Numa altura em que as redes sociais vieram permitir a ligação de milhares de utilizadores por todo o mundo, as expressões bullying e cyberbullying são cada vez mais ouvidas e utilizadas. Apesar de operarem em contextos diferentes, significam o mesmo — humilhar, ofender, ridicularizar e causar sofrimento a alguém. Quando o assédio e o abuso acontecem na vida real, podem muito bem continuar no meio digital. Ou começar aí.

Portugal não foge a esta realidade. Há vários estudos que o comprovam. Em 2015, na Universidade do Minho, o investigador Nuno Manuel Martins Montalvão recolheu testemunhos de mais de 190 alunos, com idades compreendidas entre os 12 e os 18 anos, em duas escolas secundárias do concelho de Chaves.

Os resultados mostraram que cerca de metade dos inquiridos (47%) diziam ter sido testemunhas de situações de assédio e abuso continuado em plataformas online. 6% dos alunos admitiu ter sido vítima de cyberbullying pelo menos uma vez, e outros 6% reportaram já ter ofendido, humilhado, ou ameaçado terceiros de forma contínua e regular.

Já em 2009 um inquérito realizado com mais de 200 crianças pela investigadora Lúzia Pinheiro, da mesma universidade, indicava que um em cada dez alunos portugueses já tinha sido vítima de cyberbullying.

Maria Cunha Louro, psicóloga forense e professora na Universidade Lusófona, diz à MAGG que antes das redes sociais e dos telemóveis inteligentes, já se assistia a casos de violência e assédio em salas de chat, mas que a “evolução no uso das tecnologias de informação e comunicação levaram a novas formas de cyberbullying.”

Atenção aos sinais. O seu filho pode estar doente por causa da internet

O que é o cyberbullying?

O assédio online manifesta-se quase sempre através do insulto recorrente, da partilha de fotografias, vídeos e fotomontagens com o intuito de humilhar a vítima. Mas cada caso é diferente, na medida em que pode ser mais contido e estar limitado à interação entre o agressor e a vítima, como também pode envolver terceiros. Como, por exemplo, quando o agressor partilha qualquer tipo de conteúdo nas redes sociais para expor a vítima ao escrutínio público, ou quando são vários os agressores a difundir informação pessoal da vítima para colocar em causa a sua integridade física e psicológica.

Para que um comportamento seja considerado um caso de assédio, Maria Louro diz que tem de haver intencionalidade do comportamento, prática reiterada e a existência de um desequilíbrio de poder entre a vítima e o agressor, independentemente da idade. “Todo o cyberbullying é uma agressão, mas nem toda a agressão é classificada como bullying”, alerta.

“Quando falamos de assédio, não devemos colocar a questão em termos de gravidade, porque esta depende sempre da perceção da vítima, da fragilidade psicológica e da relação com o agressor”, continua, e diz não ter dúvidas que todo o assédio é grave por constituir um atentado “aos direitos fundamentais, no que toca ao respeito, à privacidade e à liberdade.”

A psicóloga alerta ainda para a necessidade de acompanhar cada caso com a devida atenção, já que há a possibilidade de uma situação de assédio online facilmente se transformar numa perseguição na vida real, fora dos limites do meio digital.

O “fenómeno sem rosto”

Para a psicóloga não há dúvidas que o anonimato promovido pelas redes sociais “favorece e potencia a violência”, mas também dificulta o trabalho das autoridades judiciais em identificar os possíveis autores dos atos de violência.

É que a facilidade com que se cria um perfil falso constitui um dos problemas fundamentais para combater aquilo é também conhecido como o “fenómeno sem rosto” — no meio digital, em que os agressores podem ser vários, a dificuldade está em compreender a origem do ataque e quais as motivações dos envolvidos.

Stalking: um crime real entre pessoas reais

O facto de este tipo de assédio ser praticado exclusivamente online, seja nas várias plataformas sociais ou através de aplicações de mensagem, implica que o agressor não tem de confrontar a vítima de forma direta. Por isso, poderá sentir-se menos inibido no momento da agressão.

Em casos de cyberbullying podem existir até três intervenientes — a vítima, o agressor, e as testemunhas. Assim, o bully é também aquele que contribui para o ciclo da agressão, mesmo que não esteja de acordo com o que está a acontecer (pode-se dar o caso de estar a ser coagido a participar na agressão ou na difusão de conteúdo sob pena de, na falta de cooperação, sofrer represálias e passar ao papel de vítima).

A lei é clara: a divulgação de fotografias ou vídeos sem a autorização dos visados constitui crime de devassa da vida privada e diz a psicóloga que o primeiro passo deve ser sempre um pedido de ajuda, falando com alguém de confiança de forma a evitar o isolamento total da vítima.

Quem são os mais afetados?

Maria Louro revela que os indivíduos com maior tendência para serem afetados são aqueles mais “tímidos, ansiosos, inseguros, com baixa autoestima, pouco sociáveis, com dificuldades de defesa, de expressão e relacionamento.” Após um primeiro caso de assédio, continua, as vítimas sentem-se fragilizadas e indefesas, o que poderá favorecer uma vitimização continuada.

