O que significam as perdas de sangue entre menstruações? E a cor do fluxo? Tudo sobre o ciclo menstrual

No novo livro "Saúde Feminina", Diana Patrício esclarece várias dúvidas sobre a saúde feminina.

Várias causas podem contribuir para a presença de menstruações intensas e abundantes

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Nem tudo o que acontece nos nossos corpos é fácil de descortinar. E, sejamos honestos, o ciclo menstrual é um dos temas que mais dúvidas suscita na cabeça das mulheres. São os atrasos sem razão aparente da menstruação, as cólicas, as dores mais ou menos fortes, as perdas de sangue numa altura que achávamos que estávamos a ovular e muito mais.

Nem sempre é fácil perceber o que passa com o corpo feminino durante esta fase — e foi justamente para esclarecer as dúvidas das mulheres quanto a este tema, e muitos outros ligados à saúde feminina, que Diana Patrício, naturopata e homeopata, lançou na semana passada, 25 de janeiro, o livro “Saúde Feminina — Um Guia para o Autoconhecimento e a Saúde da Mulher” (Edições Chá das Cinco).

Das menstruações abundantes às escassas, sem esquecer a cor, as dores menstruais e muito mais, revelamos-lhe a explicação da especialista Diana Patrício para estas situações, publicadas no seu mais recente livro, muito comuns a várias mulheres. Descubra o que se passa com o seu corpo.

Diana Patrício é naturopata e homeopata

1. Menstruações intensas e abundantes

“Menstruações de longa duração e com fluxo sanguíneo muito abundante (menorragia) são outro dos sinais que se manifestam através do seu ciclo menstrual e que indicam algum desequilíbrio. As suas menstruações não devem durar mais do que sete dias e a quantidade de sangue que perde não deve ser superior a 80 ml, que correspondem à utilização de 16 tampões de tamanho normal ou a oito tampões de tamanho grande durante a totalidade dos dias da menstruação. Se as suas menstruações tiverem uma duração superior a sete dias, o mais provável é que não tenha ovulado.

Várias causas podem contribuir para a presença de menstruações intensas e abundantes, nomeadamente: ciclos anovulatórios, endometriose, presença de DIU (dispositivo intra‐uterino) de cobre, problemas de tiróide de pré-menopausa.”

2. Menstruações escassas ou insuficientes

“Menstruações escassas não significam necessariamente que existe algo de errado com o seu ciclo menstrual. Se a perda de fluxo menstrual for equivalente a 25 ml, o que corresponde a cinco tampões de tamanho normal, utilizados durante os dias da menstruação, ainda podemos considerar um fluxo menstrual normal. Se a perda de fluxo for inferior a esta, é importante questionar‐se sobre se estará realmente a ovular. Se os seus ciclos são anovulatóros, essa será́ a razão pela qual as suas menstruações são escassas, ou seja, na verdade não são propriamente menstruações, mas sim ciclos anovulatórios.

Se tem a certeza de que está a ovular, então não há nenhum problema com o seu ciclo e de facto as suas menstruações são escassas, o que se pode dever a alguns factores como hábitos tabágicos ou carências nutricionais. Para ter a certeza de que está a ovular, tem de medir a sua temperatura basal, tal como referi quando lhe expliquei as menstruações irregulares. Se ao medir a temperatura basal se aperceber de uma subida consistente (pelo menos durante três dias seguidos) da temperatura em 0,3°C, fica a saber que ovulou imediatamente antes da subida da temperatura. O que leva a que ocorra essa subida de temperatura é a produção de progesterona. Sem progesterona não há subida da temperatura basal, e sem ovulação não há progesterona. É por isso que a subida da temperatura basal é um indicador claro da ovulação.”

3. Presença de coágulos no fluxo menstrual

“Pequenos coágulos no seu fluxo menstrual não apresentam sinal de alarme e são considerados normais, principalmente quando o seu fluxo é abundante. Isto acontece porque os factores anticoagulantes naturalmente presentes no seu sangue não conseguem actuar de forma eficaz, mantendo o sangue fluido, devido à grande quantidade de sangue que está a ser eliminada. No entanto, se esses coágulos tiverem uma dimensão considerável (igual ou superior a 2,4 cm), poderão ser indicadores de alguns distúrbios, como falta de absorção de ferro e presença de endometriose, uma vez que o aumento do tecido endometrial aumenta a coagulação do sangue.”

O livro "Saúde Feminina" tem um custo de 16,60€ e já está disponível nas livrarias

4. Cor do fluxo menstrual

“Outro aspecto que merece uma observação atenta é a cor do seu fluxo menstrual. Um fluxo menstrual saudável corresponde a uma cor vermelho viva. Essa cor indica uma percentagem de hemoglobina adequada e deve apresentar‐se assim desde o início ao final da menstruação. O seu fluxo deve apresentar igualmente uma fluidez fácil. Um fluxo menstrual escuro é indicador de níveis de inflamação aumentados. Se o fluxo for de cor vermelha muito escura ou castanha muito escura, pode ser sinal de endometriose.

Por outro lado, se o fluxo for muito claro e demasiado fluido, poderá indicar uma desregulação hormonal ou o início da pré-menopausa.”

5. Spotting ou pequenas perdas de sangue entre menstruações

“Spotting é um termo em inglês que se refere a pequenas perdas de sangue que poderá ocorrer noutras fases do ciclo que não a menstruação. O spotting pode ocorrer no dia da ovulação por consequência de uma descida um pouco mais brusca do estrogánio, o que não representa necessariamente um problema ou um sinal de alarme.

