Como o Pai Natal do Colombo viveu durante anos com medo de sorrir

Ficou sem dentes na adolescência mas, em 2015, recebeu um tratamento que lhe mudou a vida. Veja as diferenças e conheça a história.

Severino Moreira é Pai Natal no Colombo há 18 anos e é conhecido pelo seu sorriso — um sorriso que durante anos não teve

Samuel Costa/MAGG

Severino Moreira, 69 anos, é o Pai Natal afável e simpático do Centro Comercial Colombo, em Lisboa, há 18 anos. Apesar de estar sempre bem disposto e contente, até porque defende que é assim que a figura do Pai Natal se deve apresentar às crianças, nem sempre tudo correu da melhor maneira. Muito devido às dificuldades que sentia em sorrir com um sorriso que não tinha e que, quando tentava forçar, lhe doía “no corpo e na alma.”

É que desde a adolescência que Severino Moreira se viu obrigado a viver com um handicap enorme — a extração quase total da dentição, “que sempre foram a parte desfavorecida” do seu organismo. À MAGG, conta que se sempre se sentiu “balizado pelas circunstâncias” de viver sem dentes e que conviver com esse inconveniente lhe trouxe vários problemas de autoestima e autoconfiança.

O problema, continua, é que a deterioração da boca e da estrutura óssea que a compunha foi-se acentuando, obrigando-o a utilizar próteses removíveis para disfarçar aquilo que não tinha e que invejava nos outros. “Com o minguar das gengivas, foram várias as vezes que essas próteses se soltaram em momentos críticos, como ao sorrir para uma fotografia ou na declamação de um poema.”

Quem vive com este problema tem uma permanente preocupação não só consigo mesmo, mas com terceiros.

Severino Moreira recorda com tristeza esses momentos que lhe provocavam um sofrimento enorme que só não denunciava por uma questão de pudor. A falta de dentição e o efeito devastador que isso tinha na sua auto-estima levou a que muitas vezes não se habilitasse a vários trabalhos que, à partida, teria alguma facilidade de disputar com outros candidatos. Mas o medo da rejeição era muito forte.

Severino apresentava uma perda acentuada da estrutura óssea bocal devido ao uso de próteses removíveis

Malo Clinic

“Uma boca com má aparência afasta a aproximação e faz com que nos neguemos à simpatia de um sorriso. No mais íntimo de nós, sentimo-nos menos iguais. Mas na verdade, somos nós mesmos que nos afastamos de um eventual convívio por estarmos inibidos pelo nosso próprio aspeto”, revela.

O medo de sorrir para as fotografias

Durante vários anos Severino Moreira viveu naturalmente inibido. Evitava sorrir abertamente e recriava formas de mastigação que, apesar de “necessariamente engenhosas” eram também muito deficitárias, já que punham em risco o pouco de estrutura óssea que lhe restava.

Foram várias as vezes em que vivi o paradoxo da alegria e da dor no mesmo instante. É que cada vez que eu forçava o sorriso, as placas removíveis deslocavam-se e magoavam-me muito as gengivas.”

“Quem vive com este problema tem uma permanente preocupação não só consigo mesmo, mas com terceiros. Pois muitas vezes, e por vergonha, sente-se coagido a encobrir a limitação e a imagem de uma dentição lesada.”

O facto de ser o Pai Natal do Colombo não ajudava. É que enquanto figura mais importante do Natal, tinha de tirar fotografias com milhares de pessoas por dia. Tarefa essa que, por mais que lhe custasse, obrigava-o constantemente ao ato de sorrir. O problema estava precisamente aí: em rir com um sorriso que não tinha há muito tempo e que, quando forçado, lhe doía — física e psicologicamente.

“Tiro milhares de fotografias com crianças e faço-o sempre sorrindo, porque é assim que o Pai Natal deve ser: afável e feliz. Mas foram várias as vezes em que vivi o paradoxo da alegria e da dor no mesmo instante. É que cada vez que eu forçava o sorriso, as placas removíveis deslocavam-se e magoavam-me muito as gengivas. No final de cada época natalícia, a minha boca estava completamente ferida”, conta.

