustenta, renova, seduz ou une. São palavras sobre as quais falo em seis secções. É uma espécie de matriz com linhas e com 42 células, a que eu até chamo celas, porque nos fundo são também prisões para nós. Boas prisões algumas delas, mas vivemos muito nestes espaços, nestas células, ou celas.

Helena Sacadura Cabral: “A minha vida começou aos 50 anos”

Com que lógica é que as escolheu? É porque são as que lhe dizem mais?
Escolho com a seguinte lógica, que é muito pessoal, mas que não creio que funcione assim só para mim: a ideia melhor é aquela que nos vem primeiro à cabeça. Eu acredito muito na intuição. Portanto, o amor está nas raízes, porque é o que nos vincula, mas o amor também pode estar nos frutos. É assim que eu vejo e é a minha escrita, mas o itinerário da leitura não deve ser igual ou equivalente ao itinerário da escrita. Aliás, é engraçado, porque o livro começa em amor — e no seu feminino que é a amora — e acaba em tradição. Podia começar em tradição e acabar no amor, porque nós nascemos para amar, amar no sentido filosófico do termo. Só faz sentido estarmos no mundo com amor. Não faz sentido estar em desamor. Há gente que está, mas é uma passagem trágica, na minha opinião. Como alguém dizia no tempo dos anarquistas: “Para algumas pessoas a vida é uma doença hereditária.”

Eu acho que a parte florestal deveria ser subtraída ao PIB. Ardeu o pinhal de Leiria. Então o País não ficou mais pobre?”

Tem na sua cabeça muitas frases.
Por várias razões: mas porque tenho — ainda tenho, pelo menos — uma memória muito boa e também leio muito. Aliás, a botânica tem-me servido para isso. As pessoas fazem muita ginástica, fazem muito exercício físico, para ter o corpo em melhores condições. Mas a ginástica da memória é fundamental e a botânica dá-me muito isso. Por exemplo, eu sei os nomes cientificos das plantas. É um exercício para mim. Aquela ali [aponta para a capa de um livro], a que chamamos de estrela de Natal, é a euphorbia pulcherrima. Sou uma apaixonado pela palavra. Gosto da palavra, não só para ler, como para escrever. Eu brinco com a palavra, acho piada a fazer uns trapezismos, malabarismos, contorcionismos. Há uma expressão na estatística muito interessante que é a dos números torturados. Na escrita, direi que as palavras podem ser manipuladas, como se estivéssemos num almofariz.

Nem sempre é fácil encontrar as palavras certas. Às vezes nem sabemos que existem.
Há uma coisa que só me vai abandonar no último dia da vida, que é a curiosidade. Eu quero que a curiosidade permaneça sempre em mim criança. Ela cresceu, mas está sempre criança. Eu não quero saber por qualquer razão exterior, eu quero saber para mim, por causa do gozo, da fruição. As minhas netas acham muita piada. Chamam-me enciclopédia. Querem saber uma coisa e dizem: “Vai ao avô”. Mas também li muito. E, como dizia o Mark Twain: “Demorei 30 anos a preparar os meus improvisos”. Isto significa muita sedimentação do conhecimento, da memória, da associação. Demora uma vida. E, nesse sentido, a memória é de facto onde tudo acontece para me pertencer. É o meu património, é o meu celeiro.

Qual é que foi a última coisa que a sua curiosidade o levou a descobrir?
Acontece todos os dias, sabe, nas mais pequeninas coisas. Posso dar-lhe um exemplo de hoje, que foi uma curiosidade linguística: estava a pensar para mim porque é que umas pessoas dizem “alternativo” e outras dizem “opção”. “Tenho a opção de fazer isto” ou “tenho a alternativa de fazer isto.” As pessoas usam como sinónimo, mas não são sinónimos. A alternativa é quando posso escolher entre uma coisa e outra a opção é entre mais do que duas. Eu adoro isto, adoro estas coisas. Por exemplo: estive agora em Trieste [Itália], onde há um vento, de que, aliás, o James Joyce, que viveu lá, falava. É um vento muito forte, que é marítimo, que se chama bora. É um vento gélido. Eu fui estudar o vento. Dir-me-á, para quê? Para mim. Ao mesmo tempo, este livro é uma expressão disso na minha vida

Esquecemo-nos de fazer coisas as para nós, simplesmente porque nos dão prazer?
A vida hoje faz-se em função da utilidade. Somos utilitaristas. Vou dar-lhe um exemplo: eu estudei italiano, tenho uma professora, até escrevo um diário em italiano. Há três ou quatro anos — já falava relativamente bem, mas queria melhorar, até em termos de escrita — telefonei para uma instituição e a senhora do outro lado, muito simpática, perguntou-me: “Ah, está bem, mas o senhor vai viver para Itália?”. E eu disse que não. Perguntou se era por causa da empresa e eu disse-lhe que não estava em empresa nenhuma. Ela não percebia porque é que eu queria aprender mais italiano. E eu disse: “Pela razão mais simples de todas: porque gosto”.

