“Só pedi ajuda quando comecei a pensar se valia a pena viver”. Histórias de estudantes que chegaram à exaustão

Ricardo teve um ataque de pânico no dia de Natal, Mariana teve uma depressão e começou a perder cabelo e Patrícia não aguentou a pressão.

Exaustão, perturbações de sono, desmotivação, cansaço físico e emocional ou irritabilidade são alguns dos sinais

“Durante quase todo o mês de dezembro não saí de casa, não via ninguém. Tive três exames na semana antes do Natal. Recordo-me precisamente que, no dia de Natal à noite, estava no meu quarto e tive um ataque de pânico. Só pensava que ia morrer, estava muito acelerado”, conta Ricardo (nome fictício), 25 anos, à MAGG. Aconteceu há quatro anos, no segundo ano da faculdade, enquanto estudava Economia na Universidade Portucalense. “Tinha sempre presente o medo de que as coisas poderiam correr mal”.

Nesse primeiro episódio Ricardo, natural de Matosinhos, dirigiu-se ao hospital com a mãe que, na altura, considerou não ser nada de grave. Também no hospital lhe disseram que era apenas “uma situação de nervosismo”, mas nos dias seguintes não houve melhorias.

Sentia os mesmos sintomas. Três dias depois não me conseguia levantar da cama. Tinha medo de morrer”, afirma. Uma vez mais, foi ao hospital e o diagnóstico foi outro. “Contei o que já tinha acontecido e o médico disse-me que a minha situação tinha sido despoletada por um esgotamento e exaustão, motivados pelo contexto de avaliações da faculdade”.

Um esgotamento pode interferir no normal funcionamento de uma pessoa e caracteriza-se por um estado de desordem mental grave, acompanhado por sintomas de depressão e ansiedade.

“A maioria dos casos, indexados ao contexto académico, são quadros de ansiedade – ansiedade generalizada e ansiedade de desempenho. Nem sempre há um quadro clínico que justifique o pedido de ajuda”, afirma a psicóloga clínica Inês Afonso Marques, à MAGG.

Ricardo teve de ser medicado para tentar minimizar os sintomas no dia a dia, mas durante esse período de tempo ia tendo várias crises de ansiedade e pânico. “O que me colocou naquele estado foi a pressão que coloquei em cima de mim, o medo de falhar perante os outros, de desiludir ou por pensar que era um burro e que não iria conseguir fazer nada da vida”, relata.

Motivos que levam os estudantes a procurar ajuda

Segundo a psicóloga clínica, são vários os motivos que podem levar os estudantes a procurar ajuda psicológica.

  • A mudança de semestres na universidade;
  • Os períodos académicos mais exigentes (durante ou após);
  • Fases de avaliações ou pós-avaliações.

Sempre sonhou ser engenheiro, mas quando terminou o secundário, Ricardo percebeu que teria de ir por outra “via” por ter dificuldades em disciplinas como a Física e Química. Optou, então, por seguir Economia. “Os primeiros tempos na faculdade não foram fáceis. Coloquei muitas coisas em causa, o porquê de estar ali, o porquê de estar a fazer os meus pais gastarem tanto dinheiro comigo em algo que nem era aquilo a que me tinha proposto”. Ainda assim, continuou no curso.

O jovem sente que a sua vida mudou depois desses episódios e, quatro anos depois, afirma que não se sente totalmente recuperado. “Mudei completamente a minha maneira de estar na vida, de estar e de interagir com os outros. Antes de isto me acontecer, era uma pessoa que me divertia, que tinha bastantes amigos e isso foi-se perdendo aos poucos”.

Atualmente trabalha como gestor e garante que foi a dinâmica da profissão que o ajudou a recuperar. “O facto de ter começado a trabalhar numa empresa que me obrigava a sair da minha zona de conforto e a viajar pelo País em reuniões fez com que eu fosse ultrapassando os medos. Hoje em dia estou muito melhor porque enfrentei os problemas e não me refugiei em casa e em medicamentos”, refere.

“Só pedi ajuda quando comecei a pensar se realmente valia a pena viver”

“Chorava muito, por qualquer coisa. Todos ou quase todos os dias. Mais tarde, comecei a ter muitos pesadelos durante a noite. A situação agravou-se quando deixei de dormir. Não dormia mais de uma ou duas horas”. O relato é feito pela Mariana (nome fictício), 20 anos, estudante de Jornalismo e Comunicação na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Tudo aconteceu no primeiro ano da faculdade. “A sociedade coloca-nos uma pressão assombrosa”.

A entrada na faculdade, o saber que teria de decidir em pouco tempo o que pretendia fazer na vida, a pressão de ter de se licenciar em pouco tempo e tudo o que a vida académica acarreta, colocou-a numa situação de depressão em estado avançado. “Causou-me muito sofrimento sentir que aquilo não era um paraíso como aparentava ser aos meus colegas”, conta à MAGG. A jovem natural de Coimbra começou a sentir-se ansiosa e sem vontade de estudar e de realizar outras atividades.

