Ginásios. Espaços onde cabem, em simultâneo, várias dezenas de pessoas, espalhadas entre salas de fitness e estúdios de aulas de grupo. Há máquinas de exercícios, material para treino funcional, pesos, aparelhos de musculação com diferentes cargas. Personal trainers a circularem nas salas, mas cada sócio treina de forma independente e o melhor que sabe, de acordo com aquilo que lhe foi dito pelos treinadores, pelos amigos ou ainda segundo o que leu na internet ou viu no YouTube.

O exercício físico é uma das componentes mais importantes para um corpo saudável. É indiscutível. Deve fazer parte de todas as rotinas, principalmente quando o tempo de inatividade física — fruto de trabalhos e vidas sedentárias — é tão grande. Mas, ainda que seja fundamental treinar, é crucial sabermos aquilo que estamos a fazer. Os movimentos têm técnicas de execução específicas que salvaguardam o bem-estar do corpo. Se não for assim, surgem outros problemas, com consequências dolorosas e que, correndo o risco de se tornarem crónicas, podem prolongar-se a vida toda.

Claudino Ferreira é fisioterapeuta no Porto e nota que, dentro da realidade que conhece, a moda do fitness aumentou a procura por fisioterapeutas. “Se não houver um trabalho perfeitamente controlado e adequado surgem lesões, que fazem com que as pessoas venham à nossa procura”.

Andamos a fazer tudo de errado no ginásio? Tudo não, mas muita coisa

Para o fisioterapeuta, apesar de ser indiscutivelmente positiva a prática de exercício físico, há dois grandes fatores que o poderão tornar contraproducente. Ambos estão relacionados com a falta de conhecimento, mas em duas vertentes diferentes: a dos profissionais que acompanham os alunos e a dos próprios alunos que, ao trabalharem de forma autónoma, executam mal os movimentos e levam o corpo longe demais.

Dentro destes problemas, temos questões específicas: “Há várias situações: as cargas exageradas, as repetições e a velocidade do exercício que não são adequados para quem o faz e depois as más posturas na execução dos mesmos.”

Fazer uma insistência, quando o músculo está alongado, provoca uma reação de encurtamento, que, mais tarde, será muito suscetível de criar uma lesão”

A falta de conhecimento técnico faz-nos usar o corpo mal. E a falta de orientação impede a aprendizagem. “Infelizmente, boa parte dos personal trainers e pessoas que estão nos ginásios a dar aulas de fitness não têm qualificações. Aprendem a fazer umas coisas e começam a dar aulas. Para os ginásios isto tem vantagens, claro, porque têm de lhes pagar menos”.

Há também os exercícios que circulam na internet, muitos deles “sem cabimento nenhum”. E as aulas de grupo, em que se imita o professor o melhor que se consegue, mas, muitas vezes, sem a consciência postural necessária. “É impossível um professor, por muito que queira, conseguir controlar a atividade de 50 pessoas na mesma sala.”

De acordo com o especialista, seria fundamental que “os alunos passassem pelo fisioterapeuta antes de comaçaem a treinar.” E, claro, ninguém deveria treinar sem acompanhamento.

Os exercícios mais perigosos e as lesões mais comuns

“Um dos mais crassos são os alongamentos com insistências”, diz. “Fazer uma insistência, quando o músculo está alongado, provoca uma reação de encurtamento, que, mais tarde, será muito suscetível de criar uma lesão.”

O trabalho de abdominais também está na origem de vários problemas. Isto acontece, sobretudo, quando os “membros inferiores estão em completa extensão”, posição faz com que o peso se distribua mal e o esforço parta dos locais errados, como da zona da coluna lombar e cervical.