O tratamento que mudou tudo

A vida de Severino Moreira alterou-se por acaso quando, no final de 2015, se candidatou à rubrica “Portugal a Sorrir”, organizada pela MALO CLINIC em parceria com a TVI no programa “Você na TV”, que tem como objetivo a reabilitação bocal daqueles que nela se inscrevam. O caso de Severino despertou algum interesse na clínica que decidiu ajudá-lo ainda que, à partida, não se enquadrasse nos critérios de seleção devido à sua idade (66 na altura).

“A carta de candidatura encontrava-se extremamente bem redigida, com uma cordialidade assinalável. Nela, Severino falava de si, da sua história, dos problemas dentários que há muito o afligiam e apresentava-se como sendo o Pai Natal do Colombo”, revela Alexandra Malo, Diretora de Marketing e Comunicação da MALO CLINIC, à MAGG.

Comovi-me muito com a nova imagem. Senti imensa alegria e paz e a minha família depressa me alimentou o ego. Diziam com convicção que estava mais jovem.”

Além da sinceridade, honestidade e correção com que se apresentou, foi o facto curioso de ser o Pai Natal do Colombo que fez com que fosse um dos 20 escolhidos para receber o tratamento completo que há muito esperava.

O problema de Severino era complexo e teve um custo médio de 16 mil euros

Malo Clinic

A componente social é uma das mais importantes da MALO CLINIC e teve início quando Manuel Luís Goucha, apresentador do “Você na TV” e embaixador da clínica, a abordou com um caso muito complicado que o tinha impressionado durante a emissão do programa. Tratava-se de uma mulher chamada Bárbara Alves, que tinha perdido todos os dentes devido a um cancro oral.

Por querer apostar na solidariedade social, a clínica aceitou o caso que, apesar da sua complexidade, teve um desfecho feliz. Desde então que a rubrica regular já ajudou mais de 400 pessoas necessitadas um pouco por todo o País.

Visto que Severino Moreira usava próteses removíveis há vários anos, o que contribuiu para uma “considerável perda óssea”, o tratamento aplicado consistia em aplicar implantes mais longos e teria um custo médio de 16 mil euros. À MAGG, destaca a amabilidade da clínica que “em momento algum referiu o custo” do tratamento. Ainda assim, não tem dúvidas de se tratar de um tratamento com “um valor de alguma dimensão” — e não esconde a gratidão cada vez que recorda o gesto “simpático e honesto”.

Além de um período de recuperação relativamente fácil e curto, onde não sentiu qualquer problema de adaptação aos novos dentes, Moreira diz-se um homem novo. Não só está mais disponível e tranquilo para se relacionar com os outros, ou para declamar os seus poemas livremente, como também se sente mais “produtivo e desinibido”.

“Comovi-me muito com a nova imagem. Senti imensa alegria e paz e a minha família depressa me alimentou o ego. Diziam com convicção que estava mais jovem”, conta à MAGG.

Atualmente, Severino Moreira diz-se menos inibido e capaz de aceitar cada vez mais e novos desafios

Samuel Costa/MAGG

Severino Moreira, que foi bancário durante cerca de 30 anos e que se reformou cedo por estar cansado da banca, diz que agora já não tem receios dos desafios e mostra-se disponível para qualquer tipo de trabalhos que possam surgir. É que a sua natureza foi a de estar sempre em movimento, com vontade de criar e dinamizar todas as tarefas a que se empenhava. Além de ser o Pai Natal no Colombo, é ainda escritor, faz teatro e já participou em algumas novelas portuguesas.

Segundo conta, já não tem medo de nada e diz ter mais espaço para brilhar e mostrar a sua presença natural. Prova disso é a quantidade de trabalhos que tem aceitado, como um spot publicitário humorístico em que, vestido de Pai Natal, teria de levar ao colo a atriz Soraia Chaves pela praia.

Apesar de durante o resto do ano nunca estar parado, aquilo que mais o preenche é mesmo a oportunidade de encarnar a figura do Pai Natal. “Vou ter mesmo muita pena quando chegar o dia em que já não serei capaz de o fazer, porque aprendo muito com as gerações que vão passando por mim e que recebo sempre com um sorriso.”

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