“Não bebas tanto café que isso faz-te mal.” É uma discussão recorrente. Se, por um lado, a ciência tem vindo a sugerir que o café faz bem à saúde, por outro, há qualquer coisa nele que não deixa confiar absolutamente. Faz sentido: o café é um excitante, estimulante, capaz de combater a fadiga, o sono e que cria dependência, tanto que quanto mais se ingere, maiores terão de ser as doses para surtir efeito.

Como em tudo, há um lado bom e um lado mau. Há determinados grupos que devem ter, de facto, cautela no consumo de café. Mas, com conta peso e medida, as vantagens parecem ser gigantes. Tanto assim é que uma meta-análise (análise de vários estudos num determinado período de tempo) de 2016 mostrou que aqueles que consumiam três chávenas desta bebida por dia tinham uma esperança média de vida mais elevada. Isto porque há uma diminuição no risco do aparecimento de diferentes tipos de doenças, como diabetes ou cardiovasculares.

Segundo a Associação Portuguesa de Nutricionistas, “doses de cafeína acima de 400 miligramas por dia representam um consumo elevado, o qual pode causar riscos para a saúde.” Mas o que são 400 miligramas em chávenas de café? Fique com estes números. De acordo com a mesma entidade, um café cheio tem 88 miligramas de cafeína, um médio tem 72 miligramas e um cheio 62 miligramas.

Cérebro, metabolismo, prevenção de doenças. O lado bom

É rico em antioxidantes, por proteger o organismo de situações de risco

A nutricionista Ana Lúcia Silva começa por apontar a presença vantajosa de polifenóis, tais como o ácido clorogénico. “A vantagem é que eles [os antioxidantes] permitem aumentar o sistema de defesa aos possíveis ataques dos radicais livres de oxigénio, que contribuem para a destruição celular ou para alterações do DNA”, diz à MAGG. “Esses radicais podem conduzir a determinadas circunstâncias relacionadas com o envelhecimento celular e exacerbar o stresse oxidativo, que está associado a um estado inflamatório. E aqui entramos numa situação de risco para o desenvolvimento de várias doenças: cancros, doenças metabólicas, cardiovasculares, inflamatórias.”

Previne a diabete tipo 2

Foi sugerido esta quarta-feira, 14 de novembro: três a quatro cafés por dia podem proteger o organismo da diabetes tipo 2. Os resultados da investigação, apresentados no Encontro Anual da Associação Europeia de Estudos da Diabetes, sugerem que vários compostos presentes nesta bebida — ácidos hidroxicinâmicos (ácido clorogénico, trigonelina, diterpenos), cafestol e caveol — protegem o organismo contra a doença, bem como outros fatores potenciados pelo seu consumo, como o efeito anti-inflamatório (relacionado com a proteção contra os radicais livres), efeito termogénico (dispêndio maior de energia e possível diminuição das células gordas) e alterações no fígado gordo.

Faz bem ao fígado

Um estudo publicado em 2016 demonstrou que o café poderá potenciar a saúde do fígado, diminuindo a probabilidade de cirrose, especialmente relevante para pessoas dependentes do álcool. O que acontece é que o consumo de cafeína ajuda a diminuir os níveis de enzimas no fígado, relacionadas com lesões e inflamações neste órgão. Quando mais café, menos enzimas.

Diminui o risco das doenças mentais

“A evidência é forte na proteção contra o declínio mental”, diz Ana Lúcia Silva. O consumo de cafeína parece estar relacionado também com o fortalecimento das funções cerebrais. Uma das justificações diz que a cafeína ajuda a prevenir a construção da placa beta-amilóide, relacionada com a progressão do Alzheimer. Há ainda a questão da diabetes: se esta doença pode ser prevenida, então o risco de demência, que lhe é associado, também.

A memória a curto prazo fica mais forte

É uma resposta cerebral. O café afeta zonas do cérebro responsáveis pela memória e concentração, potenciando-as, mas apenas a curto prazo.

Melhora a performance no exercício

Beber café antes do treino poderá ajudar a ter um rendimento mais elevado: “A cafeína tem a capacidade de aumentar a resistência à fadiga, de aumentar a tolerância à dor e concentração — necessária em situações com técnicas de maior concentração”, diz a nutricionista. “Em tempos era até uma bebida proibida para atletas de alta competição.”

É um aliado na perda de peso

A ciência diz que o café poderá aumentar a termogénese, ou seja, “que passamos a despender mais energia [a gastar mais calorias]”. Segundo a especialista, alguns estudos em animais demonstraram que o consumo de café também poderá diminuir as células gorda, aquelas onde fazemos as reservas de gordura.

