A 30 de outubro de 1978, o cirurgião pediátrico António Gentil Martins realizou a primeira separação de gémeos siameses com sucesso em Portugal, no Hospital D. Estefânia, em Lisboa. A propósito do aniversário dos 40 anos desta pioneira cirurgia, o médico de 88 anos falou com a MAGG nas instalações do Instituto Português de Oncologia Francisco Gentil (IPO), hospital fundado pelo seu avô, o também médico cirurgião Francisco Gentil.

Filho e neto de grandes personalidades da medicina portuguesa, António Gentil Martins passou a vida a tentar imitar o pai, António Augusto da Silva Martins, que perdeu precocemente quando tinha apenas três meses de idade, na sequência de um trágico acidente. O mais novo de três irmãos, decidiu seguir medicina depois de testemunhar um atropelamento. A partir daí, dedicou a sua vida a ajudar as pessoas através da sua missão como médico.

Dos estudos em Inglaterra às cirurgias inovadoras, António Gentil Martins recorda momentos importantes do seu percurso como homem e cirurgião, mas também defende as suas fortes posições em relação ao aborto, barrigas de aluguer, eutanásia e até sobre a possibilidade de casais homossexuais terem filhos.

Perdeu o seu pai quando tinha apenas três meses. Como foi crescer sem essa figura paternal?
Foi crescer com a minha mãe, que conseguiu substituir o meu pai de certo modo. Por um lado, conseguiu sempre transmitir o ideal dele. Por outro, havia um livro, chamado “In Memorium”, feito por um dos irmãos do meu pai, que tinha tudo o que os jornais (na altura não havia televisão) disseram dele quando faleceu [o pai de António Gentil Martins foi cirurgião e atleta].

Procurei sempre seguir o que o meu pai tinha feito. Nunca lhe cheguei aos calcanhares, tive foi a sorte de viver muito mais tempo do que ele, que morreu com 38 anos [na sequência de um acidente com uma arma, nos treinos para os Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1932].

A figura do seu pai sempre o inspirou na sua vida pessoal e profissional?
Totalmente. Foi o meu grande exemplo.

Entrevista a uma homeopata. “A criança tem 37,5 de febre na creche e imediatamente metem-lhe um Ben-u-ron”

A sua mãe também foi muito importante para si.
Absolutamente fundamental. Aliás, ela viveu para os três filhos. O meu irmão foi cirurgião, foi diretor aqui do instituto [IPO], a minha irmã diplomou-se em enfermagem. A minha mãe, inclusive, queria ser médica, mas o meu avô não a deixou. No inicio do século passado, uma mulher ser médica não fazia sentido.

Aprendeu música, piano e línguas, o que acabou por ser muito importante quando teve de se empregar depois da morte do meu pai. E o que lhe valeu foi saber muito bem alemão e francês, sobretudo. Depois foi aprender inglês para me ajudar a mim e ao meu irmão a estudar.

Como é que surge a medicina na sua vida?
No início do liceu, comecei a pensar se ia ser engenheiro ou médico. Tinha 11 ou 12 anos, estava muito hesitante e só me decidi depois de ver um homem atropelado na rua, não sabia se estava vivo ou morto, e eu ser incapaz de fazer algo. Pensei que queria ser capaz de agir, então escolhi medicina. Mas como também tinha muita vontade de fazer mesmo coisas, e dar só comprimidos e injeções não era para mim, escolhi a cirurgia. Com uma irmã enfermeira pediátrica, e casada com um pediatra, a especialidade também me começou a fazer sentido, e fui para Inglaterra estudar.

Porquê sair de Portugal?
Depois do internato, aqui em Portugal, escolhi a especialidade de cirurgia pediátrica. Mas depois, lendo livros e assistindo a congressos, achei que não estávamos tão avançados como lá fora. E disse: “Não, vou ver se arranjo maneira de ir lá para fora um tempinho para me aperfeiçoar”.

