Amália Rodrigues mudou o panorâmica musical português, Paula Rego escreveu o seu nome (e o nosso) na história da pintura mundial, Rosa Mota somou vitórias numa altura em que ainda se dizia que o desporto era coisa de homens. Estas três mulheres mudaram a história de Portugal, cada uma na sua área, mas já muito escreveu sobre elas.

E Antónia Rodrigues, a única cavaleira condecorada do exército português por muitos e muitos séculos? Ou Maria de Lourdes Braga de Sá Teixeira, mais conhecida por Milú, a única mulher em Portugal autorizada a pilotar um avião em duas décadas?

Editado pela Nuvem de Tinta, o livro custa 16,90€

“Portuguesas com M Grande”, de Lúcia Vicente e ilustrações de Cátia Vidinhas, é apresentado esta quinta-feira, 25 de outubro, no Chapitô, em Lisboa. O livro reúne as histórias de mulheres mais ou menos conhecidas que mudaram Portugal e o mundo. No total, são 42 personalidades femininas que não tiveram medo de sonhar.

A MAGG escolheu 6 mulheres menos conhecidas que marcaram para sempre a história de Portugal que estão neste livro, cujos excertos se seguem.

Carolina Beatriz Ângelo

A primeira mulher a votar e a realizar uma cirurgia em Portugal (Guarda, 16 de abril de 1878 — Lisboa, 3 de outubro de 1911)

“O dia tinha finalmente sido anunciado: 28 de maio de 1911. Era a primeira vez que se votava em Portugal, já que, até aí, o país vivera numa monarquia, governado por um rei. Era também inédito, em toda a Europa Ocidental, uma mulher atrever-se a votar. A política era um assunto reservado aos homens.

Carolina sabia que teria de ser mais astuta do que os políticos da sua época. Leu e releu a lei, redigida de fresco e acabada de sair da revolução, e percebeu que não especificava quem podia votar: se só os homens ou se todos os cidadãos portugueses. Ora, ela era uma cidadã portuguesa, e até sabia ler e escrever. Era médica ginecologista e tinha a cargo a sua filha Emília.

Não foi fácil, chegou até a ir a tribunal duas vezes para reivindicar o seu direito de voto, mas arregaçou as mangas e lutou com toda a sua força e inteligência por aquilo em que acreditava. E conseguiu!

No dia marcado, acompanhada por dez companheiras da Associação de Propaganda Feminista que quiseram testemunhar, em primeira mão, o feito, Carolina Beatriz Ângelo foi votar. Aguardava-as uma multidão de curiosos à porta do Clube Estêfânia, de tal forma, que voluntários da polícia decidiram guardar o local. Também os jornalistas não quiseram perder pitada e, às nove da manhã em ponto, já lá estavam, em grande número, a marcar presença. Era um momento único que ninguém queria perder.

Quando Carolina chegou, deparou-se de imediato com a primeira dificuldade: não queriam deixá-la entrar. Só estavam autorizadas pessoas que fossem votar e, para o voluntário que controlava a entrada, era óbvio que uma mulher não podia votar. Estava enganado. Carolina entrou e votou com o número de eleitor 2513, deixando o seu nome para sempre inscrito nos anais da História de Portugal e da Europa Ocidental. Infelizmente, os senhores legisladores da recém-nascida República Portuguesa apressaram-se a mudar a lei e a incluir o género feminino como fator de exclusão ao sufrágio, impedindo assim as mulheres de votar – mesmo num regime democrático. Foram precisos 63 anos e uma revolução para que se declarasse, em Portugal, o sufrágio universal.

A vida de Beatriz Ângelo foi pioneira em várias frentes: integrou o primeiro grupo de mulheres a defender direitos e deveres iguais para homens e mulheres; foi a primeira mulher da Europa Ocidental a votar; foi a primeira mulher a realizar uma cirurgia e foi a primeira feminista portuguesa, e única da sua época, a defender o serviço militar obrigatório para as mulheres.”

Antónia Rodrigues

A única cavaleira condecorada do exército português por muitos e muitos séculos (Aveiro, 1580 — local e data da morte desconhecidos)

“O sal do mar, que a brisa fresca trazia com o embate das ondas na caravela, encarquilhava e magoava-lhe o outrora delicado rosto. Também lhe doíam os braços, as pernas, os dedos e um sem-número de sítios no corpo que nem sabia que existiam. Por vezes, quando se recolhia para dormir no recanto mais escondido da caravela, passava a mão pelo cabelo loiro e respirava fundo, com grande alívio.