É um socorro em momentos de cansaço

É a reação do corpo mais evidente. O café acorda e diminui o cansaço. Mas atenção: “O café não tem um efeito imediato. Se quisermos usufruir dos benefícios em determinada tarefa, devemos beber com 60 minutos de antecedência, porque é a partir deste tempo que se sente o efeito máximo.” Por outro lado, é uma bebida que cria resistência, portanto quanto mais beber, e quanto mais o hábito durar, menor será o efeito e maior a necessidade de aumentar as doses — que nunca devem ser superiores a 400 miligramas diários.

O cortisol, o estômago e os dentes. O lado mau

A possível presença da acrilamida, um componente tóxico

“Esta é também uma das possíveis desvantagens”, diz a nutricionista, que explica que a presença deste contaminante tóxico, potencialmente cancerígeno, formado pela reação de Maillard, “parece estar relacionado sobretudo com produtos de origem vegetal, como biscoitos, pão torrado, muitos produtos de origem cereal, incluindo o café.”

Em março, um juiz da Califórnia aprovou uma lei que obriga empresas de café (onde se insere a Starbucks) a incluírem um aviso relativo ao potencial cancerígeno do seu produto.

Os perigos da acrilamida, a substância potencialmente cancerígena que está nas batatas fritas, nas torradas e até no café

É mau para quem sofre de insónias

Não é novidade: o café é um excitante. O que poderá não saber é que a cafeína também estimula a produção de cortisol, a hormona associado ao stresse e à adrenalina. Para um bom sono — e no tratamento deste distúrbio — é preciso evitar substâncias estimulantes como a cafeína, anfetaminas e o tabaco, uma vez que os efeitos dessas substâncias podem durar até 8 horas.

De acordo com um estudo, publicado em 2005 na revista Psychosomatic Medicina, “aumentos crónicos da secreção de cortisol podem ter implicações para a saúde a longo prazo.”

E de ansiedade

O cortisol, produzido pelas glândulas supra-reinais quando estas são estimuladas pelo hipotálamo e pela glândula pitutária, está novamente no centro do problema, ainda que a resposta a esta hormona em pessoas que consumam café diariamente pareça ser reduzida — mas não total — segundo o mesmo estudo de 2005. No entanto, indivíduos que sofram de ansiedade devem afastar-se desta bebida, porque ela tem potencial para aumentar o problema, ao subir o ritmo cardíaco e fazer aumentar a adrenalina.

“Está completamente desaconselhado a todas as pessoas que sentem efeito do café a nível taquicárdio, de insónias e ansiedade”, diz Ana Lúcia Silva.

Aumento da pressão arterial

Ainda que o café já tenha sido indicado como protetor para o coração, o aumento da pressão arterial poderá ser um dos efeitos mais adversos do café, mas para quem sofre ou potencialmente sofrerá desta condição. Mais uma vez, a causa é a produção de cortisol que, nestas circunstâncias, parece ter uma produção exagerada, de acordo com o mesmo estudo realizado em 2005, dirigido por William R. Lovallo.

A Fundação Portuguesa de Cardiologia adianta que o stresse pode estar na origem do aparecimento de doenças cardiovasculares e, entre várias recomendações, sugere que se diminua o consumo de café.

Quem sofre do estômago também tem de ter cuidado

Produtos potencialmente estimulantes são maus para o sistema digestivo, pelo efeito laxante. Por isso, além do café, o chocolate ou o picante, são desaconselhados a quem sofre de “problemas gastrointestinais, como gastrites, úlceras ou refluxo, por exemplo”, como indica a nutricionista.

É verdade. Os dentes ficam mais amarelos

O café mancha os dentes e quanto maior o seu consumo, mais visível o efeito. Em causa está, por um lado, a acidez e, por outro, o facto de os dentes não serem absolutamente lisos, ou seja, é mais fácil absorver os líquidos ingeridos.

A pele perde a firmeza

Se por um lado previne a rosácea (inflamação e irritação da pele), como foi sugerido num estudo publicado em outubro deste ano, por outro, o café parece reduzir também a produção de colagénio (proteína fundamental para a elasticidade e firmeza da pele), de acordo com outra investigação de 2014.

Grávidas têm de ter cuidado

“A cafeína passa a barreira da placenta e, por isso, passa para o bebé, o que pode criar dependência”, diz a nutricionista. “As grávidas podem beber, mas o consumo deve ser muito moderado.”