5 coisas que não deve (mesmo) dizer a uma nova mãe

Do clássico "quando vem o próximo?" a "dás mama?", são muitas as perguntas que deve guardar para si. Estas foram as que mais me irritaram.

Há frases proibidas de dizer a uma mulher que acabou de ser mãe

Katie Emslie / Unsplash

Há qualquer coisa que acontece às pessoas quando falam com grávidas ou novas mães sobre o tema filhos, parto, amamentação, etc. Não sei se a barriga ou o recém-nascido presente no cenário faz com os filtros habituais de uma conversa caiam por terra, mas a verdade é que as regras de educação que, normalmente, ditam um diálogo, são imediatamente abandonadas neste tipo de situações.

Atenção que qualquer um pode ser alvo desta epidemia, e eu não sou exceção. Lembro-me perfeitamente de há uns dois anos, na época do Natal, encontrar um casal que andou comigo na faculdade num centro comercial, em compras de última hora. Perguntei logo à minha antiga colega, grávida na época, de quantos meses estava. Confesso que não me lembro ao certo da resposta mas o meu cérebro, claramente afetado por tanta luz natalícia, achou que o ideal era corresponder com algo como: “A sério? Mas são gémeos?”. Sim, eu sei. Tudo o que uma mulher a gerar um ser vivo precisa de ouvir, certo? Muita vergonha pela minha pessoa.

Mas é provavelmente devido a já ter estado dos dois lados desta barricada que pretendo, com esta crónica, impedir mais pessoas de serem desagradáveis (mesmo que sem qualquer intenção) ao ponto da grávida/mãe lhes querer arrancar os olhos. Ora então vejamos: para começar, 95% das pessoas, quando encontra uma mulher numa destas duas situações, não tem outro tema que não seja o bebé ou a gestação. É claro que é a mudança mais visível e importante na vida daquela pessoa no presente, mas após as questões habituais, acreditem que muitas mulheres estão mais que preparadas para discutir outro assunto que não envolva ecografias ou fraldas. Já basta termos perdido o direito ao nome e sermos agora, apenas e só, a “mãe”.

O cenário piora depois de a criança nascer. Não sei se o défice de sono poderá ter algo a ver com isto mas a paciência fica ainda mais reduzida depois do parto. Fui mãe há pouco mais de um ano, em abril do ano passado, e só queria ter um pequeno caderno para apontar as frases mais descabidas que ouvi nas semanas a seguir à minha filha nascer, frases essas que testaram a minha paciência até ao limite — e depois de uma breve pesquisa, descobri que não são propriamente originais, sendo muitas as recentes mães que passam por este flagelo. Caso se identifique com este cenário ou apenas queira descobrir o que não deve, de todo, dizer a uma mulher neste cenário, não pare de ler:

“Dás mama?”

Isto é um clássico, meus amigos, um clássico. E não, não são apenas os amigos mais chegados ou familiares que se acham no direito (que não têm, já agora) de perguntar algo relacionado com uma parte tão intima do corpo feminino — os estranhos também. A amamentação foi um filme para mim, daí admitir que era também o tema que mais me deixava com os nervos em franja.

Mas não vos consigo dizer as inúmeras vezes que tive de responder à questão e, pior, sentia-me sempre na obrigação de oferecer uma justificação para a resposta negativa que oferecia (dei de mamar à minha filha durante cerca de mês e meio), para garantir que não me achavam egoísta ou má mãe. Eu culpo as hormonas, dado que, hoje em dia, a minha postura seria completamente diferente.

A gota de água chegou quando fui com a minha filha à empresa do pai dela, que a queria mostrar às colegas. Uma dessas senhoras, que nunca me tinha visto mais gorda (literalmente), resolveu lançar a bomba cinco segundos depois de se apresentar. Até hoje me lembro das palavras “dá peito?”. Fingi que não percebi, a senhora resolveu repetir e levou com o não mais bruto que tenho memória de ter proferido. Foi remédio santo e, a partir desse dia, nunca mais me senti mal ou na obrigação de ter de justificar a minha decisão.

“Qual é a sensação de ser mãe?”