António Gentil Martins é católico e tem 8 filhos

Carla Oliveira

Tive a sorte de arranjar uma bolsa de estudo do British Council e fui para Londres. Depois tive outra vez sorte, porque estive a trabalhar com os melhores tipos do mundo que existiam na altura na área. Depois da bolsa terminar, disse mesmo que não estava preparado para me ir embora, queria sair a operar de forma independente. Deixaram-me ficar no hospital a trabalhar com eles, no Hospital for Sick Children, e de 20 candidatos, escolheram-me a mim para ficar.

Depois dos seis meses previstos, voltei a pedir para ficar, não me sentia ainda preparado para voltar, e pedi para me arranjarem outro sitio. Fui para Liverpool, com dois médicos de referência da área — tive mesmo a sorte de apanhar as pessoas certas. Mas após dois anos de estar em Inglaterra, nunca me deixavam operar nada. Até que me queixei desta situação e, passado pouco tempo, vieram ter comigo e disseram-me: “Faz o que te apetecer, se tiveres dúvidas pergunta”. Foi uma mudança radical de um dia para o outro, que eu não esperava, confesso. Testaram-me primeiro, viram como é que eu ajudava, e depois chegaram à conclusão que eu se calhar já podia fazer qualquer coisa.

Mas eu sou português, e só fazia sentido utilizar aquilo que tinha aprendido em Portugal. Se souber fazer as coisas bem não vou fazê-las para o México, vou fazê-las no meu País, porque eu sou português.”

Chegou a ter ofertas para ficar por lá, mas escreve no seu livro que quis voltar para Portugal para implementar o que aprendeu.
Isso é verdade, e é tal e qual. Mas pior do que isso: eu a esta altura podia ser multimilionário. Houve um senhor, que era o melhor cirurgião plástico do mundo, chamado Mario Gozález-Ulloa, que depois de eu apresentar um trabalho em Torrremolinos, me fez uma oferta para ir trabalhar com ele para o México. Disse-me mesmo que quando ele se reformasse, eu seria o substituto dele.

Agradeci-lhe imenso a oportunidade, porque ele era de facto um grande cirurgião plástico, os americanos iam todos ter com ele para ser operados. Mas eu sou português, e só fazia sentido utilizar aquilo que tinha aprendido em Portugal. Se souber fazer as coisas bem não vou fazê-las para o México, vou fazê-las no meu País, porque eu sou português. Saí daqui para aprender mais. Podia ter ganho muito dinheiro, mas o dinheiro para mim não é o mais importante. Eu quero é saber fazer bem as coisas e ser útil ao meu País. Não é que eu seja contra o México, contra os Estados Unidos, nada disso. Mas acho que cada país deve ter os seus a trabalhar para os seus, uma espécie de família grande.

Hoje em dia está-se a perder um bocado essa ideia, infelizmente. E eu acho que é um disparate. Aliás, havia um senhor chamado Veiga Simão, que foi ministro da Educação antes e depois do 25 de Abril, que me dizia uma coisa que eu achei muito bem pensada: “Dr. Gentil Martins, foi uma pena terem destruído Deus, Pátria e Família a seguir ao 25 de Abril. Juntaram-lhe a Liberdade, que era o que achavam que fazia falta, mas estragaram-na, ficaram só com ela e não deu em nada, deu esta miséria em que a gente está”. E atenção que isto foi dito há 40 anos, não foi agora. Agora está pior. Mas isso dava uma outra conversa.

Na sua carreira, quais foram os momentos que mais o marcaram, pela positiva e pela negativa?
Pela negativa, foi uma coisa que fiz mal tinha começado o internato. Estava a trabalhar no agora chamado hospital Curry Cabral, novinho, sem experiência nenhuma e mandaram-me intubar um doente que tinha tétano, porque o doente não se conseguia alimentar, tinha a boca fechada. Então tinha de se meter uma sonda pelo nariz, para ele se conseguir alimentar.

Calmamente, fiz o que me foi dito, fui colocar a sonda, o doente fez um espasmo e morreu. E eu senti-me responsável pela morte do homem, mas eu tinha que meter a sonda, e nunca me passou pela cabeça que ele fosse morrer por causa disso. Mas não há dúvida que foi o reflexo da sonda que o fez ter uma paragem cardíaca. Fiquei sem saber o que havia de fazer, sinceramente.

