Óculos escuros, cabelo branco apanhado para trás num rabo de cavalo, luvas sem dedos e um look preto e branco — sempre. Era esta a imagem de marca de Karl Lagerfeld, o diretor criativo da Chanel, que morreu esta terça-feira, 19 de fevereiro, em Paris, França, aos 85 anos.

Mas quem era este homem, que marcou o mundo da moda de uma forma inesquecível, e cujo nome é tão associado à casa Chanel como o da sua criadora, Coco Chanel?

Sabe-se que nasceu em Hamburgo, Alemanha, mas durante muitos anos existiram várias dúvidas sobre a correta data de nascimento do estilista — sendo o próprio Karl Lagerfeld o primeiro a contribuir para essas incertezas. Terminou o ensino secundário em Paris, no liceu Montaigne, onde se especializou em Desenho e História.

Em 1955, chegou à Balmain depois de vencer uma competição de design, sendo o vencedor na categoria de casacos. Aos 22 anos, foi selecionado para trabalhar junto de Pierre Balmain, como seu assistente, e acabou por permanecer nesta casa durante três anos, até começar a criar peças para outro estilista francês, Jean Patou.

Dos anos 50 à atualidade. A vida de Karl Lagerfeld em 32 fotografias

Em 1964, depois de trabalhar para Jean Patou e para uma marca de moda italiana, Tizani, Karl Lagerfeld começou a criar peças para a Chloé como freelancer. Uma coleção de primavera-verão da marca valeu-lhe o reconhecimento mundial, e os seus designs foram caracterizados como inovadores.

Depois do sucesso com a Chloé, em 1972 recebeu um convite da Fendi para colaborar com a conhecida marca italiana, desenhando peças de roupa, peles e acessórios. As coleções multiplicaram-se, os contratos com marcas também, e Karl Lagerfeld estava a caminho do estrelato absoluto com um convite da Chanel, que chegou em 1983.

Foi no início da década de 80 que o estilista alemão cortou definitivamente com a Chloé e aceitou o cargo de diretor criativo na Chanel, transformando a icónica marca e tornando-a mais atual, através de várias experiências com diferentes tecidos e estilos, sem perder a essência da casa francesa e mantendo os padrões e motivos clássicos nas suas coleções.

Karl Lagerfeld não se limitou à moda e acabou por contribuir ativamente para a criação da popular linha de fragrâncias da Chanel, modernizando a marca uma vez mais.

Como um dos maiores ícones do mundo da moda, o diretor criativo da Chanel não quis ficar apenas pela alta-costura, e não teve receio em aceitar convites vindos da chamada fast-fashion: a sua linha de ganga para a Diesel, em 2002, quase desapareceu das lojas de Nova Iorque em cerca de uma semana, enquanto a sua coleção cápsula para senhora com a H&M, em 2004, esgotou por completo. Em 2006, Karl Lagerfeld desenhou uma coleção e lançou uma marca para homem e mulher com o seu nome.

Uma imagem de campanha da coleção de Karl Lagerfeld com a H&M

Esta é a carreira que todos conhecem de Karl Lagerfeld. Só que o estilista também era apaixonado por fotografia, tinha uma gata milionária e foi processada pela New Balance. Contamos-lhe 5 histórias sobre

1. Karl Lagerfeld afirmava ser mais novo do que era na realidade

Nascido a 10 de setembro de 1933, Karl Otto Lagerfeld era filho de Otto Lagerfeld, um empresário, e de Elizabeth Bahlman, uma vendedora de lingerie natural de Berlim, que acabou por largar a profissão quando se casou em 1930.

Durante muitos anos, Karl Lagerfeld mentiu sobre o seu ano de nascimento, afirmando ser mais novo do que era na realidade. Numa entrevista dada a um canal francês em 2009, o estilista disse que não tinha nascido em 1933 nem em 1938 (outra das datas que chegou a apontar como verdadeira). Em abril de 2013, declarou que 1935 tinha sido o verdadeiro ano do seu nascimento.

Mas a verdade acabou por chegar em 2008 através de um jornal alemão, o “Bild am Sonntag”, que publicou os registos de batismo do estilista, e conduziu entrevistas a uma professora e colega de escola de Karl Lagerfeld, que confirmaram a data de de 10 de setembro de 1933 como a correta. Mas isso continuou a não impedir o estilista de celebrar o seu aniversário de 70 anos em setembro de 2008, quando fazia, na realidade, 75.

2. Também era um artista por detrás da lente e das câmaras

Apaixonado por fotografia, Karl Lagerfeld acabou por ser responsável por várias produções fotográficas com modelos e celebridades para revistas de renome, como a “Vogue”, “V Magazine” e “Harper’s Bazaar”.

Em 2013, realizou a curta-metragem ”Once Upon a Time…”, sobre a vida de Coco Chanel, com a atriz Keira Kinghtley como protagonista.

3. Karl Lagerfeld não era o único milionário na “família”: a sua gata chegou a faturar 3 milhões de euros

Página de Instagram Choupettesdiary

Tal como escreveu o “El País” em 2015, a gata do estilista, a siamesa Choupette, não era apenas uma fonte de inspiração para Karl Lagerfeld: segundo o mesmo jornal, Choupette faturou três milhões de euros com apenas dois trabalhos, uma campanha para a Shu Uemura, marca capilar de renome, e outra para a Opel.

A gata tem também uma conta de Instagram com o nome de Choupettesdiary, com mais de 122 mil seguidores, e chegou a ser fotografada com a supermodelo Linda Evangelista para a capa da edição alemã da “Vogue”, em 2013.

A gata de Karl Lagerfeld com Linda Evangelista, na capa da Vogue alemã

4. O processo da New Balance

Em 2014, Karl Lagarfeld foi processado pela New Balance. De acordo com o site “TMZ”, a marca de ténis terá colocado um processo contra o designer por este ter utilizado um tipo de letra muito semelhante ao lettering da New Balance nuns ténis desenhados por si — em causa estava a letra “K”, praticamente igual ao conhecido “N” dos ténis New Balance.

As semelhanças com o tipo de letra utilizado pela New Balance são evidentes

A marca de ténis afirmou que a intenção de Karl Lagerfeld era confundir o consumidor propositadamente, mas, até à data, não existiu nenhuma evolução sobre o processo, nem o designer emitiu qualquer comunicado relacionado com o sucedido.

5. A oposição ao movimento #MeToo

Sem qualquer receio de causar uma má impressão, Karl Lagerfeld expressou opiniões polémicas sobre os movimentos #MeToo e #Time’s Up. À revista francesa “Número Magazine”, o designer afirmou: “Se não querem que vos baixem as calças, não sejam modelos! Juntem-se a um convento de freiras. Há sempre um lugar para vocês no convento. Eles até estão a recrutar”.

O conhecido estilista também se manifestou quanto ao tempo que as vítimas destes assédios demoraram a denunciar os casos. “O que me choca mais são as vedetas que demoraram 20 anos a lembrar-se do que aconteceu. Isto para não falar do facto de não haver testemunhas de acusação”, declarou Karl Lagerfeld à mesma publicação em 2018.

O diretor criativo da Chanel acrescentou ainda que estes movimentos tinham tido sérias consequências no mundo da moda: “Li em algum lado que agora temos de perguntar a uma modelo se ela se sente confortável a posar. É demasiado. De agora para a frente, como designer, não se pode fazer nada”.