Tiago Fidalgo andou pela primeira vez à boleia com 19 anos. Estava em Erasmus na Polónia, um país onde, ao contrário do que acontece em Portugal, esta forma de viajar é bastante mais comum. Os pais não sabiam. Quando lhes contou, não acreditaram. Foi preciso um telefonema peculiar para perceberem que o que o filho lhes dizia não era invenção. Ele tinha mesmo vindo da Ucrânia para Portugal em diferentes carros, que acediam ao seu dedo esticado, no meio da estrada.

“Eu tinha-lhes contado, mas eles só acreditaram depois de um camionista moldavo ter ligado a dizer que me tinha dado boleia e que tinha as minhas malas. Eu estava muito carregado e pedi para ele ficar com elas”, conta.

Descobriu que esta era a melhor forma de viajar. Era a mais barata, mas, mais importante, era a mais real. “Coloca-nos no contexto das pessoas do país em questão”, diz. “Fui escalando os desafios. Depois da Polónia, passei aos países à volta. Foi assim que voltei da Ucrânia de boleia para Portugal. Dois anos depois fui para o Brasil e, lá, fiz duas grandes viagens pela América do Sul. Em 2012 decidi que queria dar a volta ao mundo de boleia. Montei o plano, que se concretizou em 2016.”

Atualmente com 27 anos, é treinador de escalões juvenis de futebol e está envolvido num programa de empreendedorismo do governo. Foi graças à maior aventura da sua vida (a volta ao mundo que relatamos a seguir) que se tornou líder da The Wanderlust, a agência de viagens que proporciona experiências diferentes, autênticas e fora dos roteiros tradicionais. Na Austrália, conheceu uma das pessoas desta equipa que, mais tarde, veio a integrar.

A grande aventura, porém, deu-se com Joana Oliveira, terapeuta psicomotora, a mulher com quem, em 2015, casou, quando tinham apenas 25 anos. De mochila às costas e com o mínimo possível, partiram numa lua de mel pouco tradicional e cheia de desafios. Começaram em Portugal e terminaram no Canadá. Atravessaram a Europa, o Médio Oriente, chegaram à China, passaram pela Indonésia, Austrália ou Havai. Percorreram 34 países, 50 mil quilómetros e só gastaram, no total, 8€ por dia (no início estabeleceram que o máximo seria 10€). Conheceram muitas pessoas, que os acolheram e a quem tantas vezes custou dizer adeus. Tiveram a sorte de ficar em sítios paradisíacos, mas também enfrentaram as monções do Vietname ou os mosquitos da Austrália. Chegaram mesmo a dormir em bancos de jardim.

Nem sempre foi fácil. Havia regras. Além do modo predominante de transporte ser a boleia, não podiam comer em restaurantes. A comida vinha de mercados ou supermercados. As estadias também não podiam ser compradas. Os hotéis eram proibidos. Bastava um sofá ou um pedaço de chão da casa de alguém, que tanto podiam conhecer no momento, como através da internet, ou de conhecidos.

A primeira boleia de Tiago

A primeira experiência foi na Noruega, quando tinha 19 anos. Descobriu uma viagem muito barata para a Noruega, a partir da Polónia. Comprou-a com três meses de antecedência. “Nesta altura, quando conversava com as pessoas, referia a viagem e encontrei uma viajante que já tinha feito o mesmo trajeto de avião e que me disse que na Noruega era tudo caro. A viagem do aeroporto até à cidade custava 50€, sendo que eu tinha gasto, no máximo, 10€ na viagem de avião. Não fazia sentido.” Foi este o pretexto que veio dar origem à maior aventura da sua vida, que se havia de realizar sete anos depois. “Lembro-me que pensei que não era possível, que ninguém me ia querer dar boleia. Mas amadureci a ideia. O autocarro era realmente muito caro, portanto, quando cheguei, peguei num papel e escrevi Oslo, que era para onde ia.”

Melhores sítios para apanhar boleia

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“Numa cidade, o melhor sítio para apanhar boleia é à saída, junto à autoestrada ou numa estrada nacional, num sítio onde haja espaço para o carro parar e em que possamos ser vistos de alguma distância para o condutor tomar uma decisão — num ou dois segundos não consegue. Se nos deixarem entre dois centros urbanos, numa autoestrada, o melhor é a estação de serviço. Aqui a única coisa mais aborrecida é que é mais desconfortável para quem pede, porque o contacto é mais direto.”