É a tal ideia da utilidade.
É. Eu estou na fase da vida, melhor ou pior, em que já dei o que tinha a dar: já tive filhos e netos, já escrevi livros, também já plantei árvores, como se diz. Portanto, a fruição da vida é muito importante. Já agora a propósito: já reparou como é que chamamos aos dias de trabalho? São os dias úteis. Então, o sábado e domingo são inúteis?

É uma inversão do sentido da própria vida?
Deita abaixo o conceito da vida na sua plenitude. As pessoas hoje vivem muito a carreira, a competição. Eu vejo pelas minhas netas, pelas notas. Eu quero que as minhas netas sejam as mais comuns do mundo, absolutamente normais, que vivam suavemente, porque isto é uma passagem.

Falta-nos leveza na forma como encaramos as coisas?
Gosto muito da ideia do humor, de o dar e de o receber. Nesta perspetiva: nada é ligeiro, mas tudo pode ser leve. Há uma diferença entre ligeireza e leveza. Ligeireza é negativo, mas leveza é uma virtude.

Isto tem um bocadinho a ver com aquela ideia de pertença cósmica de que fala no livro.
Sim. A nossa vida não somos só nós, quer do ponto de vista antropológico, quer do ponto de vista de descentralização de vivências. Por isso é que vou à ideia das plantas e das árvores, porque nós estamos numa relação de interdependência. Nós precisamos das árvores e elas precisam de nós. Embora elas precisem menos de nós do que nós delas.

Até porque elas viveram muito tempo sem nós.
E elas é que nos fornecem oxigénio e capturam dióxido de carbono. Permitem-nos viver, se não, não estávamos cá.

Na estrutura do livro parece que há uma espécie de comparação entre o homem e a árvore.
São logo diferentes numa coisa, é que as árvores não têm costas. Depois, os seres botânicos não têm nenhum órgão vital sem o qual morrem. Se tivermos um problema cerebral, podemos morrer, mesmo que biologicamente continuemos vivos. E depois morremos se o coração deixar de funcionar. No caso de uma árvore: arranca-lhe uma folha, tira-lhe num tronco, tira-lhe os frutos, dá uma machadada na raiz. Ela não morre por isso. Ela vai revivescer. Tem formas de revivescência que o homem não tem. Porquê? Elas são organismos cesseis, que não se locomovem e, portanto, têm que se defender. Como é que esta natureza se defendeu? Não estando dependente de nenhum órgão em exclusivo perante um predador, que pode ser o homem, um animal, o ar, a chuva, as tempestades.

Nós temos todos a ver uns com os outros. Como dizia Levinas, um eticista e filosofo francês, ainda que nascido na Lituânia, ‘nós somos responsáveis por tudo e por todos ao mesmo tempo'”

É independente dela própria então?
É. É o único ser vivo com essa capacidade. E ainda tem outro a diferença: ao passo que todos os animais são heterotróficos, ou seja, a sua vida dependente da alimentação que é produzida por outro — precisamos de outros animais para comer, precisamos de legumes, frutos, etc —, a planta, como não se pode mexer, produz o seu próprio alimento, através da fotossíntese e da seiva. Precisa do sol, mas tem os seus mecanismos. Era como se nós pudéssemos alimentar-nos do sol. São duas diferenças brutais. Foi isso que me levou a juntar.

E as semelhanças?
Há, claro. A velhice. A degradação. A doença. A doença pode atacá-la, como a nós. E, no fundo, a fotossíntese é para elas o que o coração é para nós.

