Neverthink. A aplicação que lhe permite ver o YouTube como se fosse uma televisão

Os editores de conteúdos são adolescentes e ganham 15€ por hora para assistir a vídeos do YouTube. Saiba tudo sobre este emprego de sonho.

A aplicação foi criada por dois amigos na Finlândia, em 2016, e está agora avaliada em 10 milhões de dólares.

Uma aplicação que apresenta vídeos de youtube em canais temáticos com a curadoria de editores de conteúdo. É como uma televisão ambiente, daquele tipo que se deixa ligada enquanto se cozinha, arruma a casa ou simplesmente não se sabe o que ver. Para alimentar esses canais, os editores do Neverthink, maior parte deles adolescentes, têm de ver vídeos no youtube (e são pagos para isso).

Foi criada em novembro de 2016 por dois amigos de Helsínquia, na Finlândia: Aviv Junno e Claus Nurro. Inicialmente, o par de amigos começou o projeto como um hobby paralelo ao seu emprego, porque achavam que “era bom se fosse possível ver YouTube e Reddit como se fosse uma televisão”, contaram ao jornal online “The Sun”.

No site e na aplicação Neverthink (disponível para IOS e Android) pode escolher ver um dos 32 canais, como “Comida”, “Documentários”, “Comédia” ou “Memes”, em que está sempre a passar uma lista interminável de vídeos do YouTube em torno desse tema. Funciona como um canal de televisão: não pode avançar ou saltar vídeos. Se, por acaso, se cansar do que está a ver, pode simplesmente mudar para outro dos canais e encontrar outra coisa que lhe agrade.

A ideia que foi um grande sucesso

A ideia da aplicação nasceu porque, com muita frequência, as pessoas sentam-se em frente ao computador para ver alguma coisa no YouTube, normalmente durante o jantar ou depois do trabalho, e acabam por ficar tão sobrecarregadas com a quantidade de oferta, que levam meia hora para decidir o que ver. É aí que o Neverthink entra: com o serviço de televisão online, pode escolher um canal baseado no seu humor, ou naquilo que mais gosta, sem precisar de pensar no que é que vai ver.

Aviv Junno e Claus Nurro, criadores da aplicação e do site Neverthink

O Neverthink foi lançado, pela primeira vez, como uma aplicação para o telemóvel e, depois de receberem um investimento de 100.000 euros, Aviv Junno e Claus Nurro transformaram-no num negócio viável. Apenas alguns meses depois, a startup foi avaliada em 10 milhões de dólares (8 milhões e meio de euros). Depois de ser lançada globalmente, em outubro de 2017, a Neverthink ganhou 2,5 milhões de visualizações de vídeo de utilizadores em 194 países, em apenas duas semanas.

Adolescentes têm a oportunidade de trabalhar como editores de conteúdo

Aviv Junno e Claus Nurro empregam, atualmente, dez editores de conteúdo (pessoas que têm como função analisar o fluxo constante de novos dados seja em textos ou vídeo, disponibilizados na internet, com o objetivo de recolher, organizar e apresentar a informação mais relevante sobre um determinado tópico, junto de uma audiência específica), que trabalham tanto em casa como nos escritórios do Neverthink, em Helsínquia. A maioria é adolescente ou tem vinte e poucos anos. Cada um deles é responsável ​​por um ou dois canais, tendo de assistir a vídeos virais do YouTube para escolher o conteúdo das suas emissoras de televisão.

Juntos, vêm cerca de 3.500 vídeos por dia. Não tendo a Finlândia um salário mínimo nacional, os editores de conteúdo recebem entre 10 a 15 euros por hora (tendo em conta que o salário médio por hora entre os trabalhadores industriais no país escandinavo é de 14 euros). Sem contar com o salário, os funcionários do Neverthink são presenteados com noites de jogos de realidade virtual, noites de pizza e cinema e, até mesmo, viagens no iate da empresa. Não é de admirar, portanto, que a empresa receba, pelo menos, cinco pedidos de emprego por dia. Enquanto os editores de conteúdo mais velhos trabalham a tempo inteiro na empresa, os adolescentes, sendo também estudantes, trabalham em tempo parcial, até três horas por dia, dividindo a visualização do YouTube com os estudos.