Esticou o dedo, na via rápida. Foi a primeira de muitas boleias. “Demorei uma hora a conseguir. Uma família do Uzbequistão parou e levou-me até à cidade, que ficava a uns 100 a 120 quilómetros”, conta. “Se tivesse ido de autocarro não tinha conhecido tudo o que conheci. Eles foram-me mostrando coisas pelo caminho. À medida que se anda à boleia, percebemos que há coisas que seriam difíceis de conhecer de outra forma. E, no final, deixaram-me exatamente no destino.

Esteve três dias em Oslo e o plano era regressar ao aeroporto da mesma forma. “Mas aí aprendi uma lição. Quem anda à boleia não pode ter um prazo estipulado para chegar. Comecei a pedir boleia a umas quatro ou cinco horas para regressar. Nas quatro primeiras, ninguém parou.”

Conseguiu chegar, mas foi por pouco, porque quando entrou no carro, estava no mínimo de tempo possível para conseguir chegar ao aeroporto, a tempo de encontrar o check-in aberto. “Fechava às seis e eu apanhei a boleia por volta das cinco. Quem anda à boleia não pode mesmo ter hora para chegar.”

Depois desta experiência, seguiram-se outras. “Na Polónia, quando tinha fim de semana de três dias, visitava as cidades à volta. Umas mais longe, outras mais perto. Fui até Varsóvia ou Cracóvia, por exemplo. Depois fiz viagens para fora: fui até Bruxelas à boleia. É interessante combinar a boleia com outro tipo de transportes. Lembro-me que, na Páscoa, encontrei um voo muito barato para Itália, onde viajei três semanas de boleia.”

Nesse ano, sempre que tinha tempo ou encontrava um voo barato, colocava os seus novos skills em prática.

O maior susto

“Os sustos acontecem sobretudo com pessoas em que não confiamos tanto”, explica. “Nestes casos, qualquer desvio causa-nos alguma ansiedade. Sempre que me assustei foi com condutores mais frios, menos conservadores, que entram por caminhos mais estranhos, pelos quais não estamos à espera.” Nestes momentos, vêm à cabeça os piores cenários possíveis, mas, de acordo com o que relata, acontece que é tudo fruto da imaginação e do medo: “A pessoa saiu para visitar alguém, para apanhar uma flor. Nunca era nada de negativo e passados alguns minutos voltavam para a estrada”.

O primeiro susto foi o maior. “Estava a voltar de Barcelona para Portugal, na passagem de ano de 2010 para 2011. Saí de Portugal à boleia e fui parando ao longo do caminho para conhecer as cidades.”

Ao voltar, saiu muito cedo de Barcelona, e pensou que um dia seria o suficiente para chegar a Portugal. Mas nesse dia uma das boleias saiu da autoestrada, e Tiago não conseguiu apanhar a boleia seguinte, que planeava conseguir numa bomba de gasolina. “É muito mais difícil quando é assim, porque, por exemplo, numa aldeia, temos de esperar horas para que alguém pare. Há pouco trânsito e o que há é local.”

À noite, lá conseguiu. Chegou a Salamanca e às 23 horas já estava à saída da cidade, pronto para mais uma etapa do caminho. “Um carro antigo, com dois portugueses, parou e levou-me. Eles iam a conversar. Não senti muita empatia e não estava  confortável, talvez porque também fosse de noite. Mas também não senti perigo.”

Mas o receio foi-se instalando, quando, chegados à fronteira de Portugal passam pela parte dos camiões, em vez de seguirem pelos ligeiros, onde era suposto.  “A polícia veio atrás de nós e esteve a revistar-nos. Eles disseram que se enganaram e correu tudo bem. Seguimos.”

Ao chegar a Portugal, saíram da Estrada Nacional e entraram numa estrada de terra — era uma da manhã. “Quando falava com eles, não obtinha resposta. Desisti e pensei que alguma coisa ia correr mal.” Passaram cinco ou seis minutos até chegarem a uma casa, no fim dessa estrada. Uma das pessoas sai do carro e entra. “Perguntei ao condutor se estava tudo bem e ele disse que só iam visitar alguém e que, depois, seguiríamos. Na altura senti-me mesmo assustado e não percebi o que é que estava a acontecer.”