“Sentia que não era suficientemente boa. Estava num estado de ansiedade que me deixava com a sensação de que podia ter feito melhor o meu trabalho”, diz. Mariana tornou-se apática perante tudo, deixou de ter vontade de conversar, só se sentia confortável em casa. “Sentia dores fortes no corpo e muita vontade de vomitar. O simples facto de alguém me tocar, abraçar, etc., doía-me. Fisicamente, estava exausta. Até o simples ato de escovar o cabelo ou tomar banho causavam-se dor e sofrimento”, revela. Foi perdendo cabelo e as olheiras ficaram mais salientes.

“Só pedi ajuda quando já me sentia no fundo do poço, quando comecei a pensar se realmente valia a pena viver. Passava-me muitas vezes pela cabeça ser mais fácil desistir e partir. Foi nesse momento que, graças ao grande apoio dos meus pais, pedi ajuda”.

Foi com o auxílio de um psiquiatra durante um ano e meio, e também por ter tido uns pais atentos que prontamente perceberam que ela não estava bem, que Mariana conseguiu recuperar. “Atualmente, sinto-me bem. Por vezes ainda tenho alguns sintomas. Posso dizer que hoje em dia estou mais preparada para evitar uma depressão porque já consigo detetar melhor os sintomas e lutar contra eles”.

Quando se trabalha e estuda ao mesmo tempo

São muitos aqueles que, por diversos motivos, optam ou têm necessidade de estudar e trabalhar ao mesmo tempo. É o caso de Patrícia (nome fictício), 24 anos. “Andava exausta. Não tinha vontade de sair, não tinha vontade para fazer nada, só queria ficar em casa. Tinha crises de choro e muita ansiedade. Sentia-me cansada, mesmo ao acordar, e não conseguia estudar: lia uma coisa 30 vezes e não conseguia”, diz à MAGG.

O burnout escolar não é muito diferente do profissional

Inês Afonso Marques refere que existem várias semelhanças entre o síndrome de burnout profissional com os sinais que se encontram em alguns estudantes. É o caso da exaustão, perturbações de sono, a desmotivação, o cansaço físico e emocional, a irritabilidade ou a dificuldade de gerir o tempo.

Quando entrou para a faculdade em 2014, para o curso de Ciências da Comunicação, trabalhava em regime de part-time aos fins de semana. No segundo ano de licenciatura teve de começar a trabalhar todos os dias. “Tinha aulas e depois ia trabalhar. Portanto, tinha de acordar às 6 horas — porque demorava uma hora a chegar à faculdade — e depois saía da faculdade por volta das 16 horas para entrar no trabalho às 18 horas. Saía à meia-noite e chegava a casa por volta da 1 da manhã”, recorda.

A jovem natural de Lisboa não aguentou durante muito tempo a “pressão”. “Tinha um dia bastante preenchido, numa altura em que tinha dois ou três trabalhos da faculdade quase semanalmente, em que estava a fazer oito cadeiras e ainda as frequências. A juntar a tudo isto havia também muita pressão dos meus pais porque já tinha reprovado um ano”.

As causas para os jovens em contexto universitário e escolar chegarem a este ponto extremo de exaustão são múltiplas. “Há situações em que os jovens se sentem esmagados pelas expetativas para serem os melhores, como suposta garantia de um futuro mais promissor se as notas académicas se destacarem. Estas exigências são muitas vezes auto impostas mas, também muitas vezes, decorrem de exigências externas, nomeadamente da família”, afirma a psicóloga Inês Afonso Marques.

“Há outras situações que estão associadas à desmotivação e à dificuldade de gestão do tempo, conduzindo à procrastinação e à necessidade de dar resposta a um elevado número de solicitações numa menor janela temporal”. Outras fatores como o pouco descanso, a falta de exercício físico ou uma alimentação pouco conveniente pode ter impacto negativo na capacidade de aprendizagem e de controlar as emoções.

A psicóloga Inês Afonso Marques considera que existe uma desvalorização em contexto escolar e universitário em relação à inteligência emocional

Foi a mãe de Patrícia quem percebeu que algo de errado se passava com a filha e foram ao hospital. O médico que a atendeu diagnosticou-lhe indícios de depressão e foi aconselhada a ter acompanhamento psicológico. A jovem optou por não ir às consultas, mas teve de tomar outra decisão para o seu bem-estar mental e físico. “Um dia a minha mãe encostou-me à parede e disse-me que teria de escolher uma das duas coisas: ou a faculdade ou o trabalho. Decidi sair do trabalho. Comecei a ter mais tempo para mim, para descansar”. Hoje sente-se bem e não voltou a ter episódios semelhantes.

A psicóloga Inês Afonso Marques considera que existe uma desvalorização em contexto escolar e universitário em relação à inteligência emocional. “Há muitos jovens universitários com dificuldade em dar nome àquilo que estão a sentir e muitos sem estratégias para regular estados emocionais como a tristeza, o medo, a frustração ou a ansiedade. Portanto, na origem da procura de ajuda em contexto psicoterapêutico está a inexistência de recursos para lidar com estados emocionais mais exigentes”.

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