Outra pérola, meus caros. Não posso falar por todas as mães do mundo mas, no meu caso, e depois de 26 horas de trabalho de parto, a única coisa que eu queria era dormir. Dormir e beber água. E verdade seja dita que tinha a sensação de ter passado por uma maratona, que já tinha cruzado a meta e o meu trabalho estava feito. Claro que eu mal sabia que tinha acabado de começar mas a epidural ainda fazia efeito e confesso que estava um bocado aérea, sem perceber nada do que se estava a passar. Ok, sabia que estava ali uma bebé, que era minha, que tinha de a acordar de três em três horas para lhe mudar a fralda e lhe dar de comer mas (julgava eu), acabavam aqui as minhas competências.

Porém, isso não impediu várias pessoas de me questionarem, menos de 48 horas depois do parto, sobre o sentido desta missão. Ou trocando por miúdos, de me perguntarem “como é ser mãe?”, sendo que alguns elementos do sexo feminino ainda conseguiam completar com um “é maravilhoso, não é?”. A verdade era algo como: “Não, na verdade é um pouco aborrecido, estou enfiada neste hospital desde sexta e hoje já é segunda, não durmo, estou a morrer de dores nos pontos, não consigo andar direita, ela não faz nada de especial e ainda conseguiram servir-me borrego no almoço de domingo. Quero ir para casa e dormir descansada”. Mas optei sempre por algo mais consensual, como dizer que era tudo lindo e fantástico.

“O teu marido ajuda-te tanto, que sorte”

Tem de existir aqui um disclaimer: sim, o pai da Carmo, o meu namorado, é uma dádiva dos céus e o melhor pai do mundo — e eu tenho, obviamente, sorte. Muito antes da minha gravidez eu já sabia que ele ia ser um pai fantástico, presente e nunca esperou que eu assumisse sozinha os desafios da maternidade. Mas irritava-me imenso o tom com que esta frase me era dita, quase como que se em entrelinhas me quisessem fazer sentir mal por eu ter ajuda e elas (dado que esta frase era sempre dita por outras mulheres) fossem uma espécie de super-mulheres que faziam tudo sozinhas, que nem tempo tinham para tomar um banho.

Atenção, também já tive amigas que me disseram exatamente a mesma frase e que eu não levei a mal, dado que era possível perceber que o diziam quase em desabafo por não terem o mesmo auxílio. Portanto aqui, mais do que a frase, é o tom. Cuidado com o tom e com as mensagens implícitas.

“Isto passa num instante, devias aproveitar todos os momentos”

Outro cliché, que embora seja verdadeiro, pode criar muito incómodo em quem o ouve. Que as crianças crescem como cogumelos nós já sabemos, e também é verdade que na fase dos 12 meses evoluem muito depressa e quase temos a sensação que estão a fazer coisas novas todos os dias.

Principalmente nos primeiros meses, só choram, comem e dormem, é um bocadinho sempre a mesma coisa. É claro que também eu parei várias vezes simplesmente a olhar para a minha filha, embevecida que só eu, enquanto ela não fazia absolutamente nada a não ser focar a parede. E foi também por isso que, uns dois meses após ela nascer, me senti no direito de sair à noite com o meu namorado e amigos, enquanto ela ficou com os meus pais (a dormir, lá está). Mas não me livrei de ouvir, dias depois, comentários como “deixaste-a tão pequenina, como conseguiste?”.

“Então e o próximo? Não me digas que a bebé vai ser filha única.”

Ainda eu tinha de fazer sacos de gelo para me aliviar do incómodo causado pelos pontos (um pouco gráfico mas é para perceberem o timming da coisa), já me andavam a perguntar se eu não queria ter mais filhos. E esta é aquela pergunta clássica que fazem a todos os pais, independentemente do parto ter sido há pouco mais de uma semana.

Não faço ideia se é curiosidade, falta de tema de conversa ou apenas ausência de tato mas, mais uma vez, há questões que não devem ser feitas em alguns momentos. E o pós-parto, com todas as hormonas à mistura, não é, claramente, um desses momentos.

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