Web Summit. Ex-CEO do Twitter diz que “nenhuma empresa é responsável por curar o mundo”

Numa conferência sobre o futuro da indústria tecnológica, a conversa ficou marcada pela falta de privacidade no Facebook e Donald Trump.

Dick Costolo, antigo presiente do Facebook, deixou ainda um alerta ao Facebook: "Se têm um público composto por mais de dois mil milhões de utilizadores, têm de ter noção da responsabilidade que têm"

João Porfírio/Observador

Numa altura em que cada vez mais se tem falado das redes sociais como o reflexo de um mundo mais democrático e tolerante, Dick Costolo, antigo presidente do Twitter, e Sean Rad, fundador do Tinder, subiram ao palco principal da Web Summit esta quarta-feira, 7 de novembro, para uma breve reflexão sobre o estado atual da indústria tecnológica e sobre qual seria o caminho a seguir para o futuro.

O debate, moderado pelo jornalista JP Mangalindan, correspondente de tecnologia da “Yahoo Finance”, começou com uma provocação a Sean a propósito do Twitter e do tipo de utilizadores que atraí. É que além de mostrar notícias e todos os assuntos que estão a ser discutidos no momento, a rede social é também capaz de mostrar o melhor e o pior das pessoas que comentam e interagem diariamente através dela. O jornalista usou Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, e as suas publicações como exemplo e o assunto dominou grande parte da conversa.

“Acho que isso é ótimo e até indispensável no contexto atual, em que as empresas devem ter cada vez mais responsabilidades, revelou Dick que não tem dúvidas de que o Twitter ganhou popularidade precisamente porque permitiu que as pessoas falassem sem filtros.

“É exatamente isso que vemos com Donald Trump quando lemos algumas das coisas que ele escreve na plataforma. Curiosamente, muitas das coisas que ele diz agora são bastante diferentes daquilo que ele dizia e defendia há cerca de três anos”, e recusa a ideia de que o trabalho de uma qualquer empresa seja o de solucionar os problemas da sociedade.

“Nenhuma empresa é responsável por curar o mundo ou a sociedade mas é óbvio que temos algumas responsabilidades, como a capacidade de saber reconhecer se a plataforma poderá ou não estar a criar ou até mesmo a amplificar um problema” que antes não existia. É que se até há bem pouco tempo, as dificuldades pelas quais a equipa responsável pela gestão e bom funcionamento do Twitter tinha de enfrentar passava por apagar mensagens de spam ou recuperar contas roubadas, em 2015 tudo mudou.

“Não fazíamos ideia de que havia pessoas a tentar influenciar as eleições presidenciais dos EUA em 2015. Estamos a lidar com este problema pela primeira vez, por isso é expectável que existam vulnerabilidades”, continua. Apesar de já não estar na equipa do Twitter, Dick Costolo não tem dúvidas de que Jack Dorsey (atual CEO) está a fazer um trabalho exemplar com o intuito de mostrar a transparência da plataforma durante todo o processo.

“Estão a lidar com tudo isto da maneira certa, e isso é notável pela comunicação que vai sendo lançada cá para fora. Há transparência e uma tentativa de mostrar, em público, tudo aquilo que estão a fazer para melhorar”, e defende que Sillicon Valley está a passar não por um período negro, mas por um período de transição.

“No Facebook o problema da privacidade foi diferente e mais problemático, até porque é uma rede social com uma taxa enorme de utilizadores. Seja como for, se têm um público composto por mais de dois mil milhões de utilizadores, têm de ter noção da responsabilidade que têm. Mas também é importante que as pessoas que usam a rede social saibam naquilo em que estão envolvidas”, continuou.

Apesar de Sean Rad, fundador do Tinder, pouco ter falado ou desenvolvido neste debate, deixou o alerta de que depois desta crise, muitas outras virão e que é necessário procurar sempre a melhor forma de operar para evitar que os dados dos consumidores sejam comprometidos.

“Com grande poder vem também uma grande responsabilidade e é importante que as plataformas procurem sempre a melhor forma de agir e de lidar com os problemas. Mas acima de tudo, é importante que haja transparência e honestidade no que se faz”, rematou.

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