“Tinha 50 anos quando pintei o meu grande mural no Largo de Sapadores, em Lisboa, e sou, provavelmente, a artista de arte urbana portuguesa mais velha. No final de 2018 também pintei o painel comemorativo dos 40 anos da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas”, começa por contar Isa Silva, de 52 anos, à MAGG.

Foi quase aos 50 anos que a artista visual natural de Lisboa realizou um sonho bem antigo: o de ser artista e estar ligada à área do desenho e da criatividade. “Desde pequena que tenho paixão pelo desenho e a minha mãe conta que eu enchia as toalhas de papel dos restaurantes com desenhos.” O seu percurso escolar foi realizado dentro da arquitetura, artes plásticas e design. Aos 17 anos foi mesmo uma das premiadas num concurso mundial de criatividade. Mas a vida não lhe permitiu seguir o sonho e trabalhou em outras áreas bastante diferentes.

“Queria seguir arquitetura, mas não consegui continuar o curso porque tive de começar a trabalhar para ajudar nas despesas de casa, e isso ‘partiu-me as pernas’ ao longo da vida.” Isa Silva trabalhou como dactilógrafa e pelo meio ainda frequentou, em horário pós-laboral, o curso de Design Gráfico na Escola de Tecnologias Inovação e Criação. “O trabalho de dactilografia não era para mim. Queria algo muito diferente.”

Isa Silva junto ao mural que pintou em Lisboa quando tinha 50 anos

Deixou esse emprego para tirar um curso de formação profissional de longa duração e tornou-se formadora na área da microinformática. Trabalhou ainda em multimédia. “Quando a empresa faliu comecei a descobrir um mundo chamado internet. Em 1998, a internet começava a chegar a Portugal e fui uma das primeiras pessoas no nosso País a trabalhar em regime de teletrabalho, ou seja, trabalhava em casa utilizando as telecomunicações”, recorda. Fez também web design, gestão de conteúdos e gestão de sites de redes sociais.

Quase a chegar aos 50 anos ficou desempregada. “Foi na pior altura, com aquela idade em que se é ‘velha’ para se ser contratada e nova de mais para a reforma. Tinha 46 anos”, recorda. “Dias muito difíceis se seguiram. Agarrei-me ao que de melhor sabia fazer e comecei a trabalhar em ilustração, design gráfico, fotografia, pintura em tela e parede e em artesanato.” Atualmente, com 52 anos, Isa Silva trabalha como freelancer na área de ilustração, design gráfico, live sketching, paginação e pintura artística.

“Os 50 anos trouxeram-me ainda mais criatividade e uma crescente vontade de aprender muito mais coisas. Estou sempre curiosa para experimentar novas técnicas, novas ideias e noto que a cabeça não para de fervilhar. Não paro de sonhar, de ter vontade de viver outras coisas. Ainda tenho tanto para aprender e fazer.”

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Ser veterinária, trabalhar com animais ou viajar mais está na lista do que ainda não concretizou. Mas há muitos mais sonhos que ainda quer realizar, como conseguir editar um livro infantil com história, ilustrações e design da sua autoria; criar e editar um livro pop-up; conhecer a Toscânia em Itália e “andar por lá a desenhar”; ir a Barcelona e expor os seus trabalhos.

Há ainda um sonho que considera ser “meio impossível”: o de criar uma fundação para apoiar e divulgar diversos artistas, como pintores, escultores, autores teatrais, artesãos, criadores, que “não conseguem ter uma galeria, um espaço cénico, entidades, mecenas ou financiamento para continuarem o seu trabalho de criativo”, conclui.

Iniciar uma licenciatura aos 53 anos

Ser Guia Intérprete Oficial. Era o sonho de uma vida da Maria João, de 54 anos, que desde cedo esteve ligada ao mundo do turismo. “Amo de paixão o meu País, tenho um sentido de pátria que me corre nas veias. Adoro mostrá-lo e sobretudo fazer com que o experienciem”, revela Maria João, de 54 anos, à MAGG.

“Mais do que mostrar ou documentar, hoje vale a experiência e isso faz-me vibrar quando vejo outros a sorrir com o que lhes mostro do ‘nosso’ recanto.” Mas foi só aos 53 anos que começou a investir neste sonho, quando entrou para a Licenciatura em Turismo. Está atualmente no quarto semestre.