Mas há também sintomas físicos decorrentes do trauma, como “estados ansiosos e ataques de pânico que levam a vítima a experienciar sentimentos de grande insegurança e vulnerabilidade”. A vergonha e o isolamento são dois fatores importantes que, muitas vezes, impedem a vítima de expor a situação e denunciar os agressores, permitindo que estes saiam impunes.

A psicóloga alerta ainda para a inversão de papéis que o cyberbullying possibilita. “As vítimas apresentam, posteriormente, maior predisposição para passarem de vítima a agressor e perseguirem outros online”, continua.

Como minimizar o risco na era digital?

Numa altura em que a tendência é para se estar constantemente online, a psicóloga conta que são as crianças quem mais estão expostas nas redes sociais. “Há uma partilha excessiva da vida dos menores” por parte dos pais, que se identifica como sharenting.

Há uma idade mínima para começar a interagir com o mundo online?

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A psicóloga Maria Cunha Louro diz que o Facebook e o Instagram são as duas redes sociais mais utilizadas pelos jovens, e aconselha a idade mínima de 13 anos para a criação de um perfil online e para a interação com os restantes utilizadores.

Ainda assim, diz também que os pais devem assumir uma atitude proativa na educação das crianças face aos riscos e potenciais perigos que o contexto online promove. A ideia é alertar os filhos para práticas de navegação saudáveis de maneira a prevenir ou minimizar situações de abuso.

Apesar de ainda se discutir o direito dos pais à partilha de todo o conteúdo relacionado com a vida dos filhos e o direito à privacidade das crianças, a psicóloga defende que “há muitas pessoas que não dão a devida importância, ou não têm consciência, dos perigos que a internet comporta.”

Por isso, de maneira a promover práticas de navegação segura a psicóloga recomenda que o computador seja colocado num local comum, onde todos os membros da família passem mais tempo e possam monitorizar regularmente a atividade online do menor. Mas reconhece que possam existir dificuldades.

“Embora haja, por vezes, uma fronteira muito ténue entre proteger e censurar, os pais devem adotar uma postura educativa e de responsabilidade em que o axioma deverá ser o de ‘mais vale prevenir do que remediar'”, especialmente numa altura em que as crianças não têm a capacidade de entender os conteúdos que lhes são apresentados em plataformas digitais.

As vítimas têm sempre alterações comportamentais

Embora seja difícil identificar casos de assédio e violência online, os principais sintomas são psicossomáticos, garante a psicóloga. “Distúrbios nos padrões de sono, demonstrações constantes de tristeza, irritabilidade e agressividade, transtornos de ansiedade, atos deliberados de autoagressão e, em situações de extremo sofrimento, tentativas de suicídio”, são alguns dos sinais a que se deve estar atento.

Como podem os pais ajudar os filhos a ultrapassar situações de abuso online?

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Ao descobrir um caso de assédio online, é importante que os pais não desvalorizem o sofrimento do filho. É necessário, em primeiro lugar, que haja um canal de comunicação de confiança entre os pais e a criança, para que esta se sinta confiante em falar e expor o caso.

“É importante uma escuta ativa, sem juízos de valor”, reforça Maria Cunha Louro. Depois de confirmadas as suspeitas, a psicóloga diz que é necessário agir de imediato mas respeitando sempre o timing da criança. “De forma a evitar consequências drásticas, em situações-limite, deve-se procurar ajuda de profissionais habilitados a lidar com esta problemática”, continua.

Há duas linhas de apoio que podem ser utilizadas em caso de necessidade.

Linha de Internet Segura: 800 21 90 90

Linha Alerta (para denúncias de situações de abuso online): 800 200 212

À MAGG, a psicóloga Isabel Cavadas recorda o caso de um menor cujos padrões comportamentais se alteraram de um momento para o outro. “Havia situações em que a criança se resguardava cada vez mais, passava longos períodos de tempo no quarto, e ria-se para o telemóvel sem razão aparente”, revela.

Só mais tarde se veio a descobrir que a criança estava num chat com outras crianças da mesma idade, em que lhes eram pedidas fotografias íntimas. Devido à imaturidade e à fase inicial de exploração da sexualidade, as crianças enviavam as fotografias para desconhecidos, colocando em risco o seu direito à segurança e à privacidade.

“É essencial compreender todos os indicadores de alerta”, como a manifestação de comportamentos atípicos nas crianças que podem levar a consequências trágicas e, muitas vezes, fatais.

O papel dos professores e educadores é essencial

Apesar de já estarem em vigor programas de sensibilização para o cyberbullying, Maria Louro diz que a melhor forma de abordar a questão é adequá-las ao contexto já que, continua, “há uma tendência para generalizar os casos o que, por sua vez, conduz à banalização” de um tema grave e sério.

“Os professores são agentes determinantes na deteção de problemas e na procura de resoluções”, e sugere a psicóloga que deveriam ter mais formação nestas matérias de maneira a oferecer respostas adequadas consoante a situação que lhes é apresentada.

A integração de mais psicólogos nas escolas também é fundamental, mas mais ainda é a “introdução destas temáticas nos termos curriculares do ensino” ou seja, transportar o tema para os manuais escolares de maneira a fazer chegar a informação a um maior número de crianças. Isto levará a que as crianças, quando confrontadas com situações de abuso, se sintam na capacidade de as confrontar e denunciar.