Helena Sacadura Cabral: “A minha vida começou aos 50 anos”

O filho morreu a 24 de abril e a 1 de maio assinava livros na Feira do Livro. Aos 83 anos mantém a mesma determinação: não parar nunca.

Este é já o 29º livro de Helena Sacadura Cabral

Vasco Silva

Aos 83 anos, Helena Sacadura Cabral não se fecha aos pequenos prazeres. O mais recente veio com a descoberta do bem que lhe sabe uma cerveja gelada num fim de tarde de verão. “Os meus amigos chateavam-se quando eu pedia água com gás e decidi recentemente provar. Olhe, adorei!”.

Como o sol ainda vai alto e a conversa, apesar de descontraída, requer algum foco, ficámo-nos por uns copos de água fresca na esplanada do Torel Palace. A vista do topo da colina dá para uma Lisboa a acordar para o verão e talvez por isso comecei por me referir ao seu novo livro, lançado recentemente pelo Clube do Autor e que está já no top de vendas nacional, como uma espécie de detox. Riu-se com a minha provocação e, aproveito para avisar, que se escrevesse a palavra ‘risos’ a cada gargalhada de Helena, este texto ia ser constantemente interrompido.

Chamou-lhe “Uma certa forma de vida” e a forma que deu à sua nunca foi consensual. Ia para a escola montada na mota de um colega, tirou um curso contra a vontade do pai, que também imaginava que a filha iria casar com quem ele escolhesse. Nada mais errado. Casou com 21 anos com quem quis, neste caso Nuno Portas, de quem teve dois filhos, Miguel e Paulo. Foi a primeira mulher nos quadros financeiros do Banco de Portugal, escreveu já 29 livros, mantém um blogue ativo e ainda faz consultoria na área financeira. “Se parar morro”, garante, ainda que não pense na morte muitas vezes, nem mesmo depois de perder o filho mais velho, que faria 60 anos a 1 de maio. “Não lhe dar uma grande festa custou-me muito”, assim como lhe custa ver a falta que o irmão faz a Paulo.

Permite-se estar triste, ainda que todos tenhamos as gargalhadas coladas à sua imagem. E nesses momentos “de neblina”, como lhe chama, não tem vergonha de pedir ajuda. “Ligo aos meus amigos, ao meu filho e admito que preciso de companhia”. Ou então fica à espera das sms do neto a falar de saudade. “O que é extraordinário porque, apesar de ter sido uma ótima mãe, não sou uma ótima avó”. Culpa a falta de tempo, mas não pensa em abrandar. “Parar para quê? É tão bom estar cá em baixo a viver”.

É inevitável acabar de ler este livro com a sensação de “caramba, esta Helena deve ser mesmo segura do que faz”. É mesmo assim?
Tenho as minhas inseguranças, como toda a gente. Há é pessoas que se deixam dominar pelas fragilidades, eu faço o possível para vencê-las, reconhecendo que elas existem. Não sou a super-mulher nem um super ser humano. Tenho dúvidas, tenho receios, mas quando se tem uma longa carreira de vida como a minha, também aprendemos a conviver connosco. E eu gosto muito da minha companhia.

É a sua melhor companhia?
Tenho muitos bons amigos, a quem devo muito do que tenho hoje, mas sem dúvida que sou a minha melhor companhia.

Diz que este livro serviu para fazer uma viagem pelo ser humano. Descobriu coisas novas?
Correndo o risco de uma comparação a alguém muito acima de mim, foi uma peregrinação interior. Este livro não tem nada que ver com o que era suposto. Vou explicar: Eu tenho Facebook porque quem escreve não pode dar-se ao luxo de não ter, acaba por ser uma ferramenta de trabalho. No Facebook, eu nunca escrevo, uso bonequinhos dos outros que me dizem alguma coisa, é uma forma de falar pela boca dos outros. Este era para ser um livro em que eu não falava, mas sim os outros. As coisas desenrolaram-se e acabou por sair uma viagem a mim própria, quando pensava viajar nos outros e usar isso para falar de mim.

