A partir dos 3 anos, há jardins-escola que suspendem as sestas — isso é bom para os seus filhos?

As sestas são benéficas, mas os especialistas avisam que nem todas as crianças podem precisar delas. Falámos com três mães e dois pediatras.

Ter o sono em dia é muito importante, sobretudo para os mais novos — contribui para o bom humor e para o relacionamento destes com a família, educadores e outras crianças

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A 1 de junho de 2017, a Sociedade Portuguesa de Pediatria publicou uma recomendação sobre a prática da sesta das crianças nas creches e infantários (públicos ou privados). Tal como se pode ler no documento partilhado no site da sociedade, “a sesta deverá ser facilitada e promovida até aos 5, 6 anos”, sendo que a “privação do sono na criança está associada a efeitos negativos a curto e a longo prazo em diversos domínios, tais como o desempenho cognitivo e aprendizagem, a regulação emocional e do comportamento, o risco de quedas acidentais, de obesidade e hipertensão arterial”.

No entanto, apesar da recomendação, a realidade portuguesa continua a ser outra: muitas das creches e jardins-infância nacionais, sejam públicas ou privadas, eliminam a hora da sesta a partir dos três anos, algo que traz transtornos a muitas crianças.

“O meu filho sempre precisou muito de dormir, fazia sestas de quatro horas”, conta à MAGG Carla Lopes, 39 anos, mãe de Pedro, atualmente com 5 anos. Com a passagem para o pré-escolar, a tradutora explica que o assunto das sestas nunca foi abordado, mas admite que nunca questionou o colégio que o filho frequenta, uma instituição privada na zona de Sintra, dado que tem a certeza que Pedro “iria acabar por não dormir, sabendo que os amigos não estavam a fazer o mesmo”.

Para Carla Lopes, a falta da sesta é notória e admite que o comportamento do filho se alterou bastante. “Começou a ficar mais irritadiço, a fazer birras que já não fazia”, conta. Por outro lado, a hora do jantar é muito mais complicada desde que as rotinas de sono no colégio se alteraram. “Janta às 19h, mas mais parecem 23h, quase que dorme em cima do prato. Já chegámos a dar-lhe de comer às 18h30, o que é absurdo, para o irmos deitar.”

A tradutora acredita que estas mudanças nas rotinas fazem parte de uma preparação apressada para a etapa seguinte —“existe muita pressão para os miúdos entrarem para a primária o mais rápido possível e isso afeta tudo o resto”—, mas faz questão de manter os hábitos que funcionam aos fins de semana e em período de férias: “Aos sábados e domingos, é obrigatório dormir a sesta, em férias, idem. Fica logo mais calmo, dorme a sesta e parece outro”.

Maria Helena Estêvão, médica pediatra com competência em medicina do sono e membro da direção da Associação Portuguesa do Sono, foi uma das especialistas incluídas no grupo de trabalho que emitiu a recomendação de 2017, que estudou o assunto junto do Ministério da Educação.

Maria Helena Estêvão, pediatra com competência em medicina do sono e membro da direção da Associação Portuguesa do Sono

Jorge Correia Luís

À MAGG, a pediatra afirma sem rodeios que as horas da sesta são muito importantes para algumas crianças, “tendo extrema relevância no desenvolvimento e na aprendizagem”. Com a ressalva de que “cada criança é um caso individual”, Maria Helena Estêvão refere que já existiram muitas investigações que comprovam os benefícios da sesta, em termos gerais.

“Há trabalhos e estudos que comparam e concluem que a capacidade de memorização das crianças que dormem a sesta é maior em comparação com miúdos que não a fazem”, salienta, referindo que se existir necessidade de os mais pequenos dormirem à tarde, as instituições de ensino devem providenciar condições para tal.

O fim das sestas é bom ou mau?

Para Teresa (que prefere não revelar o nome completo), 30 anos, mãe de uma menina de cinco anos, a suspensão da sesta na escola da filha foi algo que afetou bastante a rotina familiar. “Senti bastantes diferenças no comportamento dela. Houve dias em que a minha filha nem jantou, escorregava da cadeira para debaixo da mesa e adormecia no chão da sala de jantar”, conta a aderecista, que abordou a escola, uma instituição na zona de Cascais, sobre o assunto.

Segundo a mãe, as representantes da escola afirmaram ter sido obrigadas a implementar a medida, apesar de não concordarem com ela. “Disseram-me que também achavam que os alunos deviam dormir, mas que não o podiam fazer — quanto muito, se algum menino da sala dos quatro anos demonstrasse sono, mandavam-no para a sala dos três para dormir um bocadinho”, revela Teresa, que também explica que uma suposta ordem do Ministério da Educação foi usada como argumento, ordem essa que impunha o fim das sestas devido às horas letivas que as crianças tinham de completar.

“Algumas pré-escolas e infantários afirmavam que tinham uma indicação que ditava que, a partir dos três anos, as crianças não precisavam de dormir a sesta. Usavam este argumento quando eram confrontadas pelos pais a favor da sesta, que perdiam a força do seu pedido com esta afirmação”, conta Maria Helena Estêvão. No entanto, refere a médica, “não existiu nenhuma diretiva nesse sentido”, tanto quanto sabe.

Mesmo depois da saída das recomendações em junho de 2017, a situação manteve-se. Na opinião de Maria Helena Estêvão, tal deve-se a vários fatores.”Muitos infantários, nomeadamente os públicos, não têm condições para pôr as as crianças a dormir”, conta a especialista. Para a sesta poder ser disponibilizada, as escolas têm de ter um determinado espaço para colchões e um profissional (educadora ou auxiliar) que fique a tomar conta das crianças enquanto dormem.