“Todos os dias, quando entro na sala de aula, elas e eles [colegas e professores] devolvem-me vida. Os meus professores, todos bem mais novos do que eu, e que observo sem querer ser maternal, mas que me enternece por saber que daqui a muito pouco tempo elas e eles estarão onde eu estou, sem certezas de nada e a querer abraçar tudo.”

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Mas vamos voltar um pouco mais atrás no tempo. Foi aos 18 anos que começou a trabalhar numa agência de viagens até chegar a 1.ª Técnica de Turismo. Não ficou por aí e experimentou outras áreas. Passou pela indústria farmacêutica, pela distribuição, químicos, petrolífera e automóvel. “Cansada de muito dar de mim e de horas de trabalho sem remuneração ou sequer reconhecimento pelo trabalho desenvolvido, arrisquei num projeto próprio.”

Foi então que, em 2008, Maria João lançou a “Flor de Lótus”, uma revista de distribuição gratuita durante um ano e de distribuição em banca durante mais de quatro anos. “Estava à frente do seu tempo e por isso cumpriu o seu papel de projeto inovador, durou sete anos e terminou.” A revista “Flor de Lótus” foi muito mais de um simples projeto. Foi um outro sonho. “O projeto da ‘Flor de Lótus’ foi um sonho, uma inspiração, uma intuição, como tudo o que comanda a minha vida”, explica. Maria João passou ainda pela organização de eventos, pelo desenvolvimento pessoal e espiritual e pela divulgação de projetos.

Aos 54 anos, Maria João não tem dúvidas acerca do futuro. “Só se pensa em sonhos. Projetos podem ser alterados e todos os dias agradeço por tudo e todos os que estão ‘presentes’ ao longo deste caminho.”

Ainda não conseguiu visitar as “maravilhas” da Austrália e do Oriente. “Mas chego lá”, reforça. Não é o único sonho que ainda quer realizar. “É melhor manter em segredo?”, questiona em tom de brincadeira. “Mas ir a Machu Pichu, fazer a viagem de circum-navegação, viver oito meses no Alentejo e outros quatro em Lisboa e ter uma participação voluntária e de cariz social ligado à espiritualidade.” Este último está em fase de projeto e “será concretizado em breve”.

“Gosto de andar sempre a investigar e a procurar novas ideias”

“Nunca fui uma pessoa que gostasse de fazer apenas só uma coisa e gosto de andar sempre a investigar e a procurar novas ideias.” É assim que se descreve Paulo Cristina Pereira, 55 anos, residente em Braga.

Engenheiro zootécnico de profissão, desde cedo teve esta vontade de fazer e concretizar objetivos. “Sempre fui um apaixonado pela música e pela rádio e tinha um sonho em jovem que era o de criar uma rádio.” E assim foi. Em 1986, juntamente com dois colegas, fundou uma rádio universitária enquanto estudava em Vila Real — a Rádio Universidade Marão, atualmente denominada de Universidade FM. Hoje em dia ainda mantém esta paixão e possui mesmo um programa da sua autoria no “Antena Minho“, em Braga.

Em 1986, juntamente com dois colegas, Paulo Cristina Pereira fundou uma rádio universitária enquanto estudava em Vila Real — a Rádio Universidade Marão

Mas foi há quatro anos que iniciou o mais recente projeto pessoal: o Queijarte. “Queria criar um produto diferente daquele que existia no mercado. Queria ter o queijo tradicional de ovelha, cabra e vaca como matéria-prima, mas tê-lo não no formato normal, mas antes como um patê ou como um creme de queijo”, explica.

Toda a produção é feita artesanalmente. Paulo Cristina Pereira tem ainda de assegurar a parte do embalamento, da promoção e da comercialização dos produtos. “É um projeto que me dá muito gozo, é uma enorme satisfação pessoal, mas também que me dá muito trabalho e eu não tenho muito tempo. Então é algo que faço essencialmente depois do trabalho ao final do dia e ao fim de semana.”

Em 2012, foi também um grande impulsionador do projeto PROVE, da região do Alto Cávado. O PROVE promove a venda direta dos produtos hortofrutícolas colhidos e vendidos no próprio dia, sob a forma de cabazes de produtos. “É a minha atividade profissional, é um projeto onde trabalho muito e que envolve o apoio a pequenos agricultores na comercialização dos seus produtos.”