Alívio por ter conseguido enganar toda a gente e fugido daquela vida, junto da irmã, que odiava. Se sonhassem que ela era uma rapariga em vez do rapaz que todos a criam, estaria metida num grande sarilho. Ainda bem que só tinha 12 anos e que as suas formas femininas ainda não tinham desabrochado. As mulheres não se metiam em caravelas nem usavam o cabelo curto. Tão-pouco sonhavam ser marinheiras. Se não fossem as brincadeiras no barco do pai, teria tido muita dificuldade em realizar todas as tarefas de grumete que o mestre da caravela lhe atribuía.

Antónia mal sonhava com as aventuras que a esperavam quando atracasse em Mazagão, no Norte de África. Ao chegar, alistou-se no exército português como soldado. Aprendeu a manejar a espada de forma exímia e a sua enorme coragem deu-lhe honras como o oficial-cavaleiro. Antónia só não contou com as armadilhas do destino. Alguns anos após pisar terras africanas, e pelos feitos extraordinários que alcançou como António, «o terror dos mouros», as donzelas fidalgas daquela praça em Marrocos caíram de amores por ela. E Antónia apaixonou-se por um companheiro de armas.

Não conseguindo mais viver a sua mentira, cinco anos depois volta a partir, rumo a Lisboa, de mãos dadas com o seu ex-colega de armas, agora seu marido. Antónia enfrenta, de cabeça erguida e coração cheio, as armadilhas do amor tal como enfrentara os mouros: conta a sua mentira ao provisor do Eclesiástico, a pessoa encarregue das leis do reino d’Álem-Mar, para poder casar-se e viver uma vida feliz no reino de Portugal e dos Algarves.

Enquanto sentia o sal picar-lhe o rosto, Antónia não podia imaginar que, um dia, El-Rei a receberia com tantas honrarias e até lhe atribuiria uma tença vitalícia.

Antónia sabia-se uma mulher diferente, no entanto, no dia em que cortou o cabelo loiro que lhe emoldurava o rosto e vestiu as roupas de marinheiro, não sonhava que viria a ser a única cavaleira condecorada do exército português por muitos e muitos séculos. Foi preciso enganar meio mundo para conquistar o seu.”

Ana de Castro Osório

A mulher que impulsiona a literatura infantil em Portugal e a sufragista mais conhecida da primeira vaga de feministas portuguesas (Mangualde, 18 de junho de 1872 — Setúbal, 23 de março de 1935)

“– Há muito, muito tempo… Assim começavam muitos dos contos que Ana ouvia, atenta, da boca do pastor e da rendeira da sua aldeia. Estas histórias maravilhosas, cheias de lições de moral e seres lendários, viviam isoladas na memória de pais e mães que as recitavam de cor, na calada da noite, para adormecer as crianças. Diligentemente, entre 1897 e 1935, Ana foi publicando estes contos em pequenos folhetins que acompanhavam jornais, com o título “Para as Crianças”.

Fizeram tanto sucesso que, mais tarde, foram compilados e editados em 18 volumes, transferindo eternamente, da boca para os olhos, os contos tradicionais portugueses. Assim nascia a literatura infantil em Portugal, uma paixão que a acompanharia a vida inteira e que a levou, inclusivamente, a publicar vários contos e peças de teatro infantis da sua autoria.

Ana de Castro Osório foi uma das primeiras cronistas portuguesas a publicar a sua opinião, sempre muito ligada às causas sociais, em jornais. Em 1905, publicou Às Mulheres Portuguesas, o primeiro manifesto feminista português, que vem cimentar os ideais e as aspirações das sufragistas do nosso país.

Nele, Ana fala abertamente da situação da mulher portuguesa do início do século e defende o salário igualitário para homens e mulheres e apela a que as mulheres não façam do amor a única razão para a sua existência, antes que se iluminem através do estudo e da autossuficiência. Além de ter fundado cinco associações e agremiações feministas, auxiliou o ministro da Justiça Afonso Costa, em novembro de 1910, a elaborar a lei do divórcio, onde homens e mulheres passam a ter o mesmo direito legal sobre as razões para o término do casamento e sobre a guarda dos filhos. É com esta lei que, finalmente, a mulher deixa de ser obrigada a prestar obediência ao marido.