Imagino que não seja fácil perder um doente.
Depois disso vim aqui ao instituto ter com o meu avô e disse-lhe que estava a pensar desistir de medicina, não me sentia capaz de ver aquilo a acontecer-me de novo. E ele disse-me: “Em medicina não somos infalíveis. Temos é a obrigação de fazermos o melhor que formos capazes. Um azar todos podemos ter, e isso não pode ser razão para abandonares a medicina”. E eu decidi continuar, mas esse foi o pior dia da minha vida, sinceramente, morrer-me um doente nas mãos e não ser capaz de fazer nada; e sentir-me, em parte, responsável, embora não fosse.

E os momentos positivos?
Coisas boas foram fundamentalmente duas. A primeira, que nunca tinha sido feita e nunca mais voltou a ser, foi tirar a pele toda da cara de uma criança que tinha uma doença congénita que causava cancro de pele. Tinha a cara cheia de cancro, não havia qualquer hipótese de estar a tirar dali e de acolá. Cheguei à conclusão de que a única maneira era tirar tudo e foram umas dez horinhas de operação. Usei enxertos de pele. No fundo a pessoa fica a parecer que teve uma queimadura grande na cara, fica com cicatrizes, mas fica com um aspeto aceitável e, claro está, sem o cancro. Esse doente acabou por morrer 30 anos depois, com um cancro na cabeça. A outra coisa boa foi a separação das gémeas siamesas, cuja operação faz agora 40 anos.

As primeiras gémeas separadas em Portugal ao colo da mãe, antes e depois da operação

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Como é que se preparou para essa operação?
Nunca tinha operado nenhum caso assim, a literatura era escassíssima, os vídeos igualmente. Li um livro sobre malformações congénitas, de um senhor francês, que me ensinou o tipo de malformações que podiam aparecer, mas não como se corrigiam. Mas pelo menos descobri como é que elas eram, o que já me permitia pensar um bocadinho sobre o que é que eventualmente podia fazer, que dificuldades podia esperar, embora tivesse de estar preparado para aquelas que podiam surgir.

As gémeas, Tânia e Magda Fernandes, estavam ligadas por que parte do corpo?
Pela barriga, como se fossem o espelho uma da outra; e quando separamos gémeas assim, fica um grande buraco. E como é que se fecha? É que fechar o buraco não é brinquedo. Mais, se fecharmos muito apertado, a circulação do sangue não se faz corretamente e a pessoa pode morrer.

Tudo isso são problemas que temos de tentar resolver. Nesse primeiro caso, demorei dez horas, 12 horas, já nem me lembro muito bem, mas demorei muito, justamente porque sabia que se desse um passo em falso, não podia voltar atrás e tinha de desistir de uma das gémeas. De maneira que foi uma preocupação brutal, tentei estudar muito, fui a Inglaterra de propósito ver filmes sobre siameses — que não serviram para nada. Discuti o caso com os meus colegas e tomei a decisão — e aí sou um bocado mau, mas é verdade, a decisão é minha. Ouço toda a gente, mas quem decide sou eu, é um bocado feitio.

A operação foi um sucesso.
Sim, demorou 12 horas; as outras a seguir, com casos praticamente iguais, demoraram metade do tempo, porque aí já sabia o procedimento, já sabia o que fazer.

A minha grande vantagem é que, enquanto estive em Inglaterra, tive uma preparação muito polivalente, operava ossos, barrigas, fazia plástica, operava tudo. E isso facilitou-me imenso. Para ter uma noção, nos últimos siameses que operei, de Moçambique, demorei cerca de 13 horas e meia na cirurgia. Nos Estados Unidos, tiveram um caso parecido e demoraram 24 horas, porque eram 24 cirurgiões: o cirurgião plástico, o dos rins, o geral, o disto e aquilo, era uma operação muito complexa e envolvia muita coisa. Enquanto eu ia fazendo tudo a eito, eles tinham de fazer a substituição das equipas.

Hoje em dia, mesmo aqui em Portugal, há uma certa tendência para a setorização, quer em adultos, quer em crianças. O que me lembra que também sou conhecido por defender a existência de um hospital pediátrico em Lisboa.

