Em 2017, foi anunciada uma nova expansão para o jogo “Os Sims 4”, que introduziu a possibilidade ao jogador de cuidar das suas mascotes, como cães e gatos. A ideia era a de permitir uma experiência de jogo mais realista, que fosse ao encontro do quotidiano dos jogadores e permitisse uma interação quase ilimitada com o simulador. Mas antes disso já os “Tamagoshi” tinham feito furor na década de 90 — os bonequinhos adoráveis que ficaram conhecidos pelos constantes pedidos de afeto e atenção. A utilização de mascotes no meio virtual não é novidade, mas só agora começou a render (muito) dinheiro. 

Tudo começou com a febre das moedas digitais, geralmente conhecidas como criptomoedas. São moedas tal como o Euro ou o Dólar, em que a única diferença está no facto de não serem impressas ou reguladas por uma unidade central. São totalmente digitais, pelo que não existem em formato papel, e especula-se que o valor total deste mercado esteja avaliado em 300 mil milhões de dólares.

O que são as criptomoedas?

A tecnologia que está na base das criptomoedas apelida-se de blockchain — ou cadeia de blocos, em português —, e garante não só a segurança mas também a descentralização da informação. Os dados referentes às transações efetuadas com uma criptomoeda (e são várias) não são guardados nem monitorizados em servidores.

Ao invés disso, estão disponíveis para a consulta de todos os utilizadores, que garantem a encriptação e, por sua vez, a segurança e transparência do processo. Longe do olhar de autoridades responsáveis pelo controlo financeiro.

Em sete dias, gastei 18h27 minutos agarrada ao telemóvel

A moeda mais conhecida é a Bitcoin, mas não é a única. A Litecoin é outro tipo de moeda digital que tem vindo a ganhar relevância, tudo graças à Ethereum — uma plataforma aberta que permite que qualquer pessoa possa criar a sua moeda digital.

Estas moedas são exatamente iguais às moedas “normais”. Podem ser utilizadas para transações de compra e venda, mas não são emitidas por bancos centrais. Por isso, não estão sujeitas às taxas estabelecidas pelos bancos, e seu o valor pode sofrer várias alterações ao longo do tempo, consoante o grau de oferta e procura dos utilizadores.

As moedas digitais e as mascotes virtuais

Em fevereiro deste ano, foi anunciado o jogo “CryptoKitties” que, baseado na plataforma Ethereum, junta o melhor de dois mundos: o das criptomoedas e o dos videojogos.

O utilizador tem a possibilidade de comprar e vender gatos virtuais que, consoante a raridade das suas características poderão valer quantidades exorbitantes de dinheiro. A moeda usada nas transações chama-se Ether e, adivinhou, é mais uma de muitas moedas digitais.

O jogo é um misto de “Tamagotchi” com “Os Sims” e até mesmo “PokémonGo“. Não, tem de andar pela rua à caça de bichos, mas terá de cuidar dos gatos e até encontrar parceiros ideais para procriar com o seu felino virtual. O gato bebé que resultar dessa união poderá valer milhares de dólares. No site oficial do jogo há uma listagem de todos os gatos disponíveis para venda. Os valores apresentados estão em Ether e podem ir dos 0,002 aos 1,00000 ETH — o que corresponde a 0,67 e 33 milhões de euros, respetivamente.

Em "Etheremon" os cães e os gatos são substituídos por criaturas fantásticas (e muito valiosas)

Etheremon

Mas este não é o único caso no mercado. No início de 2018 foi a Baidu, a tecnológica Chinesa, a lançar o jogo “Leci Gou” cuja ideia é muito semelhante à do jogo “CryptoKitties”, só que com cães. Dias depois, surgiu o jogo “Etheremon” que trocou cães e gatos pelos monstros fantásticos. Mas a ideia mantém-se inalterada: colecionar, gerar mais bonecos através da procriação com outros avatares digitais, e vendê-los por dinheiro real.

A adesão dos utilizadores a este tipo de plataformas é muito positiva e mostra que há um mercado por explorar. Prova disso é o anúncio da Axiom Zen, responsável pelo “CryptoKitties”, que revelou ter recebido um investimento de 12 milhões de dólares por parte dos acionistas, após o sucesso crescente da plataforma em todo o mundo.

Por ser uma tecnologia ainda muito recente, o processo de configuração para o correto funcionamento dos jogos pode assustar os jogadores mais casuais. Além de um navegador compatível com as plataformas web, como o “Google Chrome” ou o “Firefox”, é necessário ainda a instalação de um software chamado “MetaMask” — uma carteira digital que lhe permitirá guardar as moedas virtuais usadas no jogo.

À revista “Ozy”, Emin Gün, professor universitário de Computação Científica, diz que apesar do sucesso destas plataformas, “continua a ser um meio muito restrito em que só os mais experientes a nível tecnológico se sentem aliciados a experimentar.” Defende, porém, que há vantagens claras face aos jogos tradicionais, já que estes podem ser descontinuados assim que os produtores dos mesmo assim o entenderem.

No caso dos jogos em blockchain, são os próprios utilizadores que sustêm a plataforma e mantêm o jogo vivo, e Emin não tem dúvidas que “a união entre os videojogos e a tecnologia das criptomoedas chegou para ficar.”