O mais importante é que, ao entrarem num ginásio, as pessoas tenham profissionais competentes a orientar todas as sessões e alunos. Também é fundamental que os alunos passem por um fisioterapeuta, sobretudo se o plano de treino incluir o levantamento de cargas muito grandes”

Nem sempre os corpos estão preparados para fazer todos os exercícios. A lógica é simples: com mais músculo, há mais força, logo, um maior controlo, que evita que se coloque o peso no local errado. Ao contrário acontece o inverso. “Há exercícios que têm de ser efetuados quando há domínio do corpo e alguma capacidade física para estar na posição correta”, diz. “Quando já se tem abdominais com potência consegue controlar-se melhor o movimento e, assim, não há sobrecarga na lombar. Mas, numa fase inicial, em que se é mais frágil, o mais provável é que ela seja extremamente forçada e, mais uma vez, vá provocar lesão.”

A prancha é uma das posições mais populares para trabalhar os músculos da barriga, mas poderá ser também um dos casos que leva a esforços errados e perigosos, por ser um exercício estático que exige muita força e controlo muscular. Sobre isto, o fisioterapeuta explica: “Criam-se sobrecargas nos ombros e na zona da púbis, que podem vir a originar problemas, o que não invalida que se reduza um bocado a barriga”, explica. “Não podemos dizer que é um erro absoluto fazer prancha. A prancha faz bem mas é preciso que haja capacidade física para a fazer.”

Treino. Fazer uma prancha durante mais de 10 segundos é um erro, garantem especialistas

Os exercícios de alto impacto são também “extremamente perigosos”. Quando há saltos muito altos e com muitas repetições, é provável que venham a desenvolver-se lesões. Com o levantamento dos pesos é igual: não se utilizam cargas para o peso correto da pessoa em questão, situação que é agravada por uma má postura e respiração errada. “Um exercício que nos obrigue a fazer esforço deve acontecer na expiração”, explica. Ao contrário, numa situação extrema, “poderá provocar uma rutura no pulmão.”

A moda da corrida, sobretudo de trail, também é perigosa para quem não tem preparação. “Anda uma onda muito grande de treinos, de corridas e maratonas no meio do mato, mas esta é uma atividade para a qual se precisa de muita resistência e de um treino de preparação muito grande, porque se correm em zonas irregulares, que acabam por causar problemas”, diz. “Uma coisa é correr num piso completamente plano, em que a solicitação das articulações é uma. Outra coisa é num piso em que se apoia um pé e um joelho com uma angulação completamente diferente da que se devia.”

Dentro da corrida, o fisioterapeuta aponta três principais lesões, que podem vir a surgir ao longo tempo: as tendinites de Aquiles (no tendão de Aquiles) e dos adutores, que se instalam, ao longo do tempo, e que são de fruto de desiquilibrios mecanicos que sejam repetitivos. E, depois há as pubalgias, que se formam de maneia semelhante e que são muitas vezes causadas por desequilíbrios entre os abdominais e as extensões da coluna. De forma geral, a moda do fitness aumentou os problemas na coluna lombar, com um aumento das raquialgias, como cervicalgias e lombalgias.

“Muitas vezes aparecem os primeiros sinais de lesão e as pessoas não valorizam, o que acaba por piorar a situação.” A longo prazo, o agravamento destas lesões pode fazê-las tornarem-se crónicas, levando a situações de dor permanente. Além disso, é importante ter atenção à nutrição. “Se comermos bem podemos atenuar o problema das potenciais lesões. Um dos aspetos mais errados é o consumo excessivo das carnes vermelhas e carnes novas, que têm uma influência muito grande no alongamento do músculo, porque lhe retira esta capacidade.”

A anatomia e sensibilidade de cada um atenuam ou pioram os efeitos dos exercícios mal executados, com excesso de peso e má postura. Mas uma coisa é certa: “O mais importante é que, ao entrarem num ginásio, as pessoas tenham profissionais competentes a orientar todas as sessões e alunos. Também é fundamental que estes mesmos alunos passem por um fisioterapeuta, sobretudo se o plano de treino incluir o levantamento de cargas muito grandes”, explica.

De acordo com o fisioterapeuta, quando é mal feito e mal acompanhado, um movimento é mais prejudicial do que benéfico. “Sendo bem executado tem 100% de benefício. Mas, sendo mal, há 20% de vantagem e 80% de prejuízo.”