António Gentil Martins em 2000, com os nove siameses que salvou

Imagem do livro "Ser Bom Aluno não Chega"

É algo em que acredita afincadamente?
Sim, claro. Há em Coimbra, independente, no Porto estão a lutar pela existência de um, e em Lisboa querem acabar com o hospital e querem meter tudo no Hospital Oriental, que é aquele que andam a dizer que vão fazer há uma data de tempo. Não tenho nada contra que o cirurgião dos adultos vá ajudar o cirurgião das crianças e vice-versa, há casos excecionais, raros, em que se justifica. A proximidade é útil, a fusão, quanto a mim, não é. E os nossos políticos defendem a fusão que, quanto a eles, é mais barato.

E temos de ter noção que um erro que façamos agora dura 20 gerações, dura 100 anos. O que se fizer agora, certo ou errado, vai durar muitas gerações. Por isso tenham paciência, mas façam a coisa certa. E já agora, não pensemos que somos os únicos inteligentes no mundo, porque todos os países da Europa têm hospitais pediátricos autónomos, independentes. Já temos em Coimbra, não querem em Lisboa porquê? Não faz sentido.

Além disso, são necessárias pessoas que se dediquem exclusivamente às crianças, que dediquem toda a sua experiência a este setor de referência. As coisas complicadas e raras têm de ser concentradas por quem tem experiência, por quem sabe. Um cirurgião de adultos é muito bom, é ótimo, mas não está habituado a lidar com crianças. Lidar com um recém-nascido ou com um adulto de 70 quilos não é a mesma coisa. Há um médico inglês com uma frase célebre: “Tratar um adulto como uma criança não tem problema, mas tratar uma criança como um adulto é trágico”.

Na sua biografia “Ser Bom Aluno não Chega” fala de um caso em que fez tudo por um doente e os pais nunca entenderam, enquanto que continua a receber lembranças no Natal de outros cujos filhos não conseguiu salvar.
Nós não fazemos milagres e há casos, como esse que refiro no livro e que não identifico, difíceis. Essa paciente tinha uma doença generalizada, um tumor por todo o lado, e teve uma série de complicações que não tiveram nada a ver comigo ou com o tratamento, mas sim com a doença em si. Mas aquela mãe nunca percebeu — e tinha obrigação de ter percebido — que realmente a culpa não era dos médicos, era da doença; as complicações que ela teve foram causadas pela doença, não pelo tratamento.

Quando comecei a trabalhar aqui no instituto, de 100 doentes safavam-se 20; agora, é exatamente o contrário, graças a Deus. Há mais medicamentos, há outras coisas. Por exemplo, fui percursor da quimioterapia pré-operatória. Em 1969, toda a gente fazia raios-X aos tumores nos rins, era o protocolo. E eu achava que não, que era melhor fazer injeções de umas drogas, que diminuam o tumor, tornavam a operação mais fácil e, até certo ponto, resultavam melhor. Durante cinco anos, violei o protocolo internacional ao trocar os raios-X pela quimioterapia pré-operatória no tumor do rim. Hoje em dia, é obrigatória.

Patrizia Bréchot. “O cancro mata-nos porque lhe damos tempo para o fazer”

Falando no cuidado das crianças, foi pioneiro em implementar a ideia de que os miúdos devem ser bastante acompanhados pelos pais quando estão no hospital.
Ouça, aqui no Instituto do Cancro, desde que se criou o serviço pediátrico, os pais vão com as crianças até à sala de operações. Nunca consegui isso na Estefânia, onde apesar de ter sido diretor de departamento, nunca mo autorizaram. Aqui no instituto, as crianças são anestesiadas ainda na presença dos pais, já dentro da sala de operações.

Aqui há uns tempos, vi um destaque no jornal sobre os Doutores Palhaços já irem ao corredor da sala de operações, na Estefânia. Quer dizer, só podem estar a brincar! Aqui no instituto não é no corredor, é dentro da sala, até as crianças adormecerem na companhia do pai ou da mãe, que claro que têm de se desinfetar, de se vestir, basicamente, têm de ficar igual aos médicos. Assim que a criança adormece, o adulto sai da sala. E quando a operação termina, a criança tem o pai ou a mãe à espera que ela acorde.