Tendo em conta as semelhanças e, por outro lado, esta dependência do homem face à árvore, temos estado a ser ingratos?
Absolutamente. Há uma grande ignorância ou indiferença face a isso. A indiferença é pior do que a ignorância, porque a ignorância ultrapassa-se. Não é que seja grave, mas às vezes pergunto aos meus amigos como é que se chama a árvore em frente à casa deles e não sabem, exceto se for uma oliveira, um pinheiro ou um eucalipto. Há 30 anos que aquela pessoa vê aquele ser vivo sempre que sai de casa. À vizinha pergunta o nome do cão. As árvores também sentem nesse sentido. E sentem mesmo. No Alentejo, antes de entrar em casa, sobretudo no verão ou na primavera, vou visitar toda a minha prol vegetal. Cumprimento as árvores, vejo aquelas que estão em situação de parto, aquelas que estão perto do fim. Aqui tenho uns bonsais e uns canteiros e quando vou de férias peço à pessoa que vem cá que as regue, nestas condições, a tal horas, mas não é a mesma coisa. É como com um bebé. Uma pessoa amiga ou de confiança pode fazer exatamente a mesma coisa, mas nunca é igual. É interessantíssimo isso.

Hoje, apesar do aumento de movimentos de maior consciencialização da importância da botânica e das árvores, o que é certo é que é dramático o que se está a passar. Todos os anos aparece uma área de desflorestação no planeta igual ou maior que o território da Suíça.

Esta consciencialização, alarmismo, chega tarde demais?
É. Mas também há algumas zonas de reflorestação. Há dois tipos de desflorestação: a que resulta da indiferença, da ganância, de negócio e há a desflorestação, sobretudo em África, que resulta de retirar árvores para a agricultura, para a subsistência. Essa é mais compreensível do ponto de vista humano, embora tenha o mesmo efeito.

Como é que vê medidas como a abolição das palhinhas, por exemplo?
Vejo bem, do ponto de vista simbólico e comportamental, por aumentar a consciencialização do interdito, do ponto de vista ambiental. Todos esses produtos são anti-ambientais, mas mais anti-ambiental é o comportamento generalizado das pessoas.

Ouvimos falar da pegada ecológica, do problema dos plásticos, da desflorestação. Estamos a promover as medidas certas para combater o que está a acontecer?
Acho que a sociedade está a atuar bem e a tentar consciencializar-se através de organizações não governamentais, ainda que, por vezes, com um certo fundamentalismo, que é perverso, mas, de modo geral bem, os poderes públicos é que estão sempre só discutir. Parole, parole, parole. São palavras. De facto, medidas efetivas não vemos. E, depois, é tudo muito à distância: “Temos de, até 205, reduzir…”. É preguiçoso e próprio daquilo em que, infelizmente, e no meu entender, a política se está cada vez mais a transformar: só na ideia do curto prazo, das próximas eleições, porque, raramente se governa para as próximas gerações. As minhas netas têm entre 16 e 3 anos e eu falo com a minha mulher e pergunto-lhe qual é o mundo que elas vão ter daqui a 40, 50 anos, incluindo a parte ambiental. Isto do plástico mete medo. É dramático. Isto também tem a ver com outra característica da sociedade: está cada vez mais individualista.

Já falou sobre a possibilidade de o PIB passar a contemplar aquilo que se perde.
Já reparou que houve este incêndio em Notre-Dame e o PIB aumentou. Aumentou na medida em que se fez trabalho, mas como não tem como subtração o prejuízo, neste caso do desaparecimento de parte património cultural e artístico, o PIB aumentou. É um paradoxo. Então, na parte ambiental é ainda mais terrível. Os rios estão mais poluídos, o curso dos rios está a secar, dezenas ou centenas de milhares hectares ardidos, poluição nos mares e no ar, e nada disso conta. Eu acho que a parte florestal deveria ser subtraída ao PIB. Ardeu o pinhal de Leiria. Então o País não ficou mais pobre? Se eu tiver uma casa com um pomar, há um incêndio no pomar e fique sem árvores de fruta. Então não fiquei mais pobre? Eu chamo-lhe o PIB verde ou o PIB azul, se considerarmos os oceanos, a água e o ar, que deveria obviamente considerar como soma a produção e tudo o que se faz e diminuir aquilo que deixou de se ter patrimonialmente. Esta era uma medida que — aliás, não é nova, não é minha, atenção, isto está a ser estudado — se imporia e que escrutinava muito mais os políticos. Quer dizer, agora diz-se que o PIB cresceu 1,4 e está tudo muito bem, mas se se disser que cresceu 1,2 mas decresceu 0,7 porque houve 200 mil hectares que arderam no ano X. É assim que deve ser. Não podemos contabilizar só os ativos, quando não contabilizamos os passivos. Um desaparecimento de uma floresta é um passivo nacional.

