Quando o aumento do preço do gás ditava um duelo de espadas

De um lado Beja da Silva, do outro António Centeno. Aconteceu no dia 27 de dezembro de 1925 e foi o derradeiro em Portugal.

Em 1925, os duelos de espadas já eram proibidos por lei mas, ainda assim, tolerados pela polícia

O duelo era de espadas, mas foi o coração que acabou por matar Beja da Silva, naquele que ficou registado como o últimos de todos os confrontos do género em Portugal.

Viviam-se tempos em que a honra se limpava frente a frente e que assuntos como o preço da água davam direito a momentos de esgrima. É que, ainda que proibidos por lei, os duelos eram tolerados como forma de evitar cenas de pancadaria, atividade reservada a classes sociais sem gabarito. O que não era o caso.

De um lado, o vice-presidente da Câmara de Lisboa, o republicano António Beja da Silva, do outro António Centeno, o monárquico diretor das Companhias Reunidas de Gás e Eletricidade, acusado de não cumprir um acordo sobre a subida do preço do gás e do aluguer dos contadores. De um lado um homem de 47 anos, do outro um de 70, sem que a idade fosse um handicap. É que António Centeno ganhava a Beja da Silva não só em anos de vida, como em experiência. Beja era praticamente um estreante e Centeno, habituado à esgrima, tinha um “desembaraço ágil”, como é descrito na capa do “Diário de Notícias”, que conta a história na edição de 28 de dezembro de 1925, um dia depois da tragédia.

Numa altura em que escrever notícias era como contar histórias, quase que nos sentimos entrar também naquele “automóvel de um amigo do Sr. Beja da Silva, para assistir às peripécias do desafio”, como se continua a ler na capa do DN, a lembrar também os tempos sem clickbait, no qual a primeira página contava (quase) tudo.

“Levávamos aquela boa disposição de sempre, a habitual disposição de todos os espetadores de duelos, de antemão sabendo que ao fim de três ou quatro assaltos uma das espadas francesas havia de fatalmente picar um músculo, os médicos haviam de reconhecer a impossibilidade de continuação da pendência, havia de se dar um aperto de mão reconciliador, e tudo voltaria a suas casas com um sorriso de recatada ironia à flor dos lábios”.

Tinha tudo para ser assim, até porque a luta era dada como terminada ao primeiro vestígio de sangue ou quando um dos opositores não pudesse continuar devido a um ferimento. Mas, neste caso, nem foi preciso ir tão longe.

Os dois tomaram posições de observação no Jockey-Club, no Campo Grande e, lê-se no DN, que “há quem afirme que os dois duelistas são de valor e que um e outro são conhecedores das boas regras de esgrima e que, portanto, vai ser movido e brilhante o espetáculo”.

Mas a verdade é que o duelo terminou ao segundo round, não com sangue, nem tão pouco com ferimentos, mas sim com Beja da Silva a cair desamparado, vítima de “síncope cardíaca”, como se escreveu na altura.

O “Diário de Lisboa”, que também dedica parte da primeira página à tragédia que ditou o fim dos duelos em Portugal, recorda Beja da Silva como “um homem de bem e um trabalhador infatigável”, que evitava comoções tendo em conta o seu estado de saúde. “O seu coração estava doente, tinha que tratá-lo com carinho”.

O desfecho impressionou o País, fez com que milhares aparecessem para o funeral e deu força aos, já então muitos, oponentes deste tipo de disputa. “O duelo é uma coisa estúpida em que a honra se lava, como os patos dos charcos”, escreve, por fim, o “Diário de Lisboa”.

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