Passados 10 minutos, Tiago recuperou a calma: “Voltámos pela estrada de terra, até à Nacional. O condutor deixou o pendura na cidade e fez mais uns quilómetros para me deixar no meu destino, na bomba de gasolina da Guarda.” Acabou por correr tudo bem.

A volta ao mundo de carro, em 16 meses

“A nossa viagem começa com a nossa relação”, recorda. “Somos da mesma cidade, das Caldas da Rainha. Andámos na mesma escola, do 5º ao 12.º, e depois, em 2008, acabámos por ir para a mesma faculdade, em Lisboa, apesar de estarmos em cursos diferentes.” Mas, curiosamente, só se conheceram em 2011, em Florianópolis, no Brasil: “Fizemos o mesmo intercâmbio. Como eu fui um semestre antes e fiquei um ano, o meu contacto foi-lhe dado para a integrar.”

Trocaram algumas mensagens e quando se conheceram perceberam que tinham muito em comum. “Foi muito engraçado. Falámos sobre viajar e falei-lhe nas boleias. Ela começou a ir de boleia para a faculdade — eram 20 minutos de carro. Mas, de resto, tinha medo de o fazer sozinha.” Quando voltaram para Portugal, começaram a fazer algumas viagens dentro do país e pela Europa.

“Em 2012, já tinha o plano para fazermos a volta ao mundo, mas ainda não sabíamos quando concretizá-lo”.

O caminho completo

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Portugal, Espanha, França, Mónaco, Itália, Eslovénia, Croácia, Sérvia, Macedónia, Grécia, Turquia, Geórgia, Arménia, Irão, Turquemenistão, Uzbequistão, Tajiquistão, Quirguistão, Cazaquistão, China, Hong Kong, Macau, Vietname, Camboja, Laos, Tailândia, Malásia, Singapura, Indonésia, Timor-Leste, Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos da América, Canadá.

Até 2015 foi o período de adaptação. Foi neste ano, em setembro, que, aos 25 anos, se casaram. Não havia melhor pretexto. A lua de mel serviria para pôr o plano em prática, que começou a ser desenhado com ainda mais detalhe.

Surgem as regras para a aventura. “Além da boleia ser a nossa forma de transporte, nunca poderíamos pagar para dormir. Conhecíamos alguém pela internet, contactávamos instituições ou algum conhecido, amigo de amigo, que nos cedesse uma cama, um bocado do sofá ou do chão. Outra regra é que teríamos de cozinhar a nossa própria comida. Não íamos a restaurantes. Comprávamos a nossa comida, que comíamos crua ou cozinhávamos na casa que nos estivesse a hospedar.

A viagem começou em Portugal. A primeira paragem foi Paínho, a aldeia de Tiago. Passando a fronteira, seguiram-se mais 33 países, num total de 50 mil quilómetros percorridos. O último país antes do regresso foi o Canadá. A boleia de volta a Portugal foi dada pela TAP que ouviu falar na história e se disponibilizou para os trazer de avião para Portugal.

“Singapura foi o primeiro lugar onde não podíamos ir por terra”. Tinham duas opções: um voo de poucas horas ou uma viagem de barco de dois dias. O caminho até à Indonésia fez-se, claro, pelo mar.

Regras para pedir boleia

  1. “O caminho é mais importante do que o destino. É algo que se aprende ao longo da viagem. Se nos focarmos no destino, esquecemo-nos do caminho. Para um viajante, é importante aproveitar as horas na estrada, na natureza, o contacto com as pessoas. Devemos aproveitar a viagem no seu todo. Quando andamos à boleia isto é essencial porque é possível que passemos só um dia no local final, enquanto tivemos três na viagem até lá. É mais importante conhecer as pessoas e ver as aldeias do que conhecer a Torre Eiffel. Se não interiorizarmos isso, pode ser frustrante.”
  2. “Temos de confiar na nossa barriga. Quando o carro para e sentimos suores frios ou uma sensação na barriga, se calhar é melhor recusar porque mais vale rejeitar a boleia certa do que aceitar a boleia errada. É a regra. Já recusei boleias quando tive esta sensação, sobretudo quando ia com a minha mulher, com quem tenho mais atenção. Mas não acontece muitas vezes.”
  3. “Como é que se recusa a boleia? Se for um carro pequeno ou um automóvel dizemos que estamos à espera de um camião. E vice-versa. Podemos também dizer que não vamos mesmo para a cidade e que esperamos pela próxima, que seja mais direta. Mas a do camião e do carro funciona sempre.”

