O Big Mac, Big Tasty, Cheeseburger ou Happy Meal fazem já parte das refeições de muitos portugueses que regularmente visitam vários restaurantes da cadeia de fast food mais conhecida do mundo. Apesar das calorias — que podem ultrapassar as duas mil num simples menu —, a McDonald’s continua a atrair muitos clientes, desde miúdos a adultos.

Seja cliente ou não, é provável que tenha curiosidade acerca do funcionamento do restaurante e tenha algumas questões que gostasse de ver respondidas. Será que é possível recorrer ao serviço McDrive indo a pé, fazendo de conta que está num carro invisível?

Ou que, por vingança, os funcionários trocam os pedidos de clientes indelicados? Pois bem, aqui na MAGG também somos muito curiosos e fomos à procura de respostas a estas e mais perguntas que sempre quis fazer mas que nunca teve coragem para perguntar.

Para isso, falámos com Joana Garcia (nome fictício), ex-funcionária da McDonald’s que durante quatro anos trabalhou num dos restaurantes da marca em Lisboa.

Alguma vez tirou uma ou duas batatas fritas do pedido de um cliente?

Não, mas às vezes tinha muita vontade. Como a cozinha fica à frente do balcão, o cliente consegue ver tudo aquilo que está a acontecer e se nos visse a fazer algo do género era o suficiente para ficarmos em grandes sarilhos.

O que acontece regularmente é clientes roubarem batatas de outros pedidos que se encontram no balcão à espera de serem recolhidos. Mas isso já é um problema que a nós não nos dizia respeito.

É possível ir ao McDrive sem carro?

Só de mota ou qualquer outro veículo motorizado. Muita gente tentava ir de bicicleta ou trotinete. Chegou até a haver casos em que as pessoas iam a pé e fingiam que estavam num carro invisível. Eram momentos engraçados.

Qual foi o pedido mais estranho que alguma vez teve de preparar?

Não houve assim nada de especial, ou então fui-me habituando aos clientes. Por vezes pediam-nos hambúrgueres sem pão, batatas quase queimadas ou até mesmo Cheeseburguers sem queijo. Fora disso nunca houve nada muito estranho. “Nógas” e “sundáis” contam?

De onde veio o mito de que há minhocas nos hambúrgueres? É real?

Creio que começou em alguns países em que a segurança alimentar não é uma prioridade. Mas é 100% mentira, a carne utilizada em todos os restaurantes é de vaca. A única coisa boa que esses rumores trouxeram foi mais e novas fiscalizações.

Todos os meses tínhamos pelo menos duas visitas da ControlVet — uma empresa focada em segurança e higiene alimentar — para garantir todas as condições de limpeza e segurança no trabalho e era quase impossível falhar.

Já alterou o pedido de um cliente por ter sido indelicado?

Imensas vezes, até porque havia clientes indelicados todos os dias. Trabalhar na McDonald’s é um trabalho bastante ingrato — quem está de fora pensa que quem lá trabalha não tem estudos ou não sabe fazer outra coisa.

O que as pessoas não sabem é que a maioria dos funcionários têm cursos superiores, mestrados ou doutoramentos. Pode-se até dar o caso de terem dois ou três trabalhos para poderem pagar a renda da casa ao final do mês, ou estarem ali apenas para aprender.

A McDonald’s é uma grande escolha para quem quer começar no mercado de trabalho e, principalmente, aprender o básico no que toca ao atendimento ao público. Pessoalmente, apanhei de tudo a atender ao balcão e confesso que acabei por não ser tão profissional quanto devia.

“Não queres cebola? Então toma lá dois quilos para não te armares em esperto.” E o mais engraçado é que grande parte desses clientes difíceis nem reparava. Queriam só dar trabalho.

Em alturas de grande afluência é normal que os pedidos sigam menos compostos?

Sim, totalmente. Em horas de grande movimento, tudo pode correr mal se as coisas não estiverem previamente preparadas. Não há milagres e chega mesmo a haver situações em que faltam ingredientes — como a cebola desidratada ou um certo tipo de queijo que vai no Double Cheeseburger.

