Luisa Matos tinha um daqueles pediatras perfeitos. Daqueles que arriscam dar o número de telemóvel pessoal a uma mãe com um recém-nascido. “Sempre recorri ao médico da minha filha cada vez que ela adoecia. Nos primeiros anos da vida dela, mesmo numa época em que os telemóveis ainda não existiam, ele estava contactável dia e noite e cedia o número fixo da sua casa. Recordo-me de um verão em que estávamos de férias no Algarve e a Catarina apanhou uma intoxicação alimentar com febres altas. Na época, a única solução era ir para o Hospital de Faro, mas o pediatra tudo fez para nos ajudar, acompanhar e até um colega, que estava de férias na mesma zona que nós, contactou para ir ver a miúda”, conta a técnica de recursos humanos de 59 anos.

A decisão da família era simples: evitar ao máximo as idas às urgências hospitalares, recorrer em primeiro lugar ao pediatra da filha. “Para além das horas de espera comuns nos hospitais, que acho serem completamente prejudiciais para uma criança doente, tive sempre medo que a minha filha saísse do hospital mais doente do que tinha entrado”, conta à MAGG.

A ideia desta mãe é partilhada por muitos pais. O medo que os vírus e as doenças presentes nos hospitais infetem as crianças nas salas de espera faz com que muitas pessoas evitem levar os filhos às urgências hospitalares.

Nem todos os protetores solares são bons para o seu filho

Mas as esperas nas urgências não são à toa e existe o outro lado do espectro — falamos das pessoas que ocupam os hospitais com crianças que não precisam de lá estar e que beneficiariam se fossem acompanhadas pelo médico assistente e resguardadas em casa.

Ir ou não ao hospital, eis a questão

Para José Aparício, médico pediatra e coordenador do atendimento pediátrico do Hospital Lusíadas Porto, é importante perceber que “as urgências de um hospital são habitualmente locais para atender crianças que adoecem de um modo súbito”.

Havendo uma alteração do estado da criança, seja do sistema respiratório, gastrointestinal ou neurológico, acho que os pais devem recorrer a uma urgência.”

De acordo com o especialista, se uma criança está com bom estado geral, apenas tem febre, não há sinais de dificuldade respiratória ou de perturbações maiores do seu estado habitual, “o médico assistente deve ser contactado e envolvido no episódio de urgência mas não se justifica uma ida às urgências e a criança deve permanecer em casa”.

José Aparício explica que, pelo contrário, quando uma criança “demonstra uma perturbação do seu estado geral, está sonolenta, parece ter dificuldades respiratórias, não se comporta normalmente e recusa-se a comer, esta família, mesmo sem a criança ter febre, deve na mesma contactar o médico assistente mas este, na impossibilidade de observar o paciente, vai provavelmente remetê-lo para as urgências”.

O pediatra sublinha que a avaliação inicial dos pais acerca do estado geral do filho é importantíssima. “Havendo uma alteração, seja do sistema respiratório, gastrointestinal ou neurológico, acho que os pais devem recorrer a uma urgência”.

Existem também outras situações a que os pais devem estar muito atentos, como as manchas no corpo, que podem ser um sinal de alarme. “Mesmo que uma criança não tenha grandes alterações do estado geral, podendo até estar bem-disposta, mas tenha febre e manchas no corpo nas primeiras 24 horas, as famílias devem recorrer à urgência”, salienta José Aparício.

As urgências de um hospital não são mais perigosas do que um infantário

Tal como Luísa Matos, existem outros pais que relacionam uma ida às urgências com mais doenças. Andreia Santos, contabilista, 39 anos, mãe de Lourenço, de três anos, recorda um episódio em que o rapaz voltou para casa mais doente do que quando se dirigiu ao hospital.