“É uma prova de fogo para a relação”

24 horas juntos, durante 16 meses. “É muito tenso. É uma prova de fogo para a relação”, diz. “O projeto foi criado por mim e houve coisas que, caso tivesse sido a Joana a planear, talvez não tivessem sido assim. Para ela fazia mais sentido apanhar um avião do que um barco de dias, por exemplo.”

Mas não é só isso. Nesta lua de mel, não houve tempo só para os dois. Havia sempre companhia, quer no carro, quer nas casas em que ficavam hospedados. E, claro, o cansaço, muito físico, mas, acima de tudo, mental.

“Duas pessoas emocionalmente desgastadas, 24 horas por dia, em constantes situações desafiantes é duro”, reconhece.

Há muita imprevisibilidade. Muitos contratempos. “Não sabíamos se as pessoas eram simpáticas, se tinham abertura, se podíamos montar a tenda. Passados sete meses isto começa a pesar”.

E, depois, havia os choques emocionais das despedidas constantes. Faziam-se e desfaziam-se malas. Conheciam-se pessoas, gerava-se empatia, familiaridade para dali a pouco tempo se separarem. E começarem tudo de novo, vezes e vezes, difíceis de contar. “Estávamos sempre a conhecer pessoas, a dizer adeus, a fazer a mochila, sem saber se íamos voltar a vê-las”.

“Fomos de Portugal de boleia até à China”

Um dos momentos que Tiago recorda com maior felicidade é a chegada à China. “Tínhamos ido mesmo de Portugal de boleia até à China. Olhámos para trás e conseguimos ver tudo o que tínhamos feito.”

A felicidade foi ainda maior porque, segundo Tiago, aquele dia tinha tudo para correr mal: “Não conhecíamos ninguém. As cidades fronteiriças [estavam em Zharkent, no Cazaquistão] são sempre um pouco tensas.” Mas a sorte estava do lado deles. Na rua, conheceram uma rapariga que os acolheu desde o primeiro minuto. “Hospedou-nos, apresentou-nos aos amigos e levou-nos a jantar.”

Quanto tempo ficavam em cada sítio?

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O tempo que ficavam em cada sítio dependia do cansaço ou do desgaste emocional. “Numa primeira fase, até chegarmos a Timor-Leste (aos 10 meses), ficávamos entre dois dias a uma semana. Mas, depois, decidimos visitar menos países e ficar mais tempo, entre quatro dias a três semanas. Conseguíamos recarregar energias.”

Por volta das 14 horas quando atravessaram a fronteira e sentiram o choque tremendo em relação à realidade “imediatamente anterior”. Chegaram a Khorgos, a primeira cidade da China. “Nos outros países as fronteiras são pequenas, no meio do nada.”

Aqui o cenário era o oposto, tanto que parecia que estavam num aeroporto. “Havia muita gente, luzinhas a piscar, passaportes eletrónicos, assistentes para nos indicarem o caminho. A fronteira passa-se e entra-se diretamente no centro da cidade, onde há prédios enormes, pessoas que não acabam e todas muito curiosas em relação a nós porque, ao contrário das cidades chinesas mais costeiras, ali não há tantos turistas.”

Mochilas inundadas, chuva com centímetros e o calor da Austrália

Era época de monções. Tiago e Joana estavam numa estrada nacional, que atravessava o centro da cidade vietnamita de Dong Hoi. Chovia torrencialmente e já tinham passado seis horas  sem que nada acontecesse. Nenhum carro. Nenhum camião. Nenhuma boleia.

“O chão estava inundado com centímetros de água. A chuva era torrencial”, recorda. “Na época das monções as pessoas têm outras soluções, que passam por andar de barco. Vão à janela, veem o cenário e saem de casa de canoa.”

Pedir boleia naquele momento parecia impossível porque a chuva não deixava. Joana queria outra solução, como ir de autocarro, parar num hotel. Estava a disposta a, naquela situação extrema, quebrar as regras, porque o contexto fazia crer que essa seria a única solução viável. Tiago estava confuso. Estava exausto, mas sentia que transgredir aquilo a que se tinham proposto seria pôr em causa todo o projeto.

