Estávamos em plena Guerra do Golfo, com o Iraque a lutar com o Kuwait e, mais tarde, também com os Estados Unidos, durante sete meses. A 28 de fevereiro de 1991, o presidente norte-americano George Bush declarou cessar fogo, que só foi aceite pelo Iraque em abril.

Foi precisamente nesse último dia de fevereiro que Kenneth Jarecke, fotógrafo de guerra, parou em frente a um homem carbonizado e fotografou-o. Há vários dias que tanto ele como os restantes membros do grupo de jornalistas atravessavam o deserto sem dormir, revezando-se ao volante. “Não tínhamos ideia de onde estávamos. Acabei por adormecer”, lembra o fotógrafo ao “The Atlantic”.

Fotografia captada por Keneth Jarecke, Guerra do Golfo

Quando acordou, eram quase 6 da manhã. O grupo recebeu a notícia de que um cessar-fogo estava prestes a acontecer, portanto decidiram seguir em direção à Cidade do Kuwait. Pela Highway 8, foram parando para tirar fotografias e gravar vídeos. Foi numa dessas paragens que se depararam com uma cena chocante: militares iraquianos queimados e os seus corpos incinerados.

Se eu tivesse pensado no quão horrível o homem parecia, eu não teria sido capaz de tirar a fotografia”

Jarecke estava sentado no camião com Patrick Hermanson, um oficial de relações públicas. Quando se preparava para sair do veículo com a câmara, foi questionado sobre o porquê de ir fotografar aquele cenário devastador. “Se eu tivesse pensado no quão horrível o homem parecia, não teria sido capaz de tirar a fotografia”, confessa.

O cessar-fogo terminou oficialmente com a Operação Tempestade no Deserto, a ação militar liderada pelos EUA que tirou Saddam Hussein e as suas tropas do Kuwait. A imagem do soldado anónimo podia ter simbolizado a Guerra do Golfo. Só que a foto nunca chegou a ser publicada — pelo menos nos Estados Unidos.

Mas afinal porque é que a fotografia não foi publicada?

A decisão de não publicar imagens chocantes não é inédita: nem todas as fotografias horríveis revelam uma verdade importante sobre conflitos e combates. No mês passado, explica o “The Atlantic“, o “The New York Times” decidiu, por razões éticas válidas, remover imagens de passageiros mortos de uma reportagem online sobre o voo MH-17, na Ucrânia, e substitui-las por fotografias de destroços mecânicos.

Às vezes, porém, omitir uma imagem significa proteger o público das consequências confusas e imprecisas de uma guerra — tornando a cobertura incompleta e até enganosa.

Voltemos a esta fotografia. Quando a Guerra do Golfo começou, o Pentágono desenvolveu políticas de restrição à imprensa, usadas nas guerras dos EUA em Granada e Panamá, nos anos 80. Sob esse sistema chamado “pool”, os militares agruparam repórteres de imprensa, televisão e rádio juntamente com cinegrafistas e fotojornalistas, e enviaram essas pequenas equipas para coletivas de imprensa orquestradas, supervisionadas por Oficiais de Relações Públicas (PAOs), que mantiveram uma vigilância atenta sobre as suas atividades.

Com o início da guerra, os PAOs acompanharam Jarecke e vários outros jornalistas, enquanto se ligavam ao XVIII Corpo Aerotransportado do Exército, e passavam duas semanas na fronteira saudita-iraquiana, a fazer praticamente nada. Isso não significava que nada estava a acontecer, apenas que não tinham acesso à ação.

O cenário em volta da fotografia do homem carbonizado, captado por Kenneth Jarecke

No caso do soldado iraquiano carbonizado, a hipnotizante e terrível fotografia mostrava a verdadeira atrocidade da guerra. Ao decidir não publicar a fotografia, a revista “Time” e a Associated Press negaram ao público a oportunidade de confrontar esse soldado desconhecido, e de considerar os seus momentos finais.

No entanto, a imagem não ficou totalmente perdida. O “Observer“, no Reino Unido, e o “Libération“, em França, publicaram a foto, depois de a imprensa americana se ter recusado a fazê-lo. Muitos meses depois, a imagem também apareceu na “American Photo”, onde alimentou alguma controvérsia. Mas, para ter um impacto significativo, já chegou tarde demais.

Tudo isso surpreendeu o fotógrafo de guerra, que achava que a imprensa ficaria feliz em desafiar a narrativa popular de uma guerra limpa e descomplicada. “Quando tens uma imagem que refuta esse mito”, diz, “pensas que será amplamente divulgada”.

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Algumas das imagens mais vistas da guerra aérea foram filmadas, não por fotógrafos, mas sim por câmaras não tripuladas, ligadas a aviões e bombas guiadas a laser. Tiros granulados e imagens de vídeo dos telhados dos edifícios alvejados, momentos antes do impacto, tornaram-se uma assinatura visual de uma guerra profundamente associada a frases como “bombas inteligentes” e “ataque cirúrgico”.

A cobertura focada no hardware da guerra removeu a empatia que Jarecke diz ser crucial na fotografia, particularmente a fotografia que visa documentar a morte e a violência. “Um fotógrafo sem empatia”, explica, “está apenas a ocupar espaço que poderia ser usado de melhor maneira”.

A cobertura televisiva da Guerra do Golfo, como Ken Burns escreveu na época, parecia cinematográfica e muitas vezes sensacional, com “teatros distraídos” e “batendo novas músicas temáticas”, como se “a guerra em si pudesse ser uma subsidiária integral da televisão”.