Crónica. Fecharam a Pastelaria Suíça? E agora onde é que bebo um café e uma água por 4 euros e tal?

As despesas dos locais históricos não se pagam sozinhas. Mas muitos donos esquecem-se de algo essencial ao negócio: cuidar dos clientes.

É sempre isto quando fecha um sítio com História no centro de Lisboa. É a cidade que está à venda, são os bandidos dos turistas que estão a estragar isto tudo, são os desgraçados dos pequenos comerciantes que são expulsos das suas casas carismáticas, esmagados pelos terríveis capitalistas do imobiliário e do turismo. É a ladainha das redes sociais, semana sim, semana sim. Esta cantiga é entoada quase sempre por quem que não levanta o rabo do sofá de casa para ir a uma destas casas históricas vai para 20 anos, que não janta nos restaurantes emblemáticos desde os anos 90, e que nunca fez uma compra numa daquelas retrosarias da Baixa que toda a gente adora adorar, e toda a gente defende que deviam ser eternas porque são a alma de Lisboa.

Vamos lá à Suíça, então. Não sou cliente habitual da Pastelaria Suíça, mas já lá fui vezes suficientes para ter a minha opinião. E a minha opinião é simples e fácil de entender: aquilo é uma porcaria. É uma porcaria a todos os níveis. A comida é uma porcaria, o atendimento é uma porcaria, o tempo de espera é uma porcaria, os preços que praticam são uma porcaria, a decoração é uma porcaria. Até a esplanada das traseiras é uma porcaria. Safa-se a localização e a esplanada que dá para o Rossio. Volto a recordar que nada disto são factos, tudo isto é uma opinião muito minha. Nem sequer me podem acusar de ter apenas “uma ideia” do que é a Pastelaria Suíça, como muita gente tem. Nos últimos meses fui lá várias vezes, ainda há umas duas semanas me sentei na esplanada das traseiras e paguei quatro euros, ou quatro euros e tal, não me recordo ao certo, por um café e uma garrafa de água. Toma lá para aprenderes a ter juízo.

Não sei por que é que a Pastelaria Suíça vai fechar — e esta crónica não serve para discutir isso. Já li que são simplesmente os proprietários que querem vender o negócio, talvez, não faço ideia. O que sei é que por muita História que a Suíça tenha, isso de nada vale se o negócio não continuar a fazer sentido, se não souber viver no tempo de hoje, e a Pastelaria Suíça não sabe viver no tempo de hoje. Pior: muitos dos que lamentam que a Suíça feche lamentam também que os lisboetas estejam a ser expulsos do centro da cidade, e obrigados a ir viver para os arrabaldes. Ora, parece-me evidente o porquê de a Pastelaria Suíça se chamar Suíça e a Padaria Portuguesa se chamar Portuguesa. É que a primeira é perfeita para malta que vive na Suíça e está habituada a dar 4 paus por uma bica, enquanto que a segunda sabe que o lisboeta que vem dos arrabaldes para o centro fica muito feliz com um menu de pequeno-almoço a dois cinquenta, com suminho de laranja, sandes mista e café.

A esmagadora maioria dos negócios históricos que tem fechado não soube viver no tempo de hoje. Muitos, por manifesto desconhecimento de regras básicas de marketing, outros, porque os seus produtos-estrela há muito que deixaram de fazer parte do cabaz de bens essenciais, e há também outros que se refastelaram no cadeirão do sucesso, no peso da sua História, e acharam que isso lhes iria pagar as contas para sempre.

As empresas não têm de se descaracterizar com a mudança, podem perfeitamente mudar mantendo um ADN próprio, acompanhar o ritmo de vida e as necessidades dos clientes. Só que perceber isso obriga a que se invista nesse conhecimento, obriga a que se tenha noção de que essa mudança está a acontecer, e muitos comerciantes históricos, por mil e uma razões, não quiseram saber, enterraram a cabeça na areia, e pagaram o preço quando viram os clientes a fugir para outros sítios mais adaptados à sua vida.

Trabalhei alguns anos na Baixa de Lisboa, rodeado de muitas dessas lojas históricas, desses cafés emblemáticos da cidade. Adorava passar por eles, vê-los vivos, mas preferia mil vezes tomar o pequeno-almoço num sítio que me oferecesse conforto, atendimento simpático, um wifi aberto e preços que me fizessem voltar lá no dia seguinte. Era isso que fazia sentido na minha vida, e é isso que  acho que faz sentido na vida da esmagadora maioria dos lisboetas, dos lisboetas de Alfama, de Alvalade ou dos que deixaram de conseguir pagar uma renda ao pé do metro e tiveram de partir para lá do sol posto.

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