As mochilas já estavam inundadas. Estavam emocionalmente em franjas. Precisavam de uma solução rápida. “Parou um autocarro e nós entrámos. Pensei que o sonho estava destruído. Fiquei tenso, a Joana percebeu. Naquele momento parecia que o sonho se tinha desvanecido”, lembra. “Passado dois ou três minutos, vimos que as mochilas estavam no porta bagagens a flutuar. A Joana pediu ao autocarro para parar.”

Abandonaram o autocarro, quando ainda só tinham percorrido, no máximo, cinco quilómetros. Aquelas mochilas encharcadas fizeram-nos regressar ao caminho das boleias porque, em 30 minutos, parou um carro com vietnamitas e turistas que os levou.

Apesar do final feliz, este é um dos momentos mais tensos que Tiago recorda de toda a viagem. Mas houve outro, na Austrália. Não chovia. Bem pelo contrário. Estavam no pico da época seca, faziam 46 graus e o cenário era desértico. Não havia sombras ou sequer caras simpáticas. “Há duas Austrálias diferentes para andar à boleia: o interior onde as pessoas são desconfiadas e a costa, onde estão habituados a ver pessoas de fora”, diz.

Tiago sentiu que este era mesmo o sítio mais triste de toda a viagem. “Estávamos no Outback, mesmo no meio da Austrália, onde não mora ninguém, onde não há sinal de telefone.”

À meia-noite conseguiram chegar a uma cidade. Estavam para lá de cansados e sem soluções. “Deitámo-nos num banco de jardim, sem sequer montarmos as tendas”, diz. “Fomos atacados por mosquitos às cinco da manhã e voltamos para a estrada novamente, para só fazermos 200 ou 300 quilómetros.”

O reverso da medalha

Mas, independentemente de tudo, “viajar é sempre positivo”. E sair da zona de conforto faz parte. Olhar para estas duas situações, de chuva intensa ou de calor imenso, remete-nos para cenários de caos e desespero. Mas também há o reverso da medalha. “Houve dias muito duros, mas dias equivalentes a resorts, porque conhecíamos alguma pessoa que vivia numa mansão ou numa casa de praia e passávamos cinco dias com uma vida realmente diferente daquele dia do banco de jardim.”

Uma dessas situações aconteceu no Havai, onde acabaram por prolongar a estadia, que em vez de ser de três dias, acabou por ser de seis.

“É um lugar a que muita gente sonha ir. Conhecemos umas pessoas pelo couchsurfing, que nos hospedaram, em apartamentos mesmo junto à praia. Tinham bicicletas e descobrimos muito da ilha assim. Foi muito bom, sentimo-nos em família.

Nos Estados Unidos, a penúltima paragem antes da aventura terminar, o casal também viveu uma experiência fantástica. Tiago tem família afastada neste país, mas que nem sequer conhecia. “É um primo do meu pai. Moravam em Massachusetts”, diz. “Esta visita coincidiu com o seu período de férias, então fomos para uma cidade a cerca de 900 quilómetros [na Pensilvânia], para uma casa a dois passos de um lago paradisíaco, onde tínhamos barco, canoas, praia. Ficámos uma semana.”

Voltar a casa à boleia com a TAP

A aventura de Tiago Fidalgo e Joana Oliveira chegou à TAP. A última boleia da volta ao mundo fez-se de avião, a partir do Canadá. Chegaram a Portugal a 11 de junho de 2017, depois de a 12 de março do ano anterior terem partido. “No regresso, fizemos uma surpresa. Era o aniversário do meu pai”, recorda Tiago.

Chegar a casa foi bom. Mas, “como durante 16 meses, de três em três dias, ou de duas em duas semanas, estávamos com outras pessoas e a fazer outras coisas, pode tornar-se monótono.”

Atualmente, Joana e Tiago alimentam o blogue “O Mundo na Mão”, que nasceu dois dias antes de a viagem começar. Agora com mais calma e tempo, é aqui que vão relatando a aventura completa em diferentes crónicas. Além disso, deixam várias dicas para viajantes.

Os primeiros dias depois do regresso “foram fantásticos”, mas depois instala-se um ambiente de estranheza. Afinal, foram 510 dias de viagem, quase 80 semanas, depois de quase três anos e meio a trabalhar a recibos verdes para juntar sete mil euros, dos quais só gastaram pouco mais de quatro mil.