A pediatra adianta que os horários e a carga letiva que as educadoras são obrigadas a cumprir também são um fator determinante para a limitação das sestas: “Tanto quanto nós ficamos a saber nas reuniões que tivemos com o Ministério da Educação, as educadoras têm um determinado plano de trabalhos e número de horas que têm de cumprir com as crianças. Se estas forem dormir, ficam com um défice de horas cumpridas”.

Para incluir as sestas, será uma alternativa rever a carga letiva no pré-escolar? Maria Helena Estêvão afirma que a solução pode ser mais simples. “Na minha opinião, tenho a ideia que existem algumas educadoras que saem um pouco mais cedo e deixam as crianças acompanhadas pelas auxiliares. Caso as educadoras tenham um horário até mais tarde, podem cumprir o plano de trabalhos com as crianças, mesmo com a pausa para a sesta. A título de exemplo, se uma educadora sair pelas 15h30 ou às 16h, e a sesta for incluída, as horas de trabalho com os miúdos não vão ser cumpridas na totalidade”, refere.

Algumas crianças precisam de dormir à tarde, outras não

O sono é de extrema importância para o desenvolvimento das crianças. Miguel Fragata Correia, médico pediatra na Clínica Lusíadas do Parque das Nações,  diz à MAGG que “existe uma quantidade de horas de sono que são essenciais e necessárias quer para o desenvolvimento físico, quer para o intelectual, e para o crescimento, mas não é obrigatório que todos esses benefícios venham da sesta”.

Miguel Fragata Correia, pediatra na Clínica Lusíadas do Parque das Nações

Entre os 3 e os 6 anos, as crianças devem dormir 11 a 13 horas, e a importância da sesta advém da quantidade de horas de sono que conseguem fazer à noite. “Há miúdos que podem dormir as 11 horas no período noturno e dormem tudo o que precisam”, afirma Miguel Fragata Correia. Também “existem crianças que dormem apenas oito horas à noite e precisam mesmo de fazer uma sesta de duas, três horas. É muito importante perceber que as necessidades são individualizadas”.

A história de Ana Teresa Mota, 46 anos, comprova isso mesmo — cada criança é um caso, e o que é benéfico para uns, pode não ser para outros. Mãe de duas raparigas, uma atualmente com 15 anos, outra com 9, a produtora de videojogos passou por um momento delicado quando as filhas tinham quatro anos.

“Andavam ambas em escolas diferentes, mas aos quatro anos, nenhuma delas precisava de dormir a sesta, dado que dormiam 11 horas no período da noite”, explica Ana Teresa Mota, que recorda a época complicada em que as escolas das filhas, instituições privadas na zona de Lisboa, incutiam a sesta a todos os alunos.

As filhas de Ana Teresa Mota eram obrigadas a ficar no escuro, durante cerca de hora e meia, sem dormir. “Com a mais velha, fui à escola durante o período da sesta e apanhei-a aos berros. Tirei-a da escola nesse mesmo dia”, conta a produtora, que também explica que a instituição de ensino da filha mais nova foi mais compreensiva. “Falei com a educadora, ela reagiu bem, entendeu o meu argumento e a minha filha parou de dormir a sesta, começou a ficar com a professora enquanto os colegas dormiam”.

É exatamente esse diálogo que Maria Helena Estêvão acredita ser vital: “O que é ideal, e é exatamente isso que recomendamos, é que haja um acordo entre as educadoras e os pais. Cada um dos pais conhece melhor o seu filho e sabe se para aquela criança é absolutamente fundamental dormir à tarde, ou não”.

“Dizer que não existe sesta a partir dos três anos é tão errado como afirmar que todos os alunos têm de a fazer obrigatoriamente”, defende Miguel Fragata Correia, que acrescenta que o mais importante é “os pais avaliaram a qualidade e a quantidade do sono”.

O seu filho está demasiado agitado? Pode estar com sono

Quando estão com sono, os adultos ficam muito cansados, com claros indícios de sonolência — nas crianças, o caso muda de figura. “É exatamente o contrário”, refere Maria Helena Estêvão, que explica que as crianças ficam extremamente ativas e, nalguns casos, tal até é classificado como hiperatividade ou défice de atenção.

“Fazem birras, estão impossíveis, chegam a casa e só correm de um lado para outro, deitam-se ao chão, não respeitam as ordens dos pais — muitas vezes, isso é um sinal de sono”, afirma a especialista, reforçando a importância das sestas, caso exista uma clara necessidade.

Nos casos em que as escolas alegam não ter condições para providenciar as sestas em idade pré-escolar, Maria Helena Estêvão adverte que os pais não se devem acomodar. “Se existir cada vez mais diálogo entre os pais e as estruturas das escolas, se existir alguma mobilização dos infantários em geral perante o Ministério da Educação, talvez exista uma melhoria das condições e uma mudança no esquema das educadoras”, refere a médica pediatra, que salienta que os pais devem estar sensibilizados para a questão e informados da necessidade da sesta nas crianças.

Miguel Fragata Correia insiste em que é vital perceber se todas as crianças precisam deste período de descanso à tarde: “Se está bem disposta, não apresenta sinais de hiperatividade, cansaço extremo, consegue estar concentrada nas atividades e dorme efetivamente de noite, pode não precisar da sesta”.

No entanto, o pediatra também explica que, nos casos em que as crianças não concluem à noite o números de horas de sono necessárias, a suspensão da sesta pode originar problemas. “Vai afetar logo o humor da criança, o desempenho intelectual. Podem ter défice de atenção, dificuldade em focar, etc”.

“Ter o sono em dia é muito importante, sobretudo para as crianças. Contribui para o bom humor e para o relacionamento destas com a família, educadores e outras crianças”, sublinha Maria Helena Estêvão, que conclui que a sesta, a partir dos 3 anos, pode ser proveitosa, “mas não é obrigatória”.

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