Mas porque não escreve no Facebook?
Eu tenho com as redes sociais a desconfiança que o ser humano tem com aquilo que não controla. A minha família é muito exposta e isso exige algum cuidado. Ninguém tem tutela sobre o que aparece online. Eu posso aparecer como tendo olhos azuis, menos vinte anos do que tenho, sendo especialista em operações ao apêndice. Inventam-se as coisas mais estranhas sobre as pessoas. Houve uma altura que diziam que os meus filhos me tinham dado uma quinta na outra banda. Como se essa fosse a primeira coisa em que eles pensariam investir. Enfim… Tenho alguma desconfiança das redes sociais. A privacidade é muito reduzida e as pessoas expõem-se sem ter essa consciência. Não me passa pela cabeça por fotografias dos meus netos, por exemplo, mas vejo por lá fotografias de crianças, de casamentos, as pessoas dão informações sobre o estado civil, dizem “estou numa relação”, embora nem saiba muito bem o que é “estar numa relação” [risos]. O meu lado cívico diz-me que só deve ser mostrado aquilo que serve para identificar uma pessoa: bilhete de identidade, número fiscal e mais nada. O resto é da porta da rua para casa e talvez por pertencer a uma família com um nome conhecido, que esteve politicamente muito exposta, opto por fazer o caminho contrário. Reservo a minha intimidade e é por isso que as entrevistas me custam, porque aí sim tenho que falar de mim.

Eu estava muito traumatizada no ano passado com o que paguei de IRS, sabe? Disse ‘não, não quero trabalhar mais para os outros, vou fazer voluntariado ou algo do género’”

Sente-se mais protegida na escrita?
Sim. Na escrita, as minhas confissões vão até ao limite daquilo que eu deixo. Mas não deixo de reconhecer o poder das redes sociais, atenção. Eu ponho um bonequinho e caem likes imediatamente. É uma velocidade quase como a da luz. Do ponto de vista pessoal, eu não deixo de agradecer, até porque são pessoas que vão à minha página ver o que eu ponho, não para ver se estou com dor de dentes, se estou loira ou com madeixas. Isso sabem que eu não vou publicar.

Os livros que escreve matam a vontade que tem de escrever e que não usa nas redes sociais?
Para esse efeito disparei noutra direção: a blogosfera. O meu blogue tem as minhas opiniões. É a Helena que fala, mas raramente me dedico a factos da minha vida.

E os livros? É para continuar?
Eu estava muito traumatizada no ano passado com o que paguei de IRS, sabe? Disse ‘não, não quero trabalhar mais para os outros, vou fazer voluntariado ou algo do género’. Mas a vontade de escrever foi maior.

E escreve sobre temas tão diferentes como o amor, a culinária…
Tudo isso é Helena Sacadura Cabral. Adoro cozinhar, gosto do ser humano em geral e é inevitável querer escrever sobre tudo isso. O mundo é uma surpresa permanente e mesmo com esta longa vida ainda não parei de me surpreender. Se falarmos de tecnologias então… Eu via televisão, mas os meu netos já não veem, é tudo no computador. E eu alguma vez imaginei acompanhar a vida deles, estando eles a viver na Bélgica? E quando dei por mim a deitar-me com um iPad? Só não aderi aos livros digitais. Preciso de sentir e cheirar o papel. Mas jornais, por exemplo, já vejo tudo online.

Este livro começa quase como um detox, ou seja, afastar tudo o que é mau para depois absorver o bom.
Um detox, essa é boa! Mas a vida pede esses detoxs de vez em quando.

Aconselhava este detox a alguém?
[risos] Ui, várias pessoas ganhariam muito com isso. Temos uma sociedade que vive da imagem, do imediato. Veja, antigamente uma notícia durava meses, hoje em dia essa notícia morre se no dia seguinte houver uma melhor. É como o mundo do futebol, nunca ninguém sabe quem estava em primeiro lugar. É tudo muito rápido, as pessoas não param para pensar, não param para se pensarem.

E a Helena para muitas vezes para pensar?
Preciso muito de parar. Preciso de silêncio. O meu quotidiano é normalíssimo, mas sou capaz de ficar um fim de semana só comigo e muito satisfeita.

E quando para para pensar, já pensou alguma vez se fez tudo aquilo que quis?
Eu costumo dizer que até aos meus 40 e vários anos eu não fiz nada do que queria. Casei aos 21 anos e tive que orientar a minha vida para a família, sem desistir de uma vida própria, de investir na minha carreira. Hoje em dia é mais difícil por um lado, mas é mais fácil por outro, principalmente no caso das mulheres. Dou-lhe um exemplo, eu sempre quis seguir uma carreira diplomática e não me foi permitido.

Então os entraves na sua vida foram sempre externos?
Foram mais externos, sim. Com os internos, familiares, neste caso, eu lidava bem. Por exemplo, o meu pai sempre foi contra eu tirar um curso e eu tirei na mesma.

Quando é que começou então a viver as suas vontades em pleno?
Quando os meninos já estavam crescidos e eram já pessoas com as suas próprias ferramentas. Aí disse ‘Dona Helena, chegou a tua vez’. A minha vida começou aos 50 anos, a minha real vida.

