Pode uma mulher exigir ao marido que lhe pague se ele quiser ter sexo com ela?

“Não”, diz o ministro da Ética e da Integridade do Uganda, o reverendo Simon Lokodo: “Ter sexo com a mulher é um direito do homem”. O governante, citado pelo jornal nigeriano “Pulse”, argumenta que “negar sexo a um marido é injusto. Porque é que as mulheres terão que cobrar pelo sexo para ter benefícios económicos? Essa prática mostra como a moral tem descido tanto”.

“Sim”, diz Tina Musuya, diretora executiva do Centro de Prevenção da Violência Doméstica no mesmo país. A ativista pelos direitos das mulheres sustenta, em declarações à revista digital norte-americana “OZY” :  “Se os homens são irresponsáveis e se é a única maneira de as mulheres conseguirem ter dinheiro deles para gerir a casa, então deixem-nas taxar o sexo. Injusto é pensar que uma mulher pode gostar de ter sexo com o marido que não paga as contas”.

A verdade é que 31.000 mulheres ugandesas viram na “taxa do sexo” uma solução para um problema que as atinge: o de os maridos serem preguiçosos, não trabalharem ou então gastarem tudo o que ganham em álcool e com outras mulheres sem contribuírem para as despesas da casa e da família.

Tudo terá começado na capital, em Kampala, em 2015, quando cerca de 150 mulheres exigiram dinheiro — cerca de 5€ — para terem relações sexuais com os maridos. O número cresceu para 5.000 em 2016 e tornou-se numa estratégia que está a alastrar e a dividir o país. Se as mulheres e as organizações de direitos humanos a defendem, o mesmo não se pode dizer dos ministros e dos líderes religiosos que a consideram “imoral” e “nada religiosa”.

Só que o gesto parece estar a contribuir para o aumento da violência doméstica, galopante no Uganda, tendo já havido registo de mortes. Os homens que não querem pagar para ter sexo com as mulheres, simplesmente as espancam. Foi o que aconteceu com Philipe Byabasaija, empregado de loja, citado pela OZY: “Isso é estúpido. Como é que a minha mulher me pode exigir dinheiro?” Quando a mulher o fez, ele bateu-lhe e ela desistiu da ideia.

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Outros homens tiveram atitudes diferentes, não só pagando como aceitando partilhar tarefas domésticas. O marido de Beatrice Atim, vendedora no mercado, que saía para o trabalho sem lhe deixar dinheiro para as despesas, aceitou pagar-lhe 10.000 shillings (2,21€) para ter sexo com ela. “Ele não discute porque sabe que o dinheiro é para ser usado na casa”, diz Beatrice.

Já a professora de 34 anos, Annet Nanozi, zangada com o marido, um mecânico de automóveis que deixara de pagar a comida da família e gastava o salário em álcool e a dormir com empregadas de bar decidiu seguir o mesmo caminho. Agora o marido dá-lhe dinheiro se quer ter relações sexuais com ela.

Thomas Owori, taxista, seguiu um processo mais lento. Primeiro recusou-se a pagar à mulher e até a esbofeteou quando ela o exigiu. Mas aos poucos acabou por entender as razões dela e cedeu. Agora, paga-lhe 20.000 shillings (4,42€) sempre que quer ter sexo com ela.