É sempre importante saber se está a ovular, pois aquilo que poderá estar a interpretar como spotting poderá simplesmente ser um sangramento causado por um ciclo anovulatório.

Uma situação algo comum em muitas mulheres é a ocorrência de spotting um ou dois dias antes da menstruação. Estas perdas de sangue apresentam‐se num tom mais escuro ou acastanhado que representa o fluxo menstrual, que, por estar a fluir lentamente, acaba por oxidar. Se o spotting ocorrer durante mais de dois dias antes da menstruação, tal pode significar que os seus níveis de progesterona baixaram de uma forma um pouco mais acentuada do que o normal.

No entanto, existem outras causas de spotting que poderão esconder problemas mais graves de saúde, nomeadamente endometriose, fibro‐miomas, pólipos uterinos ou infecção pélvica. Sempre que haja suspeita de uma situação desta natureza, deverá consultar o seu ginecologista.

Após as relações sexuais poderá também haver ocorrência de algum tipo de sangramento. No caso de um sangramento leve e claro, este poderá provir do cérvix (abertura do útero ligada ao canal vaginal), face ao impacto causado pelo pénis durante a relação sexual, o que muitas vezes não representa um problema grave, mas é sempre conveniente descartar a possibilidade de haver uma questão de saúde mais séria como as que mencionei anteriormente.”

6. Dismenorreia (dores menstruais)

“Dismenorreia é o termo médico que se refere às dores associadas à menstruação. A dismenorreia pode ser dividida em primária e secundária. A dismenorreia primária é aquela que a maioria das mulheres experiencia e que as leva a encarar a sua menstruação de uma forma muitas vezes ne‐ gativa. Este tipo de dismenorreia surge normalmente com o aparecimento da menstruação mantendo‐se nos primeiros dois dias e amenizando com o avançar do período menstrual. Esta dor é sentida na região pélvica ou na região lombar. É normalmente mais intensa em idades entre os 20 e os 24 anos, com uma tendência a tornar‐se menos intensa com o avançar da idade e depois da gravidez. A dismenorreia primária é considerada normal. No entanto, há uma série de factores que poderão intensificar as dores e que têm que ver com o estilo de vida da mulher, nomeadamente hábitos alimentares, stress ou problemas emocionais e prática de exercício físico. Quando estes factores são corrigidos de forma a melhorar a saúde, é possível amenizar em muito a dismenorreia, tornando‐a uma condição que não interfere minimamente com o conforto da mulher durante a menstruação.

Por outro lado, temos a dismenorreia secundária, cuja intensidade da dor é muito mais severa e de maior duração. Este é um tipo de dor incapacitante que a pode fazer faltar aos seus compromissos e que se pode fazer acompanhar por outros sintomas como náuseas, vómitos, dores de cabeça, fadiga extrema e aumento da vontade de urinar. A dismenorreia secundária pode fazer‐se sentir noutras fases do ciclo menstrual que não a fase menstrual e é indicadora de problemas de saúde mais graves como a endometriose, adenomiose, presença de fibromiomas, doença inflamatória pélvica, síndrome dos ovários poliquísticos ou pólipos uterinos, condições das quais falarei detalhadamente.”

7. Dor da ovulação

“Algumas mulheres poderão sentir dor associada à ovulação. Esta dor é designada mittelschmerz, que é o termo em alemão para ‘dor do meio do ciclo’. O que causa esta dor é o rompimento do folículo principal de onde sairá o óvulo. A dor é sentida de um dos lados da pélvis que corresponde ao ovário que está a sofrer a ovulação e deverá ser uma dor de curta duração, durando normalmente entre uma e duas horas. Se sentir uma dor mais intensa, tal poderá indicar um problema de saúde mais grave, como adenomiose, endometriose, síndrome dos ovários poliquísticos ou algum tipo de infecção.”

8. Dor durante a relação sexual

“A dor durante a penetração pode ter várias causas, desde a falta de lubrificação da vagina, devido à ausência de desejo sexual ou mesmo devido à secura vaginal, muito comum na menopausa, por conta dos baixos níveis de estroénio, até problemas mais graves, como adenomiose, endometriose, síndrome dos ovários poliquísticos ou infecção.”

9. Ausência de muco cervical ou presença de muco cervical fora do período fértil

“O muco cervical é, como já foi explicado no tópico sobre a fase folicular ou proliferativa do ciclo menstrual, uma secreção que favorece a deslocação dos espermatozóides até às trompas de Falópio, onde estará o óvulo. O estradiol é a hormona que estimula a produção de muco cervical. Sendo o estradiol um tipo especifico de estrogénio, o facto de não se aperceber da produção de muco cervical durante o período fértil indica que, por alguma razão, estará a produzir quantidades baixas de estrogénio, o que leva também a uma baixa produção de muco cervical, que poderá passar despercebida. Se assim for, será mais difícil para si identificar o período fértil, uma vez que não consegue notar um dos seus sinais, que é a presença de muco cervical.

Também pode ocorrer a presença de muco cervical noutras fases do ciclo menstrual que não no período fértil, levando‐a a alguma confusão. No caso de uma fase folicular ou proliferativa muito longa, é possível haver secreção de muco cervical mais do que uma vez, devido a um pro‐ cesso intermitente durante o estímulo para a ovulação.”

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