Ana de Castro Osório é a sufragista mais conhecida do público em geral (uma espécie de Emmeline Pankhurst portuguesa), da primeira vaga de feministas portuguesas, e uma das que mais contribuiu para mudar mentalidades e alcançar as reivindicações femininas da sua época.

Em 2013, foi criada, em Lisboa, a Biblioteca Ana de Castro Osório, que se dedica exclusivamente a reunir livros de todo o género de literatura publicada por mulheres portuguesas e documentação sobre igualdade de género. Porque não passas por lá para veres, ao vivo e a preto e branco, a fotografia da Ana?”

Matilde Simon Rachel Bensaúde

Fitopatologista, investigadora, diretora da Inspeção dos Serviços Fitopatológicos (Lisboa, 23 de janeiro de 1890 — Lisboa, 22 de novembro de 1969)

“Foi quando uma borboleta, que antes fora um bichinho-da-seda, pousou na sua mão, que Matilde se encantou pelas esplendorosas transformações dos insetos. Como é que aquela lagarta, que devorava folhas inteiras de amoreira, se transformava naquela borboleta, tão alva, tão branca? Passou a observar as plantas e os insetos e, nos seus olhos, começaram a surgir interrogações: como é que as plantas se reproduziam? Porque é que adoeciam? Porque é que os insetos e as pragas tinham a capacidade de destruir culturas inteiras?

Para responder a estas e a tantas outras perguntas que a acompanharam enquanto crescia, decidiu ir para a universidade. Escolheu ir estudar para Paris, onde levavam as mulheres mais a sério, e aí se licenciou em Ciências Naturais, em 1916.

Contudo, nem todas as dúvidas de Matilde ficaram esclarecidas, por isso, continuou a estudar e fez um doutoramento e tornou-se a primeira investigadora bióloga de nacionalidade portuguesa. Na verdade, foi a primeira pessoa na Europa a publicar um estudo científico sobre heterotalismo, que é o estudo biológico da sexualidade e reprodução entre os fungos e as algas. Em 1920, foi a única mulher a participar na fundação da Sociedade Portuguesa de Biologia, ainda que passasse a maior parte do tempo nos Estados Unidos, a fazer a especialização em fitopatologia, que escolheu por querer encontrar soluções para as doenças das plantas. Uma das suas paixões foi a biodiversidade do nosso país. Estudou-a a fundo, bem como a forma de controlar as pragas que assolavam Portugal. Nos Açores, por exemplo, encarregou-se de montar um sistema de assistência topatológica aos cultivadores de ananás.

Talvez inspirada pela sua mãe, Jeanne Eleanore Oulman, autora de livros infantis, Matilde quase publicou um livro sobre biologia para crianças: uma obrazinha cheia de poesia da natureza, em parceria com o seu querido amigo Afonso Lopes Vieira. Ele queria que se chamasse Flores do Mar, ela, por teimosia científica, queria que fosse Mar Piqueno. Durante a primavera de 1915, sentaram-se a discutir parágrafos à sombra do seu guarda-sol azul. No entanto, este livro nunca viu a luz do dia, tendo-se perdido algures no tempo.

Matilde foi uma mulher extraordinariamente progressista para o seu tempo. Uma exploradora que não se deixou assustar pelo facto de uma mulher não ser presença habitual num laboratório, muito menos em biologia.

Morreu convicta de que tinha mudado um bocadinho o mundo. E mudou!”

Maria de Lourdes Braga de Sá Teixeira

Aviadora, símbolo feminista, sonhadora intrépida (Lisboa, 19 de outubro de 1907 — Lisboa, 19 de julho de 1984)

“Desde a discussão que tivera com o pai que Milú – assim era carinhosamente tratada – não saía da cama, nem tinha vontade de comer. Implorou-lhe para que a deixasse tirar o brevet de piloto, mas ele recusou terminantemente. O cockpit de um avião não era lugar para uma rapariga com o seu estatuto social, dizia-lhe. Teimosa e em lágrimas, já fraca, Milú gritava do seu quarto:

– Não quero comer. E daqui não saio, paizinho. Daqui, só para o aeródromo! O seu pai era médico militar e, ao vê-la definhar, sem qualquer vontade de viver, acabou por aceder ao seu pedido, mas não sem ter de mexer uns cordelinhos para que ela pudesse realizar o seu sonho e aprender a pilotar aviões. Em 1928, não existiam escolas de aviação civil, por isso foi necessário encontrar-lhe um instrutor no seio dos militares.