Sobre aquilo que dizia sobre a sociedade mais individualista, em que aspetos é que observa esta característica?
Por exemplo, nos telejornais aparece sempre alguém que diz: “ai, isso não é nada comigo”. Nós temos todos a ver uns com os outros. Como dizia Levinas, filosofo francês, ainda que nascido na Lituânia: “Nós somos responsáveis por tudo e por todos ao mesmo tempo”. Isto é, eu sinto-me responsável por — no sentido filosófico do termo, o que, enfim, gera um dever e uma deontologia que nos influencia no dia-a-dia — por exemplo, por cada pessoa que morre no mediterrâneo.

Depois, há outra característica, que também tem a ver com o mundo botânico e das árvores, que é uma certa banalização, vulgarização. As coisas tornam-se numa coisa rotineira. Eu fiquei tristíssimo — sangrou-me o coração, porque me interessa e, além do mais, sou católico — com o fogo de Notre Dame. Mas Notre Dame já desapareceu dos noticiários. Agora é tudo sobre a greve dos combustíveis e daqui a oito dias será outra coisa. É tudo descartável, tudo de um dia para o outro. E um naufrágio no mediterrâneo? Já não é notícia. Banalizou-se tudo. E isso gera uma ideia de indiferença que é brutalmente preocupante.

Isto tem a ver com a evolução tecnológica, com a Internet. Como é que antes os assuntos não morriam tão rapidamente?
Eu tenho refletido muito sobre isso. Havia uma noção diferente de tempo. O tempo não era físico, não era chronos, era mais kairós, que é o tempo espiritual. Eu queria saber um assunto, em abstrato, e havia muito mais a ideia de estudar as coisas na vertical, ou seja, em profundidade. Agora as coisas sabem-se na horizontal, na espuma dos dias. Ninguém aprofunda nada. Ninguém para para pensar e para contemplar. É uma prisão. Às vezes estou a ler o jornal e vejo qualquer coisa e penso “também tenho de ler isto”, mas depois digo assim “era o que mais me faltava”. Alguém tem de impor aquilo que quero ler?” Não. Eu só vou ler aquilo que eu quero.

Como é que nos libertamos desta prisão?
Não tenho um conceito negativista das tecnologias, porque tem coisas muitíssimo boas. Acho que as novas tecnologias têm dois problemas, sem prejuízo de serem coisas muito importantes. De algum modo, esses dois problemas, refletem muito dos aspetos menos positivos da sociedade. Por um lado, a ideia que resulta de nós perante um mar de coisas, em que não somos capazes de distinguir aquilo que é importante daquilo que não é importante. A maior parte das coisas importantes não têm nenhuma urgência e a maior parte das coisas urgentes não têm nenhuma importância. Depois, o tempo. Por exemplo: hoje em dia já ninguém é pontual, porque há sempre um dedo que automaticamente nos permite dar mais tolerância.

Marçal Grilo. “Eu sou politicamente incorreto e tenho gosto em o ser”

Ficámos mais levianos com a pontualidade?
Há aqui uma coisa engraçada para a qual já nem lhe sei dar a resposta. Eu vim para a faculdade com 17 anos. A minha mulher, que era minha namorada na altura, veio a seguir. Ela estava na de Letras e eu estava em Económicas. Eu vivia em Campo de Ourique, num quarto. Ela vivia na Avenida de Roma. Não havia telemóveis e em casa só podíamos usar o telefone se fosse para uma situação de urgência — tínhamos de ir a uma cabine por os cinco escudos para fazer o telefonema. Às vezes eu estava doente ou ela. Questiono-me sobre como é que avisávamos que, afinal, não íamos jantar à cabine universitária? Eu já não sei. Mas a verdade é que tudo funcionava. Não digo que fosse melhor ou pior, mas era diferente. Havia mais sentido do compromisso, da pontualidade, do rigor, da exatidão, que é um valor ético, no sentido mais global da expressão.

Gostar da vida aos 70 é diferente de gostar aos 30 ou aos 50. Nós temos de saber viver com as armas que temos em cada uma das idades. Aos 70 há mais liberdade. Ser livre é depender do que nós gostamos. Nós dependemos sempre de alguma coisa. Quanto mais eu depender do que gosto e de quem gosto, mais livre sou.”

