Cosmética biológica. Que produtos são estes e se são melhores para a pele

Sejam cremes para a cara, corpo, maquilhagem ou champô, a cosmética biológica tem ganho destaque. A MAGG foi descobrir se vale a pena.

A cosmética biológica não se preocupa apenas em usar produtos naturais: preocupa-se com o ambiente, com os animais, e ajusta-se à necessidade das pessoas

Ian Dooley/Unsplash

Comprar e usar produtos sustentáveis para o ambiente e para a saúde humana tem vindo a tornar-se numa preocupação cada vez mais maior. A elevada procura de produtos de cosmética biológica, natural e vegana fez com quem nascessem algumas marcas destes produtos. Mas a verdadeira pergunta é: eles funcionam mesmo? A MAGG foi descobrir qual a grande diferença entre estes e os produtos de cosmética convencional.

Natural, Vegan e Biológico são conceitos diferentes

Muitas vezes os termos natural, vegano e biológico são tidos como sinónimos, no entanto estão associados a produtos com características diferentes: “Cosméticos naturais são os que têm na sua constituição componentes naturais. Mas isso não quer dizer que o produto seja 100% natural. Qualquer marca que use, por exemplo, um estrato de cenoura, camomila ou qualquer ingrediente do mundo natural, depois pode juntar outro tipo de produtos, derivados do petróleo e produtos sintéticos, e continuar a ser natural”. Quem explica é Cátia Curica que, juntamente com a irmã, é proprietária da Organii, a primeira empresa em Portugal especializada em cosmética biológica. Os produtos veganos também podem ser confusos de definir, mas  Cátia afirma que “quando falamos de um produto vegano, estamos a falar de um produto que não use nenhuma parte proveniente do animal, nem nenhum derivado (como cera de abelha, por exemplo)”. No entanto, estes produtos veganos podem conter produtos sintéticos que podem fazer mal ao ambiente, e não ser o melhor para a pele, apesar de não serem de nenhum animal.

A cosmética biológica nasceu da necessidade de se diferenciar da cosmética natural, pois o termo “biológico” obriga a que esta seja composta por produtos 100% naturais, ou seja, sem aditivos. E quando existe a necessidade de ter aditivos eles têm de ser o mais natural possível, ser permitidos na indústria alimentar e estar testados para que se possa comer e não só colocar na pele, de forma a que estes produtos sejam o mais seguro possível para a saúde, e não só. “A cosmética biológica exige também que, por exemplo, as embalagens sejam recicláveis, as tintas, amigas do ambiente, que as fábricas usem baterias renováveis, que as suas limpezas sejam feitas com produtos amigos do ambiente, que os produtos não sejam testados em animais e que as matérias primas também não o sejam”. Assim, a cosmética biológica não é, necessáriamente, vegana mas, existem produtos de cosmética biológica que são veganos (e, portanto, não usam produtos provenientes de animais).

Na opinião de Cátia Curica são todas estas coisas que fazem com que esta seja a cosmética mais pura, “com ingredientes verdadeiramente vindos da natureza”, e benéfica a nível ambiental, para os animais e que também se ajusta às pessoas.

A forma de atuar dos cosméticos é diferente, mas podem ter o mesmo efeito

Cátia vivia com um problema constante: a sua pele não aguentava os produtos convencionais que usava. O facto de ter a pele muito sensível e fazer alergias muito frequentes fazia com que fosse díficil encontrar o creme ou champô ideais, mas tudo mudou quando experimentou a cosmética biológica: “Quando comecei a utilizar a cosmética biológica comecei a perceber que a minha pele não fazia alergia nenhuma porque aquilo que me acontecia, normalmente, era uma reação alérgica à maioria dos produtos sintéticos que os todos produtos convencionais tinham”. Depois disso não os deixou mais.

Mesmo sendo cada vez mais uma área procurada pelos consumidores, ainda se levantam algumas questões quando se fala em produtos de cosmética biológicos, nomeadamente se eles funcionam mesmo e se são tão seguros quanto os que se vendem nas farmácias. Cátia Curiça afirma que os produtos têm o mesmo efeito, mas “trabalham de formas diferentes”, e tudo tem a ver com a abordagem: os produtos biológicos vão à raiz do problema. “Enquanto que um produto para o acne convencional vai tentar eliminar o acne, o produto biológico vai tentar ir à raiz do problema, para que o acne desapareça e a pele fique novamente equilibrada. O objetivo é realmente tratar em profundidade e perceber porque é que a pele está a reagir assim, e dar-lhe o que ela precisa para deixar de produzir tanto acne.”

