A Netflix está novamente debaixo de fogo e desta vez é outra série juvenil, que não “Por Treze Razões”, a responsável. Chama-se “Insatiable” e apesar de só ter estreia marcada para 10 de agosto na plataforma de streaming, mais de 160 mil pessoas já assinaram uma petição para que seja cancelada. A série é acusada de “fat shaming” — fazer troça ou ridicularizar pessoas que sofram de excesso de peso.

A nova série, que se assume como uma comédia negra, dá a conhecer a história de Patty (Debby Ryan), uma adolescente norte-americana com excesso de peso que é diariamente vítima de bullying por parte dos colegas da escola. Entre comentários como “cheira a bacon”, cada vez que Patty passa pelos corredores da escola, ou cartazes da cara da personagem colada ao corpo de um porco, todas as armas são válidas para a atacar.

Tudo muda, porém, quando Patty leva um murro e tem de estar durante vários meses com o maxilar preso e com uma alimentação à base de líquidos. É quando finalmente regressa à escola que surge totalmente diferente — muito mais magra e bonita. Depressa se torna no centro das atenções e faz uso desse poder para se vingar dos colegas que a excluíram e maltrataram durante anos.

Assim que o trailer foi lançado, a indignação foi geral pela forma como se utilizava um tema tão sensível de uma forma tão leviana. Uma utilizadora decidiu lutar contra o preconceito e criou uma petição na plataforma “Change” a incentivar ao boicote de uma série que, na sua opinião, era discriminatória.

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“Durante demasiado tempo as várias narrativas disseram às mulheres e a jovens facilmente impressionáveis, que para serem populares, terem amigos ou serem atraentes ao olhar masculino, tinham de ser magras”, lê-se no texto da petição. “Esta série tem de ser cancelada. As consequências que teremos de enfrentar serão muito maiores e sinistras para jovens adolescentes do que para a Netflix que só terá de lidar com a falta de lucro.”

Mas a utilizadora não se fica por aqui, e defende mesmo que caso a plataforma de streaming siga em frente com a estreia, irá estar a compactuar com a objetificação dos corpos das mulheres e terá de carregar na consciência o peso de influenciar cada vez mais jovens a práticas que depois podem conduzir a distúrbios alimentares.

A Netflix ainda não reagiu de forma oficial mas especula-se que esteja para breve. É que a petição tinha como objetivo chegar às 150 mil assinaturas mas em apenas três dias conta já com mais de 169 mil apoiantes que na página oficial da petição vão deixando palavras de apoio e de ordem contra aquilo que consideram ser uma sociedade cada vez mais discriminatória e fútil.

Debby Ryan, a atriz principal, já defendeu a série através da sua conta oficial do Twitter, e diz que as pessoas estão a interpretar de forma errada o propósito de “Insatiable”. É que, continua, esta é uma série que pretende abordar e confrontar este tipo de ideias erradas através da sátira.

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“A sátira é uma forma de utilizar o humor para lidar com situações mais difíceis, é quase uma forma de iluminar a escuridão e iniciar conversas complicadas.”

Também Alyssa Milano (“As Feiticeiras”), uma das atrizes da série, serviu-se do Twitter para reagir à polémica e afirmou que o objetivo desta nova produção nunca foi humilhar Patty ou aquilo que a personagem representava, mas sim abordar — através da comédia —, os problemas que diariamente são causados por esta cultura de humilhação e policiamento do corpo alheio.

Apesar de tudo isto, o mais provável é que a Netflix não adie, nem cancele, a estreia da série que é composta por nomes como Dallas Roberts (“O Comboio das 3 e 10”), Daniel Kang (“Caixa de Doces”) e James Lastovic (“Days of Our Lives”).