Mas ainda há mais dois perigos das tecnologias, esses sim, são perigos reais. Primeiro, é preciso perceber que elas são meios para nós usarmos, são instrumentos, portanto não são fins e não se podem tornar numa algema da alma, nem o telemóvel, nem o computador, nem o iPad. Às vezes riu-me de mim próprio porque estou no computador, a mudar o ecrã de um powerpoint, por exemplo, e irrito-me porque aquilo está a demorar tempo. Uma coisa que antes demorava três dias, agora demora cinco segundos e eu fico mais irritado com os cinco segundos do que com os três dias anteriores. Zango-me comigo próprio e começo-me a rir.

O outro ponto é, sobretudo nas redes socias, a uniformização entre a verdade e a mentira, entre a elegância e o urbanismo, a indecência, a cobardia, impessoalidade, o ódio. Isto é, escrevem-se coisas nas redes sociais, que, face a face, as pessoas seriam incapazes de dizer. É a cobardia, a selvajaria de estar perante uma barreira. Isto faz lembrar uma frase do Miguel Torga muito bonita, que eu gosto muito de usar. Não havia ainda a palavra globalização e ela já havia escrito isto: “O Universal é o local sem paredes”. Agora, sem paredes, no sentido positivo. O problema é quando pomos paredes geradas pela cobardia, imbecilidade, anonimato, pela perversidade. Isso é um aspeto que temos de acautelar, mas eu penso que é muito difícil.

Costuma ler os comentários àquilo que escreve ou quando é publicada uma entrevista?
Raramente. Muito poucas vezes, para ser mais rigoroso. As pessoas pegam em aspetos pessoais da vida das pessoas. Por exemplo, eu sou católico, e por ser católico apanho uns chavões. Por ser católico sou pior do que os outros? Ou sou melhor? Nem uma coisa, nem outra. Eu sou o que sou. É engraçado porque às vezes as minhas filhas, sobretudo uma delas, diz-me que viu uns comentários. Eu digo-lhes para nunca lerem nada disso. Não interessa nada. É que, além do ódio, há a inveja. Os alemães têm uma palavra que nós não temos que significa a alegria com a tristeza dos outros, o schadenfreude.

De todas as referências — ou celas — que inclui no livro, qual é aquela em que há mais deficiência?
A tradição, que é a expressão viva dos mortos — ao passo que o tradicionalismo é a expressão morta dos vivos. As pessoas confundem isso. E tradição não é o contrário de progresso. O contrário de progresso é o regresso, é voltar atrás. Tradição não é voltar atrás. Os ingleses quando têm determinado tipo de tradições não estão a votar atrás, estão a enfatizar e a tornar sublime as coisas boas que a tradição nos trouxe até hoje. Não é uma visão reacionária. Pode ser conservadora, mas o conservador não é reacionário, no sentido em que reage contra o progresso e o futuro. O que é a família senão a tradição, ao longo da história da humanidade?

O que é que a idade lhe ensinou?
Em primeiro lugar, a compreender melhor o outro. Não gosto de usar a expressão tolerante. Portanto, a nunca ajuizar precipitadamente sobre o outro ou sobre qualquer coisa. Eu hoje sou mais paciente no sentido do outro. Não faço juízos precipitados. Aprendi muito com o erro. Para mim o erro é a grande pedagogia da vida. Não é repetir o erro que fizemos anteriormente. Como dizia Bertrand Russell: “Há tanto erros para cometer que, ao menos, inove nos erros.” Repetir um erro feito anteriormente já é prova ou de preguiça ou de pouca inteligência. A vida é um caminho de pedras, de embates. E aprendi a gostar da vida, com diferentes facetas ao longo da idade. Gostar da vida aos 70 é diferente de gostar aos 30 ou aos 50. Nós temos de saber viver com as armas que temos em cada uma das idades. Aos 70 há mais liberdade. Ser livre é depender do que nós gostamos. Nós dependemos sempre de alguma coisa. Quanto mais eu depender do que gosto e de quem gosto, mais livre sou.

Mais um paradoxo.
Exatamente. No primeiro livro que escrevi, o livro começa com a frase, que tinha a seguinte ideia: “O amor é uma excelente prisão. O ódio é uma má liberdade.”