Os números não são simpáticos para quem tem uma relação nos dias de hoje. Em Portugal, estima-se que sete em cada dez casamentos termine em divórcio. Para sermos mais precisos, em 2001 o número de divórcios por 100 casamentos estava nos 32%. Dez anos depois, atingia o máximo histórico de 74%. Hoje ronda os 64%. Desde o início da relação até aos primeiros anos de namoro, sem esquecer o casamento, a chegada dos filhos e o envelhecimento, uma relação é feita de etapas — e cada uma delas acarreta um novo desafio.

“As dificuldades ao nível da comunicação no seio do casal são um dos principais fatores que conduzem à insatisfação relacional e, consequentemente, à degradação e término das relações íntimas e românticas”, explica a psicóloga clínica e terapeuta sexual Manuela Peixoto. Logo a seguir vem a rotina quotidiana, o stresse laboral e o aborrecimento sexual.

Consoante a idade do casal, os desafios são diferentes. De acordo com a experiência em consultório de Manuela Peixoto, na casa dos 20 o grande problema costuma ser a comunicação. Nos 40, a questão de ter ou não filhos pode levantar dificuldades sérias no seio da relação. Dos 20 aos 80 anos, descubra quais são os principais desafios num relacionamento de acordo com a idade do casal.

Na casa dos 20: a construção enquanto pessoa e a importância de comunicar

Há uns anos, o principal desafio dos jovens na casa dos 20 anos era a entrada no casamento e a chegada dos primeiros filhos. Hoje em dia isso tende a acontecer mais tarde. Nesta fase, as pessoas ainda se estão a formar pessoal e profissionalmente, e isso pode levantar igualmente problemas.

“Ainda que a coabitação esteja a ocorrer cada vez mais tardiamente, um elemento fundamental continua a ser a comunicação”, explica Manuela Peixoto. “É importante que as pessoas comuniquem abertamente, quer em termos de assuntos sexuais, quer em relação a atividades do quotidiano.”

Qual é a média de relações sexuais por idade?

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Um estudo argentino realizado pelo Instituto Kinsey chegou a uma média de relações sexuais por ano.

19-29 anos: 112 encontros sexuais
29-39 anos: 86 encontros sexuais
39-49 anos: 69 encontros sexuais

É importante que cada membro do casal seja capaz de respeitar os seus valores e aspirações, mas também se esforce por partilhar os seus anseios, desejos e objetivos. “Nesta primeira etapa, na criação de um casal existirá sempre o casal e dois ‘eus’ individuais que aspiram a objetivos pessoais e relacionais.

Na casa dos 20: a ejaculação prematura pode ser um desafio

“Em termos da sexualidade, os homens estarão a atravessar a década do seu auge sexual, sendo a ejaculação prematura a principal dificuldade a enfrentar”, diz a terapeuta sexual e psicóloga clínica. “No caso das mulheres, a principal dificuldade passará por queixas de dor sexual. As causas podem ser múltiplas, logo é importante perceber os motivos que estão por detrás da dor experienciada.”

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Na casa dos 30: há uma miscelânea de desafios

“A década dos 30 é uma miscelânea entre a recém formação do relacionamento, a coabitação e os primeiros passos para constituir descendência”, explica Manuela Peixoto. A comunicação volta a ser extremamente importante, assim como pensar em formas de quebrar a rotina e descobrir novos prazeres.

“Por vezes surgem dilemas entre escolhas profissionais e decisões relacionais e de parentalidade. É o momento ideal para o casal discutir e procurar opções que se ajustem às suas necessidades e às suas ambições.”

Na casa dos 30: há mais queixas relacionadas com o desejo e o interesse sexual nas mulheres

É nesta altura que as mulheres se expressam mais sexualmente — e se queixam quando as coisas não estão bem. “Se o problema não for abordado, estas queixas podem evoluir para dificuldades em atingir o orgasmo, problemas ao nível da lubrificação e consequentemente, dor sexual.” Portanto, numa altura em que as mulheres procuram a satisfação máximo no sexo sem pudor, é importante serem capazes de comunicar com o parceiro para descobrirem, juntos, como chegar lá.

Maria Manuela Peixoto é psicóloga clínica e da saúde e terapeuta sexual. Tem uma licenciatura e mestrado integrado em Psicologia pela Universidade do Minho, mestrado em Psicologia Clínica pela Univers

No caso dos homens, “podem começar a surgir alguns episódios de dificuldades eréteis. Nesta faixa etária, quase sempre os problemas se relacionam com stresse laboral, gestão de rotinas e horários, e, claro, ansiedade de desempenho.” É importante que o homem seja capaz de comunicar sobre as suas dificuldades, bem como adotar um estilo de vida saudável.

