Desde os 18 anos que Kali Kushner sofre de acne. Não se trata de apenas uma borbulhinha ou ponto negro, a jovem norte-americana tem o rosto coberto de cicatrizes, marcas, pontos brancos e vermelhos. Em vez de esconder o problema com camadas e camadas de base, a jovem de 22 anos decidiu expor tudo.

Foi assim que nasceu a página de Instagram My Face Story. Sem medo ou vergonha, Kali Kushner partilha fotografias do antes e do depois que revelam a sua luta contra o acne.

“Honestamente, não comecei a conta com o objetivo de ficar conhecida”, disse à revista “Marie Claire” em outubro do ano passado. “Eu só queria registar o meu progresso, uma vez que tinha começado uma prescrição de Isotretinoína [fármaco utilizado no tratamento do acne]”.

Neste momento, com mais de 50 mil seguidores, Kali Kushner tornou-se de facto conhecida. Tanto que chega a receber 50 mensagens por dia de pessoas que querem partilhar a sua história ou pedir conselhos. Quanto ao acne, apesar de o problema estar muito mais controlado, está lá. A 24 de agosto, depois de acordar de manhã com quatro novas borbulhas, Kushner gravou um vídeo a ter um pequeno ataque de nervos.

Nojenta, feia, horrível. “Nem consigo olhar para ela”

Kali Kushner está longe de estar sozinha. Segundo dados da Academia Americana de Dermatologia, 33,7% das pessoas entre os 0 e os 17 anos sofrem de acne. Parece muito? Entre os 18 e os 44 anos, esse número sobe para os 53,8%. Portanto, não podemos continuar a associar borbulhas e pontos negros a adolescentes — os adultos também têm acne mas já não querem escondê-lo com vergonha.

É um verdadeiro movimento de aceitação aquele que começa a encher as redes sociais e não só. Depois da luta para aceitar pessoas de todos os tamanhos, etnias e orientações sexuais, agora a guerra virou-se para a acne.

Há quem diga que tudo se iniciou em 2015, quando a britânica Em Ford, autora do blogue My Pale Skin, publicou no YouTube o vídeo “You look disgusting”. Uns meses antes, a jovem começara a publicar fotografias sem maquilhagem, e recebeu mais de 100 mil comentários sobre o seu rosto. Muitos eram negativos: “Nem consigo olhar para ela”, “o que raio se passa com a cara dela”, “a cara dela é tão feia”. “Nojenta”, “horrível”. “Pareces nojenta”.

Como os bloggers e influenciadoras digitais estão a contribuir para este movimento

O vídeo tem quase 30 milhões de visualizações e popularizou a #youlookdisgusting. Desde então, outros bloggers e influenciadoras digitas seguiram o movimento — foi o caso da instagrammer Hailey Wait e da blogger britânica Kadeeja Khan. Por cá, Mafalda Sampaio, autora do blogue A Maria Vaidosa, também abordou o assunto. Em fevereiro de 2016, a youtuber apareceu sem maquilhagem e com borbulhas no rosto para mostrar a sua rotina de maquilhagem.

“Sempre tive pele oleosa durante a adolescência”, conta à MAGG. “Nunca tive muita acne mas as chamadas ‘borbulhas’ começaram a fazer parte da minha vida a partir dos 17 anos. Aos 25 anos tive acne adulto que apareceu agressivamente!”.

Para a jovem de 27 anos, fazia todo o sentido partilhar com os seus seguidores esta fase. Até porque é relevante falar abertamente sobre esta questão: “Acho que é super importante, não só sobre a acne mas sobre todos os temas que nos deixam mais inseguras. Não esconder e mostrar sempre a realidade. As redes sociais estão carregadas de Photoshop e lifestyles que não são reais. Um pouco de realidade pode fazer a diferença na auto-estima e confiança de quem nos segue.”

Kendall Jenner tem acne e cicatrizes. E depois?

Em janeiro, durante os Globos de Ouro, Kendall Jenner deu que falar ao aparecer com a cara cheia de acne, bem visível apesar da maquilhagem. A modelo mais bem paga do mundo foi arrasada nas redes sociais, onde não faltaram comentários cruéis sobre a sua aparência. Até que apareceu uma fã a defendê-la.

“Ok, mas o facto de a Kendall Jenner aparecer e mostrar assim o seu acne enquanto parece uma estrela deslumbrante é o que todas as raparigas precisam de entender”, escreveu. A irmã de Kim Kardashian respondeu e disse: “Nunca deixes que isso te impeça de nada!”. A mensagem positiva espalhou-se, e a partir daí não faltaram comentários de apoio.

Kendall Jenner não é caso único. Emma Stone sofreu de acne “debilitante e embaraçoso”, confessou à “Refinery29“, e teve de tomar Isotretinoína. Tinha 17 anos. Aos 20 anos voltou a sofrer deste problema, desta vez relacionado com o stresse. Acabou por passar, mas a atriz continua bastante sensível ao tema.

Acne na idade adulta: é real, está a aumentar e é pior nas mulheres

Outras celebridades falaram recentemente sobre o assunto. Em março, Justin Bieber fez um InstaStories a exibir sem vergonha as suas borbulhas na testa.

Justin Bieber fez um InstaStories a mostrar as suas borbulhas

Também através dos InstaStories, a cantora Lorde contou em fevereiro que sofreu com acne durante vários anos.

“A acne é uma porcaria. E sabem o que é que é mesmo uma porcaria?”, perguntou, antes de começar a gozar com todos os comentários e dicas que lhe deram. “Faz uma máscara de mel, iogurte grego e abacate. Tudo o que precisas é de comprar um esfoliante de damasco. Ódio de coco, o segredo é óleo de coco”.

Claro que não ficava por aqui. Se havia quem desse sugestões, havia também quem colocasse perguntas: “‘Lavas a cara?’. Tipo, sim, eu lavo a minha cara, sou simplesmente amaldiçoada geneticamente”.

Como a indústria da moda começa a mudar e os Acne Awards da “Teen Vogue”

Foi em 2016 que Moto Guo apresentou uma coleção de camisas decoradas, calções largos e bordados florais. Nada de especial até aqui, certo? Certo. A particularidade foi que os modelos desfilaram com a pele vermelha e cheia de acne. O episódio aconteceu durante a Semana da Moda de Milão e tinha como objetivo celebrar a acne.

9 fotos

No ano passado, a revista “Teen Vogue” lançou os Acne Awards, um prémio que tem como objetivo eleger os melhores produtos para a acne. Com base na opinião de um painel de especialistas, este ano voltaram a escolher os 62 melhores produtos. De acordo com a “Teen Vogue”, os prémios não se tratam apenas de promover produtos, mas sim de pôr a comunidade a falar sobre o assunto — e, claro, a encontrar respostas para o problema.