Quando a notícia se espalhou pelas manchetes dos jornais, Adelaide Cabete e o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas ficaram tão entusiasmadas, que decidiram organizar uma angariação de fundos para comprar um avião para a Milú. Queriam que Portugal passasse a ter uma representante feminina a cruzar os céus, como, de resto, já acontecia nos países civilizados pela Europa fora. Milú passou a ser um ícone feminista, uma prova viva da capacidade intelectual e física das mulheres para atingirem os mesmos feitos que os homens.

Para Milú, a aviação era a sua profissão, mas, devido à ausência de aviação civil, chamaram «desporto» à sua escolha. Apesar disso, a sua intrepidez e força de vontade inauguraram uma inovadora discussão nos jornais da época, onde se questionava a renitência das mulheres por atividades físicas em geral. Ao que parece, no final dos anos 1920, em Portugal, as mulheres não eram muito dadas ao desporto e apenas praticavam hipismo, ténis, natação ou ciclismo, deixando as demais opções entregues, em exclusivo, ao suor masculino.

Durante quase duas décadas, Milú foi a única mulher em Portugal autorizada a pilotar um avião, e foi preciso esperar mais 19 anos para que uma outra mulher, Maria Ghira, obtivesse, oficialmente, as asas de piloto civil. Mais impressionante do que imaginar as piruetas que Milú desenhou, rasgando nuvens com o seu avião Caudron G3, a 6 de dezembro de 1928, é saber que só em 1994, 65 anos depois, foram atribuídas as primeiras asas de piloto militar a uma mulher em Portugal — Paula Costa.”

Isabel Rilvas

Piloto acrobata, visionária, impulsionadora das Enfermeiras Paraquedistas (Lisboa, 8 de janeiro de 1935 —)

“Desde muito nova que Isabel se revelou uma visionária de uma bravura e empreendedorismo raramente vistos numa mulher da sua época. Quando se deitava nos prados verdes, olhando as nuvens, esticava os braços para cima e sonhava tocar-lhes com a pontinha dos dedos.

Intrépida e determinada, logo aos 18 anos viu, de facto, as nuvens dançarem-lhe sobre o seu capacete de primeira mulher-piloto acrobata, primeira mulher paraquedista civil e primeira piloto (entre homens e mulheres) de balões de ar quente da Península Ibérica.

Um dia, quando estava em França para assistir a um festival de acrobacias aéreas, conhece Jaqueline Perney, uma paraquedista francesa que a alicia a experimentar a modalidade. Além disso, sugere-lhe também que crie uma força militar especial de enfermeiras paraquedistas, como as que havia na Cruz Vermelha Francesa, que ajudavam a salvar a vida dos soldados em cenário de guerra. Isabel não descansou enquanto não se tornou paraquedista e conseguiu autorização do subsecretário de Estado da Aeronáutica, o tenente-coronel Kaúlza de Arriaga, e do próprio António de Oliveira Salazar, para criar esta nova força militar feminina que iria dar um enorme salto para a igualdade de género no seio das Forças Armadas portuguesas.

Em 1956, Isabel foi para França obter o brevet de paraquedista, fazendo logo de seguida um curso que a certificou como instrutora paraquedista. Estava pronta para formar as enfermeiras paraquedistas portuguesas.

As Seis Marias, assim ficaram conhecidas as primeiras seis enfermeiras paraquedistas, de um total de 46, chegam a Luanda a 12 de outubro de 1961. Têm pela frente um trabalho perigosíssimo, muitas vezes quase suicida, mas que muito ajudou os soldados destacados para este conflito infame e devastador para tantas famílias portuguesas que ficou conhecido como Guerra Colonial.

Os seus feitos são reconhecidos mundialmente, estando o seu nome inscrito na parede «Wall of Wings» do museu The Ninety-Nines, Associação Internacional de Mulheres Piloto na cidade de Oklahoma, nos Estados Unidos da América, desde junho de 2000. Esta associação foi criada pela primeira aviadora transatlântica, a lendária Amelia Earhart.

Também por cá lhe reconheceram os serviços em prol do desenvolvimento da aeronáutica e Isabel foi condecorada pela Força Aérea Portuguesa, em fevereiro de 2014, com a Medalha de Mérito Aeronáutico de 1.ª classe.