 Chocar nunca foi o meu objetivo, fazer o que eu queria é que era o meu objetivo

Seja em que fase da vida, a família foi sempre a sua base?
Sempre, mesmo que com muito berbicacho pelo meio. Faz parte da minha estrutura genética a presença da minha família. Se eu não a tivesse, não sei se conseguia fazer tudo o que fiz.

A família que herdou é muito diferente daquela que construiu?
Bastante. Mas eu sou de uma família grande, em que todos pensavam de maneira diferente e isso não era um problema. Lembro-me da minha avó conviver com isso com uma grande harmonia. Havia germanófilos e anglófilos e a minha avó resolveu o problema comprando uma telefonia para cada grupo, assim uns podiam ver a BBC num lado e quem preferia televisão alemã ia para o outro. Sempre houve um enorme respeito pelas diferentes formas de pensar. Pensar diferente não era motivo para não gostar, obrigava apenas a ter que lidar com um ser humano diferente. É por isso que não me custa lidar com pessoas que pensam o oposto do que eu penso.

Mesmo com esta longa vida ainda não parei de me surpreender”

E teve uns filhos tão rebeldes quanto a Helena foi para os seus pais?
O Miguel foi imediatamente rebelde. Nasceu no dia 1 de maio, o que já por si me causava uma carga de problemas. Sempre que queria festejar os anos dele, as crianças tinham que entrar numa casa com um polícia à porta, todo artilhado de espingardas e tudo [havia patrulhamento nas ruas nesse dia]. Quase que de propósito, faleceu a 24 de Abril, outra data especial. Foi ele que fez do irmão um rebelde, porque o Paulo não era naturalmente rebelde. Mas ele fez-lhe a vida tão negra, metia-se tanto com ele, que ele, para existir, teve que se rebelar.

E essa sua rebeldia era para chocar ou porque achava que tinha realmente razão?
Chocar nunca foi o meu objetivo, fazer o que eu queria é que era o meu objetivo. Se os outros gostavam ótimo, se não gostavam paciência, não lhes ia pedir opinião. Sempre me importei mais comigo do que com os outros. Mas claro que fiz coisas que não era suposto fazer. Ir para a escola montada numa mota de um colega meu não era propriamente comum para uma menina daquele tempo. Ir para a faculdade com 15 anos também não era comum.

Não era nem é.
Tem razão [risos]. A verdade é que levei muitos anos condicionada pela família, pela obrigação de estar presente na vida dos meus filhos, com a necessidade de conciliar a vida de casada com a profissional. Mas, fazendo o balanço, fui uma privilegiada. É um privilégio ter vivido numa família feita de pessoas tão diferentes, prepara-nos melhor para a vida.

E com toda essa noção de identidade, foi fácil ser ‘mulher de’ e ‘mãe de’?
Eu nunca fui ‘mulher de’. E quanto a ser ‘mãe de’, cheguei a uma altura em que decidi impor-me. Afinal, eu tinha nascido antes deles. Uma vez falei disto com a Maria de Lourdes Pintassilgo e ela disse-me: “Não te rales filha, quando nos batem à porta não nos perguntam quem foi, perguntam quem é” [risos]. Mas lembro-me de escrever na blogosfera e dos comentários serem todos a relacionar o que eu dizia com os ideais dos meus filhos. Levei muitos anos a recuperar o meu nome.

Fui muito boa mãe, mas não sou muito boa avó

E aos 83 anos, ainda há sonhos?
Não tenho vocação para o martírio. Ande eu aqui o tempo que andar, tenho coisas que quero fazer. Se são sonhos, se são projectos… é um misto disso tudo. Enquanto eu tiver cabeça, saúde e vontade e enquanto eu for quem sou, dificilmente me vejo em casa, sentada no sofá a ver televisão.

Tem paciência para as pessoas da sua idade?
As pessoas da minha idade têm uma atitude diferente. Costumo dizer que fui muito boa mãe, mas não sou muito boa avó. Não tenho muito tempo para os meus netos, nem eles têm idade para terem muito tempo para a avó. Temos uma boa relação, prezo muito o convívio com eles e divirto-me imenso a perceber o mundo deles.

Tem tendência natural para se dar com pessoas mais novas?
Sim, tenho muitos amigos mais novos que eu. As da minha idade estão em casa a fazer biscoitos. Eu prefiro fazer um cozido à portuguesa [risos].

Parar não está, portanto, nos planos?
Parar hei-de parar, que eu não sou eterna. A saúde decretará outra forma de vida.

