Roubo de identidade, mentiras e difamação. Histórias de pessoas que foram enganadas e manipuladas

O namorado de Patrícia escondeu ter HIV, Joana viu a sua imagem usada em sites pornográficos e Helena foi enganada com um aborto falso.

Soraia inventou um aborto, disse ser médica e manipulou a amiga — mas nada do que lhe contou era verdade

Ian Keefe/Unsplash

Formada em Sociologia, e tendo trabalhado em vários estabelecimentos prisionais, Patrícia (nome fictício) achava que, aos 41 anos, já seria capaz de identificar situações desagradáveis e “evitáveis”. Mas depressa percebeu que estava enganada quando a pessoa com quem estava, e que tinha conhecido no Tinder meses antes, lhe revelou um segredo gravíssimo e do qual nunca desconfiou. Para ela, Miguel (nome fictício) era o homem perfeito.

O primeiro contacto entre os dois aconteceu em 2017. Miguel era advogado, tinha um filho de uma relação anterior, e não havia nada nas suas fotografias que denunciasse, à primeira vista, um passado tumultuoso ou doloroso.

Por terem vários interesses em comum e existir uma atração mútua, começaram a sair e depressa a amizade deu lugar ao romance. Partilharam não só a casa um do outro, mas também detalhes das suas vidas pessoais: Patrícia tinha tido um passado conturbado, motivado por alguma insegurança e falta de autoestima e Miguel estava, na altura, a recuperar de um esgotamento nervoso que o obrigou a um período de internamento de três meses.

Apesar de esta aparentar ser uma relação verdadeira e assente na honestidade, havia certos comportamentos em Miguel que Patrícia nunca compreendeu.

“Tínhamos um contacto regular mas havia, pelo menos uma vez por mês, um dia em que ele desaparecia por completo e só me voltava a procurar no dia seguinte como se nada tivesse tivesse acontecido. Ao almoço tomava sempre um comprimido, que dizia ser para a depressão, e eram várias vezes em que surgiam reuniões com os colegas para depois das 19 horas”, revelou à MAGG.

Patrícia nunca desconfiou de nada, até porque pessoas próximas do círculo de Miguel corroboravam o esgotamento, a luta contra a depressão e as horas que fazia no escritório. Quatro meses de namoro depois, Patrícia descobriu que era tudo mentira.

“Depois de um encontro que correu super bem, disse-me que tinha uma coisa muito séria para me contar e eu, em jeito de brincadeira, respondi que não estava preparada para um pedido de casamento.” Miguel desvalorizou a tentativa de humor: o assunto era mesmo sério e prometia ser uma espécie de teste a uma relação que tinha sido perfeita até então.

Miguel nunca tinha estado internado por um esgotamento nervoso, mas sim por uma adição à cocaína. Apesar de “estar limpo há vários meses”, garantiu a Patrícia, era isso que explicava os desaparecimentos repentinos e as reuniões depois da hora normal de trabalho. Miguel não faltava a uma reunião dos Narcóticos Anónimos.

“Fiquei sem palavras e assustou-me um bocadinho mas ofereci-me para o ajudar em tudo o que ele precisasse”, revelou a socióloga que, apesar de ressentir a primeira mostra de desonestidade, não quis abandonar Miguel. “Acreditei que ele estava limpo e não seria isso que nos iria deitar abaixo.” Mas havia um outro segredo que viria mudar tudo.

“Depois disso contou-me que, em consequência dos vários comportamentos de risco que teve, tinha contraído HIV. Aí fiquei sem chão. Fiquei completamente amedrontada, em pânico, mas para ele estava tudo bem porque sempre tomou o antirretroviral.”

Como se de uma casa de cartas se tratasse, a relação dos dois desabava a cada mentira que era desvendada. Tal como o esgotamento nervoso nunca tinha existido, também o comprimido diário não era para a depressão mas sim para diminuir a carga viral no sangue e, com isso, impedir a sua reprodução no organismo.

“Marquei todos os exames necessários que me pudessem descansar, ou não, mas a atitude dele passou a ser muito fria. Ele achava que eu não tinha nada a temer porque, como tomava o antirretroviral, o vírus não era transmissível.”

Patrícia nunca contou nada do que se passou à família, por medo e vergonha. “A minha mãe sempre foi uma pessoa muito conservadora e eu era a típica miúda certinha e calminha. Como é que lhe ia explicar isto? Sofri sozinha durante muito tempo”, lamenta.

Sofreu em silêncio, sozinha e desamparada, mas sem nunca se separar de Miguel. “Enquanto tentava perceber se tinha ou não contraído o vírus, mantive a minha relação com ele. E o meu grande erro foi esse.”