São especialistas adolescentes

E o que é que os editores de conteúdo estão à procura num bom vídeo? Eles têm de ser curtos, interessantes, surpreendentes, e ter uma produção de qualidade – vídeos sem sentido, com a imagem má e tremida não são aceites. A irmã mais nova de Aviv Junno, Noa, de 18 anos, é editora do Neverthink há mais de um ano e cuida dos canais de “Lifestyle” e “Visually Stunning”. Está também a tentar começar um canal de “vídeos de exercício”, com base no seu próprio interesse em manter-se em forma. Gasta, em média, duas a três horas por dia à procura de vídeos, e trabalha principalmente em casa, embora vá aos escritórios do Neverthink um dia por semana. “É uma loucura ser tão bem pago para assistir a vídeos na Internet, porque não parece um trabalho”, afirma Noa. “A minha família está muito feliz porque eu aprendo muito ao trabalhar numa empresa starup, e os meus amigos estão sempre a pedir que lhes arranje um emprego”.

A sua melhor amiga, Sanni Leppä, de 17 anos, está encarregue do canal “Awww” e trabalha a partir de casa, entre uma a duas horas por dia. Descobriu o Neverthink há um ano, depois de a amiga ter comentado que o irmão estava à procura de um especialista em animais fofos: “Eu adoro ver durante horas coisas fofas no YouTube, por isso, considerando o que faço, recebo surpreendentemente bem. Procuro vídeos de qualidade que tenham alguma música de fundo fofa ou um animal bonitinho que não seja tão comum, como elefantes bebés e pandas vermelhos, que são os meus favoritos”.

Maija Makela, de 16 anos, é a mais nova editora de conteúdos do Neverthink: trabalha a partir de casa, na maior parte do tempo, e poucas horas por dia. Cuida dos canais “Learn Something” e “Making Stuff”: “Nem parece um trabalho. Imagino que toda a gente faça uma pausa depois da escola para assistir a vídeos no YouTube, Netflix ou qualquer outra coisa. É basicamente o que eu faço, só que sou paga para isso”.

A crítica nas redes sociais

Apesar da sua crescente popularidade, a aplicação Neverthink foi alvo de críticas nas redes socias: algumas pessoas acreditam que a aplicação incentiva as crianças a ver televisão e a “nunca pensar” por si mesmas. Já outros sugerem que se trata de uma lavagem cerebral e que soa a algo saído diretamente da série distópica de Charlie Brooker, “Black Mirror”. Para Aviv Junno, estes argumentos não fazem sentido pois “o nome veio da ideia de não precisar de pensar sobre o que ver no YouTube, para que todos possam ter a experiência da televisão”, afirma.

Explica ainda que, quem se der ao trabalho de experimentar, vai perceber que é diferente: “Quando abrirem a aplicação, vão ver que não é disso que estamos a fazer e que, na verdade, fazemos o oposto. Gostamos de surpreender os usuários da aplicação com novos conteúdos e deixá-los descobrir vídeos do ponto de vista de outras pessoas, ensinar-lhes algo novo e ajudá-los a sair dos seus ‘feeds’ de notícias habituais. Eles também podem ver quais as tendências do momento, já que temos especialistas como curadores de conteúdo: por exemplo, o nosso curador de moda é designer, por isso é interessante ver que documentários e vídeos, alguém que trabalha num determinado campo, pode estar a ver no YouTube”.

Na verdade, a aplicação é projetada para estar ativa em segundo plano, enquanto está a fazer outras atividades, como cozinhar, fazer exercício, arranjar as unhas, ou simplesmente relaxar no fim do dia. “Muitas vezes, as pessoas sentam-se para uma refeição e só querem algo novo para ver enquanto comem, mas acabam por fazer mais navegação e pesquisa do que realmente ver alguma coisa e comer. O Neverthink é perfeito para esses momentos”, acrescenta.

Aviv Junno acredita poder contratar mais 90 editores de conteúdo depois da empresa receber a sua próxima tranche de financiamento, o que significa que muitos jovens vão poder juntar-se à equipa. “Também gostaríamos de estabelecer canais internacionais para podermos suportar mais idiomas”, acrescenta. Isto soa a trabalho de sonho para a maioria dos adolescentes. Normalmente, quando contam o que fazem para ganhar dinheiro, as reações vão da surpresa à admiração: “Imagino que as pessoas achem que seja giro, e têm razão: é muito giro mesmo. As reações vão de ‘Como assim? Mentira’ a ‘És muito sortuda’ e, finalmente, ‘Arranjas-me um emprego lá?’”, conta Sanny Leppa. E Noa concorda: “Eu acho que este é, realmente, um trabalho de sonho: oiço sempre histórias de pessoas cujo o emprego é degustar gelados e acho que este emprego fica bem próximo desse”. Por isso, da próxima vez que se sentir perdido com tantas opções de vídeos para ver, já sabe o que fazer. Sente-se, escolha um canal e deixe que Noa, Sanni, Maija o os restantes colegas cuidem do resto.

Partilhe
Fale connosco
Se encontrou algum erro ou incorreção no artigo, alerte-nos. Muito obrigado. adriana.melo.claro@hotmail.com