Helena ocupa os dias entre amigos, família, livros e o trabalho em consultoria

Vasco Silva

Mas só a saúde, não a sua vontade.
Não pela minha vontade. Parar para quê? É tão bom estar cá em baixo, a viver e a mexer-me. Se ficar parada morro. São formas de vida e cada um escolhe a sua. Enquanto mãe dei tudo o que tinha, até à exaustão. Aos meus netos não dou tudo o que poderia dar, porque ocupei tanto o espaço livre por não o ter tido antes que o bocadinho que fica para eles não é aquilo que é para a maioria das avós.

Tem dias muito preenchidos?
Escrever um livro exige disciplina, manter um blogue também. Se só escrever três horas hoje, duas para a semana, não tenho um livro, tenho umas folhas soltas. Eu não funciono assim, se me comprometo, eu cumpro. Eu escrevo em casa, faço consultoria e tenho uma empresa com o meu filho. Faço tudo com gosto. Só não me peçam para escrever sobre economia, isso não. Quando saí do Banco de Portugal fiz um corte com esses temas. Consulto os dados do INE, do Pordata, porque me interessam e porque me é necessário para a minha atividade. Mas escrever sobre economia deixo para os outros, prefiro escrever sobre o ser humano.

E neste livro sobre o ser humano dedica um capítulo à tristeza. Porque é que é quase proibido estar triste?
Era só que faltava! A tristeza faz parte da vida e tem que ser vivida, tal como tem que ser vivido o luto das dores que temos. E digo luto não só da morte, falo de coisas menores. Mesmo quem tem sucesso tem insucessos e esses insucessos trazem tristezas, dúvidas e angústias. Isso é normal. Não vou por um sorriso na cara só porque tenho os outros a olhar para mim.

Permite-se estar triste?
Ai permito-me com certeza. E permito-me que os outros saibam que estou triste. Não sou é muito dada a explorar esse sentimento. Preciso de perceber porque estou triste, isso sim, e saber se tem justificação. Com a morte do meu filho, por exemplo, eu não poderia deixar de estar triste.

E ainda está?
Ainda estou. A dor dos ausentes acompanha-nos para a vida toda. O meu primeiro contacto com a morte aconteceu no liceu, quando uma colega de 12 anos morreu de tuberculose. Lembro-me de nem sequer a podermos ver, porque era contagioso. Mas sei que aquele ano, aquela turma, não foi a mesma a partir do momento em que ela morreu porque havia sempre alguém a faltar naquele grupo. A dor da ausência dos novos é difícil de se viver porque é contranatura. Dos mais velhos estamos mais à espera, ainda que nunca se esteja preparado.

O MIguel pediu-me para fazer a minha vida como se ele estivesse cá. Posso dizer-lhe que cumpri isso rigorosamente.”

E como é que vive esses momentos de tristeza? São os tais fins de semana na sua companhia?
Se perceber o que está por detrás dessa tristeza, tento resolver, sem mergulhar naquela melancolia que prolonga o estado de tristeza. E nesses momentos sou bem capaz de ligar a um amigo e dizer que ‘isto hoje está com uma neblina, vem daí dar-me uma ajuda’. Isso foi outra coisa que aprendi, orgulhos desses não valem a pena. Toda a gente tem dificuldades, toda a gente tem amigos e os amigos gostam de nós com as grandezas e as fraquezas. E em relação a um filho também. Sou bem capaz de ligar ao meu filho Paulo e dizer-lhe que preciso mesmo de estar com ele. Às vezes há necessidade de filho, principalmente quando se fica só com um. Ou até necessidade de neto. O meu neto mais velho tem uma coisa muito engraçada que é mandar-me mensagens a dizer que tem saudades minhas ou escrever-me “amo-te muito”. Acho delicioso, sobretudo porque eu não sou uma boa avó.

E é possível, tal como diz no livro, tirar sempre algo de positivo desses momentos de tristeza?
Quero acreditar que sim.

Até mesmo da morte de um filho?
O Miguel morreu dia 24 de abril e no dia 1 de maio, dia do seu aniversário, estava na Feira do Livro a assinar livros.

Foi assim que voltou à tona?
Consegui porque ele me tinha pedido para fazer a minha vida como se ele estivesse cá. Posso dizer-lhe que cumpri isso rigorosamente. Este ano foi um ano particularmente difícil. Não sei explicar porquê, mas foi dos anos mais difíceis. Talvez por estar mais cansada, não sei. Mas uma coisa lhe garanto, não há dia nenhum que não me lembre do Miguel, tal como não há dia nenhum que não me lembre da minha mãe.