“Fui com o meu filho para as urgências devido a uma inflamação de garganta numa segunda-feira. Voltámos para casa e, no dia seguinte, ele não foi ao infantário e ficou a recuperar. Na madrugada de quarta, com febres altas, diarreia e mal-estar, fui novamente ao hospital e ele foi diagnosticado com uma gastroenterite. Dado que não estava ninguém doente em casa, só posso presumir que tenha sido infetado na primeira visita ao hospital”, relata à MAGG.

No entanto, para José Aparício, uma ida ao hospital não ó obrigatoriamente sinónimo de contrair uma doença. “As pessoas, quando vão às urgências, já têm os filhos doentes. Acho muito difícil quantificar que a criança vai para o hospital com a doença A e sai de lá com a doença A mais B, as coisas não funcionam assim.”

Na opinião do pediatra, as crianças apanham doenças habitualmente nos infantários e, “aí sim, existem, por vezes, muitas crianças doentes. É evidente que quando uma criança entra numa sala de espera de uma urgência, mesmo sem um quadro de doença grave, e se põe a brincar com outra que lá está, à imagem do que acontece nos infantários, pode contrair alguma doença. Mas não é isso que acontece habitualmente.”

O especialista chama a atenção para afirmações que caracterizam de forma imediata as urgências como antros de doenças, frases que podem até assustar as pessoas. O médico contesta a ideia muitas vezes repetida de que “se se vai a uma urgência, se contrai uma doença”: “Não acho que se deva pôr o problema assim, vamos assustar a população. Pode acontecer? Pode, claro. Se existe uma criança com varicela na sala de espera, sem estar devidamente protegida e afastada das outras, caso esta interaja com outras crianças, é claro que pode infetá-las. E quem diz a varicela, diz outras infeções, como uma gripe ou uma bronquiolite”.

No entanto, José Aparício cada vez mais nota os cuidados dos pais que, vigilantes, protegem os seus filhos da possibilidade de serem infetados no hospital. “O que a experiência me diz é que os pais são relativamente cuidadosos, sabem que quando vão ao hospital existem outras crianças doentes e eles próprios evitam o contacto com elas e mantêm a distância.”

Os ecrãs estão a substituir os pais

Ter os filhos ao colo, não deixar as crianças partilhar muito o mesmo espaço ou brinquedos com outras que não conheçam pode ser uma boa estratégia, embora o especialista reconheça que existe sempre um risco de os mais pequenos apanharem uma doença extra nas urgências. “Mas uma criança até pode ficar doente a descer um elevador”, ressalva.

As linhas de apoio podem ser uma ajuda, mas o médico assistente é quem conhece a criança

Depois de contactar o pediatra ou médico assistente, mesmo que este recomende que os cuidados se façam em casa e que não se justifica uma ida a um centro hospitalar, há pais que não resistem à ansiedade e dirigem-se às urgências. José Aparício discorda, já que a criança vai ser atendida por um médico que nunca a viu ou acompanhou.

Habitualmente, nós pediatras, não mandamos famílias para as urgências de ânimo leve.”

Confrontados com uma possível situação de doença, os pais devem de imediato contactar o médico que segue a criança, insiste o especialista. “O papel do médico assistente é tentar descansar os pais, identificar os sinais e os sintomas da criança e, em função disso, orientá-los. Habitualmente, nós pediatras, não mandamos famílias para as urgências de ânimo leve. Há sinais e sintomas que nos preocupam e em que dizemos ‘arranque para o hospital’, outros casos em que dizemos que não vale a pena”.

Existem também as linhas de apoio 24 horas, em que o atendimento é feito com folhas de triagem que, na opinião do especialista, dão uma ajuda aos pais, bem como outras linhas das redes privadas de saúde, ”em que as pessoas também opinam sem conhecer a criança”, refere José Aparício. “Mas não é a mesma coisa do que falar com o médico que acompanha e conhece a criança. São um apoio, claro, mas não sendo um apoio personalizado, devem ser os pediatras ou médicos assistentes os primeiros a tentar ajudar as famílias.”