Patrícia não tem dúvidas de que não se conseguiu afastar daquela pessoa, a quem hoje chama “predador”, porque, ainda que de forma inconsciente, se sentia na obrigação de o salvar. “Ele estava tão desprotegido e eu não tinha coragem de o abandonar, não naquele estado.” Mas foi Miguel quem abandonou Patrícia no início de 2018.

“Numa altura em que o notava cada vez mais distante, ele disse-me que achava que eu não era mulher para ele. Que ele merecia melhor. Foi-se embora e até hoje nunca mais soube nada dele”, continua.

Um ano depois de uma relação baseada numa mentira que lhe podia ter destruído a vida, a socióloga nunca mais tentou estabelecer contacto com Miguel, mas seguiu-lhe o rasto e descobriu que continuava online no Tinder e à procura de novas relações.

“Este é um indivíduo tão egocêntrico, tão predador e focado no seu prazer que acredito que já tenha sujeitado outras mulheres ao mesmo. Ele conseguiu convencer-me de que quem estava errada era eu. Que eu não era, de facto, a mulher que ele merecia e isso mexeu muito com a minha autoestima”, revela.

Apesar da repulsa, do medo e do facto de ter vivido em silêncio durante um ano, Patrícia nunca denunciou a situação. Muito por medo que Miguel, por ser advogado, retaliasse de forma violenta por todos os meios que lhe fossem possíveis — judiciais ou não.

Em retrospetiva, Patrícia não esconde o que sentiu por ele e assume a paixão por Miguel ou, pelo menos, pela imagem que criou dele. Mas não esquece o sofrimento constante que, ainda hoje, está presente na sua mente. É que apesar de saber que não contraiu o vírus, o trauma fá-la sentir necessidade de repetir, de forma regular, as análises de rotina com receio de que o vírus não tenha sido detetado em análises anteriores.

O drama de ver a identidade roubada e a possibilidade de voltar a acontecer

Joana (nome fictício), 52 anos, nem queria acreditar quando, em 2010, viu a sua fotografia espalhada por vários sites de encontros e chats pornográficos. Apesar de ter sido contactada para todo o tipo de experiências sexuais, Joana, professora do ensino secundário, demorou algum tempo a perceber o que se passava.

“Quando me ligavam para encontros, que acabariam sempre em sexo, respondia sempre que era engano. Acreditava, genuinamente, que se tinham enganado no número mas as chamadas eram cada vez mais frequentes”, contou à MAGG. Dos colegas passou para as pessoas do bairro até chegar ao marido que a confrontou. Era o fim de um casamento de 20 anos.

Havia alguém a fazer-se passar por ela — e a enviar emails no seu nome. Joana só se apercebeu disso quando os colegas receberam excertos das conversas nas contas do trabalho. Mas mais do que roubo de identidade, Joana foi humilhada, enxovalhada e difamada quando, num desses emails, surgiu a sugestão de que a professora assediava os seus alunos e tinha comentários menos próprios em aulas de Educação Sexual.

A Inspeção-Geral da Educação e Ciência recebeu uma denúncia anónima e a professora viu a sua vida virada do avesso enquanto era investigada. Hoje não tem dúvidas: “Se não fosse a boa reputação que sempre mantive dentro daquela escola e junto das várias pessoas com quem fui trabalhando ao longo dos anos, possivelmente teria sido tudo mais complicado.”

O caso foi denunciado ao Departamento de Crimes Informáticos da Polícia Judiciária e descobriu-se o impensável: a responsável por todo aquele esquema era uma pessoa muito próxima de Joana que, além de ser professora na mesma escola, mantinha uma relação extraconjugal com o seu marido.

Apesar da denúncia, o caso não seguiu em frente muito devido ao custo de uma ação judicial. “Tudo aquilo iria obrigar-me a gastar o que tinha e o que não tinha, e por isso nada foi feito.” Joana contactou todas as pessoas que sabia que tinham recebido aqueles emails, explicou que não eram verdadeiros e foi conseguindo, aos poucos, limpar a sua imagem.

Mas as mazelas psicológicas ficaram para sempre e ainda hoje há o receio de voltar a ser atormentada por aquele passado. “É uma espécie de fantasma. Não sei até que ponto é que não houve pessoas que guardaram tudo aquilo para, um dia mais tarde, virem a usar contra mim quando bem lhes apetecer”, conta.

Soraia inventou um aborto e manipulou a amiga

A história de Helena, 38 anos, que também pediu à MAGG que não fosse identificada, não é menos insólita e começou quando Soraia (nome fictício) lhe encomendou roupa de criança para o bebé que ia nascer. Helena geria um atelier especializado em acessórios e roupa de bebé, mas nunca pensou que aquela cliente pudesse ser diferente de todas as outras.