Paulo Cristina Pereira gostava de “brevemente” voltar a aperfeiçoar a língua inglesa, mas pode sempre aparecer algo novo. “Sinto que podem surgir outros projetos porque tenho capacidade e força para tal, nomeadamente relacionadas com a minha atividade profissional”, conclui.

Um sonho de uma vida aos 50 anos

“Foi o verdadeiro sonho de uma vida.” É assim que Maria de Fátima Madeira, de 54 anos, Técnica Superior na Câmara Municipal de Lisboa, descreve à MAGG a vontade de estudar enfermagem, algo que concretizou aos 50 anos. Começa por recordar a infância feliz, sem dificuldades financeiras ou afetivas. Era boa aluna e aplicada. Em 1983 entrou para a licenciatura de Direito, na Faculdade de Direito de Lisboa, em Lisboa, curso que detestou e no qual não se revia. Quatro anos mais tarde mudou para Arqueologia. “Uma das minhas outras paixões”, diz.

Em simultâneo, Maria de Fátima Madeira, natural de Lisboa, iniciou o percurso como voluntária da Cruz Vermelha Portuguesa. “Acabaria por influenciar a minha vida. Surge a minha grande paixão, o voluntariado e a Cruz Vermelha. O serviço de emergência prendia-me e preenchia-me totalmente. Cada olhar de alívio, cada olhar mudo de agradecimento, o fazer a diferença, ajudar um nascimento, consolar um idoso cujo companheiro de 60 anos de vida em conjunto tinha falecido”. Tudo isto fez com que a vontade de ajudar o próximo crescesse e uma ideia acabou por surgir e ganhar fôlego: a vontade de estudar enfermagem.

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Porém, essa vontade foi sendo adiada. Primeiro o casamento, depois as filhas gémeas. “Até que fiz 50 anos, já com as filhas criadas, dois netos e um marido espetacular que me deu força e ânimo, e entrei para a licenciatura em enfermagem, na Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha.”

Desde criança que o seu sonho era ser feliz e é, garante. Mas são ainda vários os que quer realizar: ter um atelier de trabalhos manuais ou uma loja de artesanato e fazer missões em África como enfermeira. “Não há limites para aquilo que queremos fazer, os sonhos dão trabalho mas valem a pena.”

Quando questionada sobre o que os 50 anos lhe trouxeram, Maria de Fátima Madeira não tens dúvidas. “Maior discernimento e vontade de fazer aquilo que realmente quero. Colocar-me em primeiro lugar ou deixar de ser espetadora e assumir um lugar como atriz principal na minha vida.” Considera que nesta faixa etária as pessoas são mais focadas, desenvolvem a resiliência e os sonhos são mais analisados. “Temos uma história de vida com mais inputs e experiências que nos levam a decidir melhor.”

“Os 50 anos trouxeram-me a certeza do que quero e muitos sonhos”

“As certezas, a segurança, o conhecimento, a motivação que por vezes não temos aos 20 anos, aos 50 sabemos o que queremos, já não há dúvidas, apenas certezas”, começa por dizer Elisabete Ribeiro, 50 anos, de Lisboa. “Os 50 anos trouxeram-me conhecimento sobre mim, busca de paz, tolerância, vontade de ser melhor, certeza do que quero e muitos sonhos.”

É formada em Turismo, Hotelaria e Termalismo e trabalhou numa empresa de turismo durante 22 anos e apenas saiu quando a mesma fechou. Depois de passar por outras experiências profissionais, como a de comercial, está prestes a concretizar o sonho de um negócio próprio.

Elisabete Ribeiro num show cooking em que participou

“Sou cake designer, uma paixão que nasceu por causa da minha filha e pelo meu gosto pela culinária e pastelaria.” Kindin com Açúcar é o nome do projeto. “Agora estou a 100% dedicada a isto.”

Elisabete Ribeiro revela que tinha outros sonhos que são comuns a outras tantas pessoas: o de ter um emprego que gostasse, uma casa própria, um carro e o desejo de ser mãe. Por realizar ainda está a vontade de se mudar com a família para uma casa maior e o de levar o negócio de cake design “mais além” e torná-lo no seu “modo de sustento”.

Entende que os 50 anos começam a ser “só um número” e tem vontade de “viver mais 50”, com energia, motivação e vigor. “Não existe idade para se realizar o que se quer, basta ter vontade e tudo se faz seja qual for a idade”, conclui.