Ainda não foi encontrada a palavra do ano, mas orgânico devia fazer parte da shortlist. Assim como sustentável ou biológico. Afinal, 2018 foi o ano em que o mundo acordou para a necessidade de criar um planeta onde seja possível viver com qualidade durante mais alguns anos.

Voltou-se a comprar nos mercados, foge-se a sete pés dos pesticidas e, por isso, os produtos com o selo de orgânico ganharam terreno no mercado. Mas será esse o caminho a tomar?

Parece que não. Pelo menos se tivermos em conta os resultados de um estudo sueco publicado na revista Nature que, ainda que não tire as qualidades mais que provadas de uma alimentação mais natural, faz as contas aos gastos necessários à produção desses alimentos sem químicos e o resultado não é brilhante.

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Os investigadores perceberam que alimentar os quase oito mil milhões de habitantes deste planeta com alimentos orgânicos exigiria a utilização de mais áreas agrícolas e que grande parte desse território seria retirado às florestas. Isto acontece porque a agricultura orgânica tende a ter rendimentos agrícolas mais baixos, o que obriga a que seja precisa mais terra para cultivar a mesma quantidade de alimentos produzidos na agricultura intensiva.

Para esta pesquisa em específico, os investigadores focaram-se na produção de trigo e de ervilhas na Suécia e concluíram que estes alimentos, quando produzidos de forma orgânica, acabam por ter um impacto climático maior do que na produção convencional.

A comida orgânica, por se produzida sem recurso a fertilizantes, acaba por ter uma produção menor exigindo que, para a mesma quantidade, sejam ocupados áreas agrícolas maiores. Ao exigir mais terra, acaba também por levar a um nível mais elevado de emissões de gases com efeitos de estufa.

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“No caso das ervilhas, esse impacto climático é 50% superior do que na produção convencional e, no caso do trigo, esse aumento chega aos 70%”, refere Stefan Wirsenius, professor da Chalmers University of Techonology e autor do estudo, que aproveita para fazer uma referência às consequências globais de problemas que, muitas vezes, podem parecer locais. “A produção mundial de alimentos é dominada pelo comércio internacional, ou seja, o que cultivamos na Suécia influencia a desflorestação nos trópicos”.

Ainda assim, a equipa de investigadores admite que a produção orgânica, apesar de ter consequências negativas em grande escala, pode ser vantajosa no caso de produções locais, uma vez que as toxinas dos fertilizantes e pesticidas geralmente infiltram-se em fontes de água e acabam por se acumularem nos solos, comprometendo os ecossistemas mais pequenos.