A diferença não é só esta: os produtos biológicos atuam de forma diferente pois têm moléculas naturais, enquanto os produtos convencionais têm moléculas sintéticas, e elas têm tipos de  gorduras diferentes. As gorduras no seu estado natural, encontradas nos produtos biológicos, são as mais fáceis de ser digeridas pelo corpo. A grande questão é que, “muitas vezes, na cosmética convencional usam-se ingredientes que atuam de forma mais rápida. Mas, a longo prazo, não se vai sentir diferença nenhuma, pelo contrário, a pele fica realmente melhor com os produtos de cosmética biológicos, porque conseguiu absorver na totalidade aquilo que lhe está a ser posto em cima“. Num creme convencional, há sempre uma parte absorvida e outra parte que é descartada, que contém silicone, derivados do petróleo e parafinas que o corpo não absorve.

A mesma coisa funciona tanto com o acne como com o anti envelhecimento ou outro problema de pele: estes produtos vão ver exatamente o que é que a pele precisa, se é água, óleo ou ácido hiaulorónico, e vão fornecendo isso à pele utilizando alternativas naturais. “As pessoas sentem que a performance não é exatamente a mesma nos desodorizantes: estão muito habituadas aos anti-transpirantes e na cosmética biológica eles não existem. Mas existem muitos desodorizantes eficazes. Muitas vezes o que acontece é que a pessoa não acerta à primeira porque existem diversos tipos que funcionam de maneiras diferentes e cada pessoa tem de experimentar e ver qual o ideal para si própria”, conclui Cátia.

Sara Silva tem 34 anos e é já usa produtos orgânicos há um ano, não só para a cara, mas para o corpo e cabelo. Admite que o efeito dos produtos não é imediato mas que, ao fim de uma embalagem, já se nota bem a diferença: “Eu usava produtos bastante caros, e claro que eles estão cheios de tudo e mais alguma coisa e o efeito é quase imediato, portanto senti uma diferença quando mudei. Como eu tenho uma pele muito desidratada e passo muitas horas sob luz artificial foi-me aconselhada, na Organii, uma linha à base de água e eu senti uma diferença na minha pele, para melhor. Com produtos melhores e a um preço melhor, estava fantástica”. Com os produtos para o cabelo a mudança ainda foi mais notória: “Tive uma queda de cabelo há cerca de um ano por causa de problemas de fígado e, quando mudei para os produtos orgânicos, o meu cabelo ficou extraordinário: o brilho, a textura, o volume, o aroma, ficou tudo melhor. Nesses produtos também se sente mais a diferença de preços, mas vale muito a pena. Eu já não consigo usar mais nada”. Para além de tudo isto, o preço ainda é mais apelativo do que os dos produtos convecionais: “As pessoas podem pensar que os produtos orgânicos são mais caros mas é uma ideia errada. O valor de toda a gama que eu comprei era o valor que eu dava apenas pelo serúm da outra marca”, conta.

Os produtos têm de ser sempre testados na pele antes de serem utilizados. Atualmente no mercado existem vários produtos hipoalergénicos e é bom alertar para que, independentemente do creme, se a pessoa tem uma pele reativa, deve aplicar primeiro numa zona limitada do corpo.”

A dermatologista Joana Coelho afirma que “todos os produtos podem ter ações semelhantes porque vêm da mesma origem”. No entanto, lembra que o desempenho do produto “depende sempre de pessoa para pessoa. Os produtos têm de ser sempre testados na pele antes de serem utilizados. Atualmente, no mercado existem vários produtos hipoalergénicos e é bom alertar para que, independentemente do creme, se a pessoa tem uma pele reativa, deve aplicar primeiro numa zona limitada do corpo”.

Cátia Curica lembra que “toda a cosmética biológica está sob alçada do infarmed, e todos [os cosméticos] estão sob a alçada das mesmas regras: têm de ter protetor solar, corresponder às mesmas características da União Europeia, ser testados dermatologicamente e todas as outras questões que são obrigatórias por lei”.

A maquilhagem ainda é uma área a trabalhar

Na área dos comésticos biológicos, a maquilhagem é a parte que deixa mais a desejar: nos cosméticos biológicos não vai encontrar uma maquilhagem impermiável que dure até 12 horas. Cátia Curica explica que “é uma maquilhagem que conseguimos ter em quase todas as cores e com performance semelhantes mas, na duração, não é igual porque não é sintética. Por exemplo, se usar um produto sintético (como de plástico) ele nunca vai ser absorvido pela pele. Mas, se usar um natural, ele vai acabar por ser absorvido e não vai durar tanto” porque ainda não foi descoberta nenhuma fórmula natural que o permita.

Para Sara Silva esse é o principal ponto que ainda não a fez avançar para a maquilhagem biológica: “Eu falo por mim quando digo que preciso de uma maquilhagem que resista o dia inteiro, e o que acontece, principalmente nas máscaras de pestana orgânicas, é que ao longo do dia ela vai-se desfazendo e vai caindo. E para mim isso não é viável. Eu acho que isto ainda está muito no início e ainda é uma área a explorar”, conclui.

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