Porque é que esse acompanhamento é tão importante?
Tecnicamente não será, não se corta mais nem menos, mas mentalmente, humanamente, é muito importante. Aqui sempre se fez e desde 1934 que o meu avô já dizia que o doente era o rei; mas parece que só descobriram isso agora. Aqui sempre se atuou dessa forma.

Tem de se fazer uma diferenciação entre o tratamento das crianças e o dos adultos?
Claro, por várias razões. Em primeiro lugar, fisiologicamente tudo é diferente, até a proporção de água no corpo. Psicologicamente também, a maneira de reagir das crianças é diferente e nós temos de nos adaptar a isso. Têm uma vantagem sobre os adultos, são muito mais francas e muito mais diretas.

Eu, por exemplo, fico preocupado quando vejo uma criança triste, porque ela deve ter qualquer coisa, eu é que não sou capaz de perceber. Se está bem-disposta, não tem doença grave nenhuma; se está triste, fico sempre na dúvida.

Outra razão tem a ver com as doenças. A maioria das doenças das crianças não têm nada a ver com as dos adultos. Falando de tumores, nas crianças os tipos de tumores são muito mais variados. Há todo um tipo de patologias que são diferentes na criança e no adulto, a maneira de reagir é diferente, até o nível de soros é diferente.

Expressa no seu livro uma opinião sobre as médias de medicina atuais, considerando-as absurdas. Escreve também que o ingresso nos cursos de medicina deveria ter uma componente prática para avaliar se estes estudantes seriam bons médicos. Qual seria, para si, a forma ideal?
Bom, é extremamente complexo e não há nenhuma solução ideal que possamos afirmar que resolva o problema. E não é exatamente o que você disse, é parecido. Uma pessoa tem de ser um bom aluno, não me interessa que seja genial ou que tenha um prémio Nobel, mas quero que seja um bom médico para o doente.

Claro que tem de ter uma média razoável, um 14 ou um 15, muito embora as notas hoje em dia estejam muito inflacionadas — no meu tempo não era assim, no meu curso acho que só houve um 17 de média, hoje em dia é uma beleza. Para mim, não basta acabar o liceu com uma boa média, a pessoa tem é de ter vocação e gostar de ajudar os outros, até porque eu distingo licenciados em medicina e médicos. Os primeiros são aqueles que têm um canudo, mas não são médicos, não estão dispostos a tratar um doente, a trabalhar depois da hora, passam rapidamente para outro colega. Não é assim, se eu sou médico de um doente, trato-o até ao fim.

Voltando à entrada em medicina, e reforço que é importante que seja bom aluno, o que sugeri é que se fizesse voluntariado social até ao primeiro ano de faculdade. E o fazer voluntariado social — à borla, portanto — demonstrava que aquela pessoa queria ajudar os outros, tinha interesse. Se não fosse capaz de completar este voluntariado, que fosse para engenharia, para direito, para o que quisesse. Se fosse para ir para medicina, tinha de o fazer.

Atenção que já cheguei a escrever para todas as faculdades e universidades de medicina em Portugal, sobre a necessidade de arranjarmos um método diferente para selecionar os candidatos — só me responderam duas das sete faculdades, e uma das três universidades, e apenas para dizer que tinham recebido a minha carta.

Realmente não conheço nenhum método eficaz, mas não me parece que possa ser só a nota, temos de arranjar uma forma de avaliar a pessoa como pessoa.  E sugeri o voluntariado porque não estava a ver outra coisa; se me sugerirem, eu encanto-me.

Acha que há pessoas que se candidatam e querem ser médicos pelo status?
Acho que há dos dois tipos. Não posso provar nem posso dizer quais, mas estou convencido de que há dos dois. Há aqueles que o fazem porque a medicina dá prestígio — já deu mais, hoje em dia a medicina está muito sindicalizada.

