“Admito que não consigo dormir e preciso de ajuda de medicamentos. O cansaço extremo é tanto que, quando chego à cama, não consigo adormecer”. As palavras são de Sónia Monchique. O trabalho em excesso não ajuda, o que ainda há para fazer quando chega a casa também não. “Em minha casa as tarefas domésticas recaem apenas sobre mim”, diz à MAGG.

Esta terça-feira, 12 de fevereiro, a Fundação Francisco Manuel dos Santos lançou um estudo que retrata a posição da mulher portuguesa na sociedade. Chama-se “As mulheres em Portugal, hoje“, e é a investigação mais abrangente alguma vez feita sobre este tema. Os resultados são alarmantes: elas ganham menos, trabalham mais e são mais propensas a problemas de ansiedade e depressão.

Beatriz Almeida, Sónia Monchique, Érica Pereira, Lisete Gonçalves e Maria Fernanda Marcelino. Têm entre os 23 e os 75 anos, vivem em zonas diferentes do País, de Lisboa a Estremoz, e têm profissões distintas. Apesar das diferenças, partilham a certeza de que se sentem representadas por este estudo. Do salário às tarefas domésticas, sem esquecer o trabalho ou a sociedade em geral, o sentimento é muitas vezes de injustiça.

Estamos melhor? Estamos. Mas ainda não é um mundo justo para as mulheres.

A maioria das mulheres portuguesas está descontente com a vida laboral

O estudo realizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos concluiu que, em 46% dos casos, a mulher ganha menos do que o companheiro. O contrário só acontece em 15% das situações.

Beatriz Almeida, 23 anos, é psicóloga e ainda não se deparou com o problema da diferença salarial “Vou começar a ingressar no meu estágio pelo IEPF [Instituto do Emprego e Formação Profissional] e as remunerações são iguais para homens ou mulheres. Por isso, não estou a passar por essas situações, ainda que perceba que existem”.

Tenho mais estudos, até trabalho mais do que ele, e acabo por receber muito menos”.

Érica Pereira não pode dizer o mesmo. Aos 33 anos, a empregada de balcão natural de Alverca não tem dúvidas de que as diferenças salariais são uma realidade. “Tenho mais estudos do que o meu marido e mesmo assim continuo a receber menos que ele. Se me perguntar se acho justo quanto ganho, tenho de lhe dizer que não”.

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Na mesma situação encontra-se Sónia Monchique, de Estremoz: “Tenho mais estudos, até trabalho mais do que ele, e acabo por receber muito menos”.

A maioria das mulheres portuguesas está descontente com a vida laboral. Esta situação também pode ser explicada pela falta de apoio quando a mulher engravida, bem como o período da licença de maternidade, explica Lisete Gonçalves, psicóloga clínica de 45 anos.

Dados do estudo

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Foram inquiridas 2.428 mulheres entre os 18 e os 64 anos.

A amostra representa 2,7 milhões de mulheres.

As mulheres entrevistadas residem na Área Metropolitana de Lisboa e no centro do país.

“De um modo geral, privilegiam-se pessoas que faltem menos e com um contexto familiar que as deixe mais libertas para o trabalho”, diz a psicóloga clínica de 45 anos. “Mas não vejo que a culpa seja só das empresas. Uma criança é uma mais-valia para o Estado, não para o empregador. O Estado português devia incentivar a natalidade com ajudas e proteger a mulher nos primeiros meses de um recém-nascido”.

O estudo revelou ainda que 44% das inquiridas admite que o seu emprego está abaixo das expectativas, sendo que, para dois terços das mulheres o salário não chega aos 900€. O problema dos maus salários é algo que afeta todas as faixas etárias.

“Eu estudei em Lisboa durante cinco anos e agora tive de arranjar um estágio perto da casa da minha mãe [Leiria]. Era insustentável pagar renda e pagar contas em Lisboa apenas com o dinheiro do estágio”, explica Beatriz Almeida.

Já Maria Fernanda Marcelino, aposentada, prefere destacar o facto de 900€ no panorama atual ser um ordenado desanimador. “Falemos de uma mãe solteira. Para além de não ter ajuda, a situação monetária fica realmente complicada. Ter casa e contas para pagar e ainda ter filhos não se coaduna com um ordenado de 900€”.

“Uma pessoa chega a casa do trabalho e ainda tem outro horário pela frente”

A esfera particular também não apresenta resultados animadores. De acordo com o estudo, as mulheres estão demasiado cansadas. “Mais do que mulheres cansadas, temos mães cansadas”, afirma Érica Pereira.

Não é um problema exclusivo desta década. “Concordo que as mulheres atualmente tenham uma sobrecarga maior. Mas no meu tempo já acontecia o mesmo e atrevo-me a dizer que a situação era ainda pior do que atualmente”, confidencia Maria Fernanda Marcelino, 75 anos.

A minha ansiedade é mesmo devido ao cansaço extremo do dia a dia”.

O trabalho, a família e as tarefas domésticas parecem são as esferas que consomem mais tempo e energia às mulheres. No estudo As mulheres em Portugal, hoje”, uma em cada dez admite tomar diariamente medicação para a ansiedade, para dormir ou antidepressivos.

“Admito que não consigo dormir e preciso de ajuda de medicamentos. O cansaço extremo é tanto que, quando chego à cama, não consigo adormecer”, garante Sónia Monchique.

Érica Pereira tem problemas de ansiedade. “Consigo compreender esta situação, não tomo medicamentos, mas desde que sou mãe e que trabalho, sinto alguma ansiedade que se traduz em falta de ar, por exemplo”. Esta situação já foi discutida com a médica de família e garante que, nas férias, quando está longe de tudo, não acontece: “A minha ansiedade é mesmo devido ao cansaço extremo do dia a dia”.

Uma das causas para esta situação pode ser o tempo que as mulheres dispõem para si próprias, em dias de semana. Entre o trabalho, a casa e a família, resta pouco tempo para a mulher e para as suas coisas. “Uma pessoa chega a casa do trabalho e ainda tem outro horário pela frente”, admite a psicóloga.

Segundo o estudo, em média, cada mulher despende 7h18 por dia no trabalho pago e 6h12 no trabalho não pago — neste último incluem-se os filhos e tarefas domésticas. Apesar de não trabalhar por contra de outrem, Lisete Gonçalves revê-se no estudo: “Trabalho por contra própria mas para as mulheres é sempre uma luta desigual, porque na verdade não há distribuição igualitária de tarefas”.

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74% do trabalho não pago é feito pelas mulheres

Nas lides de casa, o trabalho continua desigual, uma vez que as mulheres continuam a fazer mais do que os homens – 74% do trabalho ainda é efetuado por elas.

“Estudei algumas dinâmicas familiares para a minha tese de mestrado e, apesar destes números, são cada vez mais os homens a ajudar nas tarefas domésticas. Mas ainda não é suficiente”, diz Beatriz Almeida. Sónia Monchique identifica-se a 100% com esta premissa: “Em minha casa as tarefas domésticas recaem apenas sobre mim.”.

A pressão da sociedade parece ser a resposta para esta diferença tão grande: “Eu e o meu marido não temos dúvidas, a pressão que a sociedade põe nas mulheres é muito maior daquela que põe nos homens”, explica Érica Pereira.