Depois de efetuada a encomenda, Soraia pediu várias vezes a Helena que fizesse pequenas alterações no tipo de tecidos e nas cores. Na altura de pagar, desapareceu e só voltaria a contactar a lojista uma semana depois, pedindo o cancelamento da encomenda. O motivo? Um aborto espontâneo.

“Aquela história tocou-me muito. Só conseguia pensar naquela mulher que ia ser mãe pela primeira vez e que, sem estar à espera, tinha acabado de perder o filho”, explicou Helena. Mas foi aí que tudo começou. As duas foram ficando cada vez mais próximas e criaram uma amizade.

Soraia, que também conhecia Rita (nome fictício), outra amiga próxima de Helena, dizia ser médica de clínica geral e o facto de ser muito articulada e saber tudo sobre procedimentos médicos fizeram com que Helena nunca desconfiasse de nada. Passaram a falar todos os dias, a todas as horas, sobre tudo e sobre nada. “Às vezes ligava só por ligar. Chegava a contar histórias dos pacientes ou de coisas insignificantes que compunham a conversa”, continua.

Mas não demorou muito até que Soraia começasse a envolver outras pessoas na sua rede de mentiras. Um deles foi Manuel (nome fictício), o suposto ex-namorado, pai do filho que tinha perdido, que Soraia descrevia a Helena como sendo a pior pessoa do mundo por não a respeitar.

“Ela dizia muitas vezes que aquele aborto tinha sido praga do Manuel, que nunca quis aquele filho por quem ela tanto chorava. Cheguei a detestá-lo sem nunca o conhecer, porque não percebia como é que alguém tinha coragem de provocar tanta dor a outra pessoa.”

Os meses foram passando e ambas foram ficando cada vez mais próximas ao ponto de combinarem oferecer um presente de aniversário a Rita, a amiga que tinham em comum.

“A Soraia sugeriu que comprássemos um relógio e um ramo de flores, a dividir pelas duas. Comprei tudo e enviei à Rita, mas o dinheiro tardava em chegar. A desculpa era sempre a mesma: esquecimento”, e diz Helena que foi aqui que começaram todas as desconfianças.

Era a segunda vez que Soraia não pagava o que devia e toda aquela situação lhe parecia estranha demais. Comentou com Rita, que lhe disse que não conhecia muito bem Soraia, e que esta chegou ao seu Facebook através de um outro amigo em comum. Do pedido de amizade a uma amizade próxima e, aparentemente, honesta, foi um passo.

“Falámos com esse tal amigo de Soraia que nos disse que também ele não a conhecia muito bem. O que confirmava as nossas suspeitas: ela era sempre amiga de alguém mas, no fundo, ninguém a conhecia nem sabia muito bem o que pretendia”, continua.

Nem mesmo a história que envolvia Manuel era verdadeira já que, tal como contou a Helena, a relação que teve com Soraia foi muito fugaz e nunca houve gravidez nenhuma.

“Foi aí que me exaltei, a confrontei e exigi que pagasse o que me devia. Quando o fez, o NIB da conta estava registado num outro nome.” As mentiras iam-se desenrolando a cada conversa e na expetativa de tentar enganar Helena, Soraia enviou-lhe o número da cédula profissional para que pudesse confirmar que estava a dizer a verdade.

À MAGG, Helena diz que ter memorizado o número. Quando o pesquisou, descobriu que a cédula pertencia a uma médica de Cascais com um nome muito parecido àquele que ela assumia.

A Reportagem "A Rede"

A reportagem da SIC, transmitida a 29 de janeiro, e da autoria da jornalista Conceição Lino conta a história que começou com um pedido de amizade no Facebook e que, depressa, se tornou num enredo de mentiras e falsidades que durou dois anos.

A figura principal é Nuno, que foi manipulado por uma pessoa que nunca existiu e que lhe contava histórias falsas com o intuito de o manipular e o manter preso a uma rede. Sem se conhecerem pessoalmente, mantiveram uma relação de grande proximidade até que um acontecimento chave mexeu com a vida de várias pessoas.

“Chamei-lhe tudo e, quando se apercebeu que tinha sido descoberta, chorou ao telefone e pediu-me desculpa por todas as mentiras. Pediu-me uma segunda oportunidade e depois bloqueou-me”, revela.

O caso foi denunciado à Polícia Judiciária e desde que Helena foi notificada, devido também à queixa da médica de Cascais a quem Helena contou o que tinha acontecido, que nunca mais soube nada de Soraia e do que lhe tinha acontecido. Porém, não tem dúvidas de que se tratava de uma pessoa perturbada e com alguns problemas emocionais por resolver.

“A maior lata do mundo foi ela ter feito o que fez e ainda ter ido para o Facebook criticar a história do Nuno [a figura principal da reportagem “A Rede”, da SIC]. Continua louca e sem noção”, lamenta.

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