Falando dos médicos, uma das suas grandes lutas é a estrutura do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Defende um regime em que devíamos pagar um seguro de saúde obrigatório, de acordo com os rendimentos de cada um, sendo que quem estivesse incapacitado para trabalhar não pagava nada. Seria este o regime ideal?
É muito simples. Cada um pagaria justamente aquilo que pode, para quando ficasse doente não ter de ficar sobrecarregado e desequilibrar o seu orçamento familiar. Por outro lado, e isso é que é sagrado, a pessoa teria liberdade para ir onde quisesse, para escolher o seu médico, mas teriam que existir preços tabelados, como é óbvio. Determinado ato médico, seja consulta, operação, etc., teria um valor considerado justo para aquele ato, seja praticado no privado, no público ou no social.

No sistema que defendo tem que haver um valor para os vários atos médicos. E esse valor depende de uma constante que pode variar consoante os recursos que existam. Por exemplo, as pessoas pagam um milhão, mas o custo é um milhão e duzentos. Então temos de ir buscar 200 a qualquer lado e aquilo que cada cidadão paga tem que aumentar, os tais 20% para chegar ao nível. Se entretanto se chegar à conclusão que o preço é muito exagerado, nessa altura as pessoas deixam de pagar tanto.

Um médico não é estimulado, nem nenhum profissional é estimulado, a trabalhar mais um bocadinho.”

Atenção que estas contribuições seriam independentes do orçamento geral do Estado, se for necessário e se o Estado assim o entender, aqueles que não podem pagar o prémio do seguro porque estão desempregados não têm esse custo, e o Estado assume esse valor. Mas de qualquer modo, a gestão desse serviço de saúde é independente do Estado, dos partidos, do governo. É uma entidade independente, que tem representantes dos trabalhadores da saúde, dos utentes e do próprio Estado, alguém representativo de cada um destes setores.

O importante para mim é o doente poder ir onde quer e não ser como agora, que quem tem dinheiro tem consulta no dia seguinte no privado, quem não tem espera um ano por um consulta no SNS.

Entrevista. “Ter um cancro é melhor do que ter Alzheimer”

Considera então que as filas de espera, sejam para consultas, exames ou operações, são consequência do sistema atual?
Com certeza. Um médico não é estimulado, nem nenhum profissional é estimulado, a trabalhar mais um bocadinho. Estão todos cansadíssimos, e é verdade, porque só um quarto dos médicos é que está nos hospitais do SNS — o resto está tudo a fugir para o privado. E porquê? Porque ganham melhor e têm melhores condições. Tratem melhor os médicos no público e se calhar não os perdem tanto.

Contra o aborto, eutanásia e barrigas de aluguer

Regressando ao tema dos gémeos siameses. Hoje em dia tal já não acontece muito, principalmente em países ditos de primeiro mundo, dado que é recomendada que a gravidez seja interrompida. O doutor é contra essa recomendação?
É um crime total. Posso perceber a interrupção num caso de incompatibilidade com a vida, posso pensar que pode não valer a pena prolongar uma gravidez se a criança está basicamente morta, se vai morrer aquando do nascimento ou morre mesmo dentro da barriga da mãe. Num caso desses, em que a criança não tem solução nenhuma possível, isso não é propriamente um aborto, é o interromper de uma situação que não é viável em si mesma. Agora siameses que podem ser corrigidos, e a maioria podem, acho um crime fazer isso.

Ouça, como é que se concebe dois pais e duas mães?”

É contra o aborto?
Acho o aborto um crime. E mais, não percebo a inteligência das pessoas que não sabem quando é que a vida começa. Desde que há fertilização in vitro, que se pega num bocadinho da mãe, num bocadinho do pai, se juntam os dois, se metem na barriga da senhora e depois nasce uma criancinha, onde é que aquilo começou? Se for ver, o aborto varia de país para país. Então afinal onde é que começa a vida? Só pode ter começado logo no princípio.

Um aborto espontâneo é perfeitamente normal, acontece. Um feto inviável, obviamente não se vai prolongar uma gravidez com um feto morto lá dentro, que disparate! Agora se o feto é viável e há possibilidade de corrigir um defeito… Então se eu verificar numa ecografia que a criança não tem uma mão, não a deixo nascer? Se um adulto tiver um acidente e perder uma mão, pode-se arrumar? Desculpe, mas é uma questão de princípio.