Nessas situações, mandamos o hambúrguer com outro queijo e embora não o possamos fazer, os clientes não reparam.

Qual o facto mais surpreendente acerca da McDonald’s que ninguém conhece?

A oportunidade que dá aos jovens de subir na carreira. Todos os funcionários têm uma formação bastante intensa e todos têm de estar capazes de assumir sem medos um posto.

Só se comem caracóis em meses sem “r”, certo? Pois bem, estamos em maio. E são mesmo um bom petisco?

É também muito fácil subir nos quadros da empresa e a grande maioria dos que hoje estão em escritórios com cargos importantes começaram com a rede na cabeça, como qualquer um. Em quatro anos, mudei bastante como pessoa e como funcionária e sinto que depois desta experiência, estou apta para qualquer trabalho.

São obrigados a lavar as mãos regularmente enquanto estão a trabalhar?

Com as fiscalizações, a lavagem das mãos passou a ser uma das coisas mais verificadas. Nas visitas da ControlVet chegavam a verificar as nossas mãos com cotonetes, tipo CSI, e levavam para análise.

Antes havia uma folha que tínhamos de assinar sempre que lavávamos as mãos e tinha de ser de 30 em 30 minutos, ou sempre que necessário. Mais tarde criou-se um leitor biométrico onde cada funcionário registava a lavagem das mãos.

Sempre que era hora, ouvia-se um alarme e tínhamos de ir. Sem exceção. Por causa disso, acho que fiquei viciada em lavar as mãos e tornei-me germofóbica. Por causa da higiene também não podíamos usar anéis ou jóias, nem ter as unhas arranjadas — tinham de estar sempre cortadas e nunca roídas.

Ao mexer em carne crua, faziam-no com ou sem luvas? Qual é o regulamento?

Só usávamos luvas ao mexer em carne crua. Ao condimentar os produtos era mais higiénico usar as mãos desprotegidas já que as luvas apanhavam pó e gordura. O facto de estarmos constantemente a lavar as mãos também tornada tudo mais seguro e higiénico.

A carne está congelada e depois é grelhada em temperaturas muito elevadas, tornando todo o processo seguro.

A roupa e o corpo ficavam constantemente a cheirar a fritos depois de cada turno?

No início notava-se bastante. A roupa, os sapatos, a pele, tudo. Depois acho que acabei por não estranhar o cheiro e já não me fazia confusão. Agora que saí, noto cada vez mais — especialmente no carro.

De todo o menu qual é o produto mais nojento e porquê?

Eu gostava de tudo, mas acho que o mais nojento é o leite do gelado Sundae. Nunca gostei de leite e aquele específico deixava-me especialmente enjoada. A sopa também, talvez pelo facto de me fazer confusão ver sopa já preparada e embalada ser colocada a ferver.

Havia clientes regulares que repetissem o mesmo pedido?

Sim, tínhamos imensos clientes habituais que mal entravam nós já sabíamos o que iam pedir. E eles adoravam que puséssemos batatas a fritar assim que os víssemos a entrar.

Mas também havia outros que eram tão picuinhas que nós pedíamos a todo o pessoal da cozinha para ter atenção ao pedido deles só para não termos de levar mais com eles.

Salmão. Esqueça a ideia de que este peixe é do melhor que se pode comer (não é)

Lembro-me de uma criatura que vinha de um escritório, sempre de fato e auriculares nos ouvidos a fazer imensas chamadas — aquele tipo de chamadas que parecem de vida ou de morte em negócios. “Compra, fecha negócio, não deslizes. Estás despedido”, era o que ouvia muita vez.

Ele falava connosco ao mesmo tempo que falava ao telemóvel e nem sequer tinha o cuidado de dizer um simples “bom dia”, “obrigado” ou “por favor”. Pedia sempre o mesmo: Double Cheeseburger sem mostrada e sem pickles, e depois deixava tudo espalhado pela mesa. Nunca me esqueci.