“Na sua globalidade é uma excelente década, que pode ser a base para uma vida relacional futura de qualidade e satisfatória. Os estudos têm mostrado que, na terceira idade, a satisfação sexual e relacional está bastante dependente e relacionada com os níveis dessa mesma satisfação ao longo da relação e não tanto com a função sexual.”

Na casa dos 40: é nesta fase que podem surgir os (grandes) problemas

“A entrada na década dos 40 anos traz consigo várias questões que podem conduzir a problemas que precisem de ajuda mais especializada”, explica a psicóloga e terapeuta sexual. Para as mulheres que ainda não tiveram filhos e o desejam, a entrada nos 40 é uma fase crucial. Para os casais que já têm, a principal luta é encontrar tempo para momentos de intimidade.

“Os casais irão precisar de definir os seus horários e rotinas e de criar espaço também para a própria relação.” O stresse também não vai ajudar nesta fase, portanto é fundamental que o casal esteja estável e satisfeito para encarar com naturalidade os 40.

Na casa dos 40: os problemas de saúde e a perda de desejo sexual

A idade mais perigosa para trair? 39 anos

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Segundo um estudo realizado pelo IllicitEncounters.com, o maior site de relações extraconjugais do Reino Unido, em 2016, a idade mais perigosa para cometer uma infidelidade são os 39 anos.

49 anos é a segunda idade mais vulnerável, logo seguida pelos 29 e pelos ingénuos 19.

Para alguns homens, é nesta altura que começam a surgir as primeiras preocupações com a saúde cardiovascular, hipertensão arterial ou diabetes. “Estas condições médicas têm um impacto relevante na função erétil, portanto uma alimentação saudável e um estilo de vida não sedentário é mandatório.”

No caso de algumas mulheres, “o decréscimo ao nível do desejo e interesse sexual começa a ser também uma preocupação. Esta flutuação pode dever-se ao estabelecimento de um desejo sexual mais responsivo e à necessidade de criar um contexto de intimidade que facilite a procura e a excitação sexual.”

Na casa dos 50: o síndrome do “ninho vazio”

É nesta fase que surgem várias mudanças importantes. “Em termos relacionais, alguns casais enfrentam uma nova crise que se relaciona com a saída dos filhos de casa ou síndrome do ‘ninho vazio’. Nestes casos, os casais irão reencontrar-se novamente e passarão a ter mais tempo disponível para si e para o relacionamento.”

É importante entender que, com o passar dos anos, os interesses, objetivos e ambições de cada membro do casal podem ter sofrido ligeiras alterações. Neste sentido, há que estar disponível para ouvir e respeitar o outro.

Na casa dos 50: a sexualidade está prestes a mudar — mas não precisa de ser para pior

Esther Town/Unsplash

É nesta altura que as mulheres começam a conviver com a menopausa, e consequentes alterações fisiológicas. “A sexualidade está prestes a mudar, o que não significa que seja para pior. Algumas mulheres relatam níveis de desejo e de interesse sexual mais intensos nesta fase da vida, pelo simples facto de não terem de se preocupar com o controlo da natalidade. Para outros casais, o facto de voltarem a viver sozinhos melhora a disponibilidade e aumenta o número de encontros sexuais espontâneos.”

Ainda assim, há considerações a ter, nomeadamente no que diz respeito aos efeitos fisiológicos na mulher após a menopausa. É importante ser devidamente acompanhada, até para minimizar esses sintomas. Em relação aos homens, as condições médicas que afetavam a função erétil mantêm-se presentes, além de que “começam a surgir períodos refratários mais longos.”

“Os casais que não se foquem exclusivamente na sexualidade, podem aproveitar esta fase da vida para fortalecer outras áreas da sua relação.”

Na casa dos 60, 70 e 80: o possível regresso dos filhos e a discussão sobre como envelhecer

As dificuldades económicas têm obrigado muitos adultos a regressar a casa dos pais. Na casa dos 60, 70 ou até mesmo 80 anos, isto pode levantar alguns desafios à relação daqueles que já se tinham habituado ao “ninho vazio”. Além disso, as características individuais de cada um “estão mais cristalizadas”, o que pode fazer com que pequenos defeitos se comecem a tornar cada vez mais incómodos.

“É o momento para o casal discutir como envelhecer, encontrar soluções ajustadas e adequadas. A saúde tende a fragilizar e é importante monitorizar as alterações.”

Na casa dos 60, 70 e 80: menos apetite sexual não significa infelicidade

É uma tendência nesta fase: elas perdem apetite sexual, eles sentem um decréscimo na função erétil. “Ainda assim, há um número significativo de casais a relatar elevados índices de satisfação sexual e relacional. Uma boa satisfação prévia é um preditor da satisfação nestas décadas.”

No entanto, não há como desvalorizar a importância de uma intimidade menos sexualizada, que “pode ser igualmente satisfatória e promover sentimentos de segurança e de intimidade muitíssimo importantes para um casal.”