É evidente que me pode dizer “isto é mais fácil, isto é mais desagradável”, é evidente que a gente gosta que seja tudo perfeito, mas até que ponto é que temos o direito de decidir? Há crianças que nascem com uma situação na coluna que causa paralisia dos membros inferiores. Então, não se deixam viver? Tive um paciente, que agora já tem 50 anos, que dizia que queria agradecer aos médicos que o deixaram viver, apesar dos defeitos todos que tinha, visíveis na ecografia. Mas se eu tiver um adulto que tem um acidente grave e fica paralisado, mato-o?

Eu percebo que uma pessoa ideologicamente ou politicamente diga que não se importa de matar um bebé na barriga da mãe, que isso não interessa nada, eu percebo isso, discordo fortemente, mas percebo. Agora em termos de realidade científica, é mentira dizer que a vida ainda não começou nessa fase, isso têm de saber que é mentira e têm de dizer que é mentira. E o que eu não admito é que digam o contrário. Mas temos de dizer o que eles querem; quem diz o contrário é xenófobo, homofóbico, etc.. Ouça, como é que se concebe dois pais e duas mães?

Aluga-se e compra-se uma criancinha como fez o Ronaldo, que é um atleta fantástico, mas depois comprou uma criancinha (…) Não pode ser, os princípios morais estão a desaparecer, parece que já não há moralidade, já não há princípios.”

É, então, contra casais homossexuais terem filhos?
O mundo só existe porque há homens e mulheres. Não são iguais, são complementares. Agora dois homens terem uma criança, um deles não pode ter, tem que alugar uma barriga. Aluga-se e compra-se uma criancinha como fez o Ronaldo, que é um atleta fantástico, mas depois comprou uma criancinha. Quando crescer vai perguntar “a minha mãe, onde é que está?”, e a resposta é que o pai deu 300 mil dólares e pronto. Não pode ser, os princípios morais estão a desaparecer, parece que já não há moralidade, já não há princípios.

Quando eu era pequeno, a palavra de honra era uma coisa a sério, quem dava a palavra de honra não precisava de escrever nada. Agora escreve-se e não interessa. Vocês, muito novas, não percebem isso.

Mas conheço a expressão.
Desculpe, mas não sei como é que você aprendeu isso depois do 25 de Abril. Agora também estão com aquela coisa de que a criança nasce e ainda não sabe se é homem ou mulher. Por amor de Deus, está tudo completamente louco!

A biografia de António Gentil Martins, "Ser Bom Aluno não Chega", foi lançada em 2014

Carla Oliveira

Escreve no livro que também é contra a alteração da designação aborto para interrupção voluntária da gravidez.
Pois, é mais simpático. É como a própria eutanásia, que agora é morte assistida. Veja lá que eu sou tão bonzinho que até o ajudo a morrer.

É contra a eutanásia por considerar que tal vai contra os valores essenciais de um médico?
De um médico e do ser humano, para ser franco. Mas de um médico claro, indiscutivelmente. O mais incrível é que Portugal, como País, foi o primeiro a abolir a pena de morte — antes disso, só um estado norte-americano é que ainda o tinha feito. Mas agora já não nos importamos com isso.

Mas há casos em que se alega que a morte é a maior ajuda que se pode dar a uma pessoa com a morte iminente; mais, o próprio paciente expressa esse desejo.
Mas não precisa do médico para nada, atira-se da ponte abaixo, deixa de comer, faz qualquer coisa. Porque é que me vem pedir a mim para o matar? Era o que faltava. Quer morrer? Então morra, mas não me venha pedir a mim para o matar, porque a minha função é ajudar as pessoas. Peça ao amigo que o mate.

Falámos há pouco da gravidez de substituição, vulgarmente conhecida como “barrigas de aluguer”. Qual é a sua posição quanto a este tema?
Contra. Aliás, há uma entidade chamada Instituto de Apoio à Criança (IAC), de que eu também sou fundador, que acho que tem imenso mérito, mas ainda não teve a coragem de se pronunciar oficialmente sobre isso. E acho que tinham de assumir uma posição, e eu não gosto deste silêncio, porque eles defendem que a criança tem de ter pai e mãe, e eu concordo inteiramente — numa barriga de aluguer a criança não tem mãe.