Estão nas pequenas coisas?
Até chega a ser por coisas que faço e sobre as quais a minha mãe diria “que disparate”. Às vezes é porque fritei a cebola demais quando ela me dizia sempre para ter atenção ao lume. Ou quando outro dia me esqueci do bacalhau no forno e me lembrei das vezes em que chamava a atenção ao meu pai pelas suas distrações. Ele dizia-me “Oh filha isto sou eu”. E agora “isto também sou eu”. Um dia vai perceber que tudo aquilo que censurávamos nos pais, acabamos por fazer igual.

Assinalou o aniversário do Miguel de alguma forma?
Quando fez 50 anos, deu ele uma festa muito grande. Juntou uma carga de amigos, do liceu, da política. Quando cheguei ao jantar era uma multidão de gente. Nesse dia eu disse-lhe que quando ele fizesse 60 anos, era eu quem lhe fazia a festa e que ele estaria à vontade para levar aqueles 200 amigos. Não ter dado essa festa deu-me uma grande tristeza. Acabamos por assinalar a data em família, sobretudo eu e o Paulo. Ao Paulo faz-lhe muito falta o Miguel. Jantamos os dois, sossegadinhos, sem falar no Miguel, mesmo que ele esteja sempre presente entre nós. Mas tive mesmo muita pena de não ter sido o dia da tal grande festa. Primeiro, porque era sinal de que estaria viva e pronta para lhe organizar essa festa. E ver um filho atingir os 60 anos é uma coisa bonita. É ver entrar um filho no princípio da velhice.

Acreditar em Deus nestes momentos ajuda?
Ajuda e muito. Há coisas na sua vida que não entende.

Esta é uma delas?
Claro. Se acredita em Deus acredita que não domina uma série de coisas e que, por algum motivo, nada nos acontece por acaso. Não sou fatalista, nem penso que tenho o destino marcado nem uma tendência especial para o fado. Mas acho que fazemos o nosso destino, temos uma margem  grande de livre arbítrio, mas há outras coisas que nos condicionam. Nasce numa certa família, mora numa determinada rua, compra um determinado carro, tira um determinado curso, tudo isso são condicionantes. Umas são escolhas, outras acontecem. Eu vejo por mim que tenho um grupo de amigos, um núcleo de raiz que vem comigo desde pequena, mas depois tenho outro núcleo de gente mais jovem que eu adquiri. Houve uma série de circunstâncias que fizeram com que eu fosse amiga de malta de 50 anos, mas amigos à séria.

A sua rede, apesar de forte, foi-se modificando.
Claro que sim. Eu tento viver no meu tempo e se eu viver só com pessoas da minha idade corro o risco de ter uma visão mais estreita da realidade. Há muita gente que é feliz assim, eu não seria feliz assim. Gosto de ver como é que pensam as novas gerações. Às vezes vejo comentários de miúdas de 30 anos no meu blogue a dizer que quando crescerem querem ser como eu. Gosto mesmo de ter gente nova à minha volta, não para falar como eles ou para me vestir como eles. Aliás, sou o mais clássica possível. Nunca me passou pela cabeça por os joelhos à mostra aos 50 anos, havia outras coisas para por à mostra muito mais interessantes [risos]. Copiar uma geração que tem menos vinte anos é uma tontice. Posso ser uma boa companhia com a minha idade, tentando perceber que há outro mundo à minha volta e que eu participo nesse mundo.

Penso na morte, está mais perto do que já esteve

Esse olhar no presente, e também no futuro, faz com que seja ainda cedo para fechar capítulos?
Eu não fecho nada na minha vida. Deve ser por estar ligada à família Portas, não fecho portas [risos].

Nem ao amor?
Não. É evidente que não posso ter mais filhos, mas posso adotá-los. Tirando tudo o que é exterior a mim, eu, internamente nunca disse ‘não, isto já não é para mim’. Obviamente que sou tontinha, mas não dou nada por encerrado na minha vida.

Mesmo assim, é inevitável pensar na morte?
Penso na morte, claro. Está mais próxima de mim do que já esteve. Tenho uma amiga que está sempre a lamentar ‘ai mais um dia perto da morte’. Eu digo-lhe logo: ‘ai filha, pelas almas do purgatório, diz antes ao contrário. Mais um dia que já vivi’ [risos].

Disse uma vez que gostava de morrer com a mão dada a cada um dos seus filhos. E agora?
Gostaria muito, mas não vai acontecer. Quanto muito morrerei com a mão dada a um filho, mas em pensamento estarei com a mão dada ao outro, não tenha dúvidas.

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