Os funcionários podem ficar com os bonecos do Happy Meal?

Tecnicamente não. Todos os bonecos eram contados e os que ainda não tivessem sido vendidos não podiam ficar para nós. Claro que havia quem abusasse e completasse a coleção toda do Pokémon, mas regra geral era proibido.

Os que encontrássemos na sala podiam ficar para nós, e muitas vezes até eram os clientes que nos ofereciam.

Os funcionários têm direito a comida grátis?

O nosso subsídio de alimentação era em refeições e não em dinheiro. Havia um montante por dia que podíamos usar para comer mas, se gastássemos tudo, nunca nos negavam um hambúrguer.

Ainda assim, era algo bastante controlado porque havia sempre alguém que abusava.

O seu peso aumentou durante o tempo que trabalhou lá?

Não, muito pelo contrário. É um trabalho muito cansativo já que passamos oito horas, às vezes mais, a correr de um lado para o outro. O stresse era tanto que acabava por queimar as calorias que ingeria com as batatas fritas e os molhos.

Quando entrei, pesava mais 15 quilos do que quando saí, mas confesso que depende muito de pessoa para pessoa. Eu levava a marmita de casa (usava o subsídio maioritariamente em fruta e água) e tinha algum cuidado com o que comia, mas conheci algumas colegas que engordaram bastante.

Quais os pedidos mais populares?

O Big Mac, sem dúvida. É conhecido aqui e na China — é universal e é mesmo bom. Os McNuggets e o McFlurry de M&M’s também saem bastante.

O que acontece à comida que não é vendida?

Antes havia uma plataforma de condimentação que nos fazia desperdiçar muita comida. Era uma estufa onde colocávamos a média dos produtos já preparados que esperávamos que fosse sair e tinha um tempo de validade de sete minutos. Quando passasse esse tempo, iam para o lixo.

Agora as coisas são diferentes e o produto só é feito quando o cliente faz o pedido. Por isso, só vão para o lixo quando ficam frios ou há algum erro com o pedido. Mas a quantidade de desperdício é muito reduzida.

Num dia bom, quanto é que aquele McDonald’s onde trabalhava vendia?

Num dia bom chegávamos a fazer entre 16 a 19 mil euros. Num dia mau, 9 mil. Parece muito dinheiro mas depois de se fazer as contas aos fornecedores, ordenados, luz, água, e publicidade, talvez não seja assim tanto.

O menu de pequeno-almoço só funciona das 8 às 11 horas na maioria dos restaurantes. Porquê?

Nos restaurantes em que não existe McCafé o pequeno-almoço só funciona nesse horário por uma questão de logística. No restaurante onde eu trabalhava, havia três grelhadores em que um deles estava reservado aos pedidos do pequeno-almoço, como ovos, bacon, tostas e torradas.

Era proibido usarmos os grelhadores das carnes para os pedidos de pequeno-almoco, mas a partir das 11 horas tínhamos que dar prioridade aos almoços.

Alguma vez foi abordada de forma indecente só por ser mulher?

Infelizmente, sim. Muitas vezes. Principalmente porque eu fazia o horário de tarde e de noite. No McDrive apareciam vários clientes indelicados com as mais variadas abordagens que me deixavam desconfortável.

Na sala era pior — cheguei a ser abraçada e beijada na cara. Mas não era só a mim, acontecia a todas as minhas colegas. Não era, de todo, uma situação agradável.

Hoje ainda consome produtos da McDonald’s?

Não, não consigo comer. A minha visão em relação à marca mudou no sentido em que agora sei que os produtos são preparados com cuidado, tendo em consideração todas as normas de higiene e segurança.

Mas já não sou de ir a um dos vários restaurantes espalhados pela cidade e pedir um hambúrguer. Quando muito peço uns McNuggets mas não passa disso.

Fartei-me, simplesmente. Mas depende de pessoa para pessoa — o meu namorado, por trabalhar num dos restaurantes, come hambúrgueres da McDonald’s todos os dias e não se cansa. Eu prefiro comida de prato.