Uma barriga de aluguer não é mais que egoísmo dos adultos e desrespeito pelos direitos da criança.”

E um casal que não consegue ter filhos biológicos?
Adota uma criança. Porque é que não adota um recém-nascido? Desculpe, isso para mim é egoísmo dos adultos, uma barriga de aluguer não é mais do que egoísmo dos adultos e desrespeito pelos direitos da criança. Há uma situação, que posso tentar perceber mas não aceito, que é a avó que dá o útero para a filha ter um filho do marido. Eu consigo perceber a preocupação dessa pessoa, mas continuo a achar que é egoísmo e que não está a respeitar a natureza em si, continuo a discordar a 100% — mas percebo que exista aí generosidade.

Hoje em dia está provado que se estabelece uma relação entre a criança e a mãe quando está no útero, a criança ouve música, ouve sons, etc., há uma ligação entre elas. É claro que essa mesma relação, depois do nascimento, pode ser destruída a pouco e pouco, mas isso então estão a destruir algo que já existia.

E o que pensa dos métodos contracetivos?
Depende das circunstâncias. Acho que em princípio não é o melhor método — considero o método natural o melhor. Quem não for capaz de o fazer, terá que usar métodos contracetivos e é preferível isso ao aborto. Agora que seja a solução ideal, também acho que não é, mas compreendo que se faça para evitar uma gravidez e, portanto, não matar ninguém.

O método contracetivo é uma questão mais filosófica, depende de como a pessoa interpreta o mundo, se é uma pessoa religiosa ou não, percebo perfeitamente que alguém que não tem conceitos religiosos aceite esses métodos, os valores que essa pessoa tem são diferentes e nós não temos todos os mesmos — e cada um tem direito a ter as suas convicções.

Mas há que ter cuidado com uma questão: é habitual vermos aquela mensagem “faça sexo seguro, use preservativo”. Mas a Organização Mundial da Saúde publicou um trabalho em que afirma que 10% dos preservativos falham. É mais seguro, mas não é seguro na totalidade, não se podem dizer às pessoas aldrabices. Ajuda, mas não é solução. É preciso ter noção que nenhum método contracetivo é infalível.

Apesar dos seu 88 anos, o cirurgião garante que a mão não lhe treme e continua a operar pontualmente

Carla Oliveira

Ainda opera e dá consultas?
Sim, mas só naquilo que sei. Se achar que faço uma coisa corretamente, faço; se tiver dúvidas, não faço. Eu sou cirurgião plástico, mas já não opero o nariz, por exemplo. Já não sou capaz de garantir que fica bonito, já não faço. De uma forma geral, eu não faço seleção. Examino o doente, ouço o doente, se achar que sou capaz de resolver bem o problema, resolvo; se achar que não, mando-o a outro que considero fazer melhor do que eu.

Continua a trabalhar em algum hospital?
Só aqui no IPO, mas não me deixam operar. Têm muito medo que, devido a eu ter 88 anos, aconteça algum acidente (e pode acontecer a qualquer pessoa), e que sejam responsabilizados por me deixarem operar até tão tarde. Dou consultas, mas não opero.

Continuo a ter o meu consultório, mas poucos doentes. O que é curioso é que tenho muitas “segundas opiniões”, os doentes procuram-me para saber se o que eu digo corresponde ao que lhes disseram. Mas depois vão ser operados pelo mais novinho.

E as opiniões são as mesmas?
Correspondem quase sempre. É muito raro discordar com as opiniões. Por vezes há uma diferença nas abordagens, as primeiras propostas são mais exageradas, eu sou mais conservador. Mas, de um modo geral, estou de acordo. Atenção que eu compreendo que prefiram ser operados pelo mais novo, eu próprio, mesmo já com 50 ou 60 anos, pensava que um tipo de 88 estava arrumadinho e não servia para nada, não me metia nas mãos de um tipo com esta idade. Eu percebo, mas graças a Deus estou bem, a mão não me treme, de cabeça também estou bem, por isso, vou aproveitando.