Serão perto de 200 mil os portugueses que têm doenças sexualmente transmissíveis, o correspondente a aproximadamente 2% da população. Foi esta a conclusão do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge que, em outubro do ano passado, divulgou o Inquérito Serológico Nacional 2015-2016. As doenças sexualmente transmissíveis (DST) entraram pela primeira vez neste relatório, que contou com a participação de 4.866 pessoas.

O dado mais preocupante foi para o número de pessoas com clamídia — 2,7% da população portuguesa com 18 ou mais anos está infetada com a bactéria, concluiu o inquérito. Segue-se, com 2,4%, a bactéria Treponema pallidum, que causa a sífilis.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de um milhão de pessoas são infectadas todos os dias com doenças sexualmente transmissíveis. Todos os anos, estima-se que quatro DST causem mais de 350 milhões novas infeções em todo o mundo: tricomoníase (143 milhões), clamídia (131 milhões), gonorreia (78 milhões) e sifilis (5,6 milhões).

Temos mais dados. De acordo com as estatísticas mais recentes da OCDE, a clamídia é a DST com os casos mais notificados na Europa, com um valor médio de 187.2 casos por 100 mil habitantes. Os países com os piores números são a Dinamarca, Reino Unido e Malta.

Os números são assustadores, mas podem ser ainda piores: uma vez que se trata de uma doença assintomática, desconhece-se quantas pessoas estão de facto infectadas. O rastreio é importante, sobretudo em pessoas com menos de 26 anos — algo que é altamente descurado.

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Pode ser transmitida por via sexual anal, vaginal ou oral, no entanto consegue ser uma doença silenciosa — nos estágios iniciais geralmente não há sintomas, quando se manifestam tendem a ser fracos e passageiros. Tem cura, mas pode haver reinfeções. O ginecologista Pedro Vieira Baptista explica tudo.

1. Que doença é esta?

A palavra correta é clamídia, e é o nome dado a uma infeção causada pela bactéria Chlamydia trachomatis. Afeta tanto homens como mulheres.

2. Como é transmitida?

A clamídia é “transmitida quase exclusivamente por via sexual”. Qualquer pessoa pode contrair clamídia fazendo sexo vaginal, anal ou oral com alguém que tem esta infeção. E pode contraí-la várias vezes — basta que continue a ter relações desprotegidas com alguém que tenha clamídia.

Outra forma possível é ser passada durante a gravidez da mãe para o filho. De acordo com a Direção-Geral da Saúde (DGS), a transmissão da infeção ao feto verifica-se na altura do parto, realizado por via vaginal — a probabilidade varia entre 18 e 74%. Mais raramente pode verificar-se in utero.

3. Os sintomas da doença

“Na maior parte dos casos, a infeção é assintomática — até perto de 70%”. Quando há sintomas, as queixas mais frequentes são as seguintes:

Mulheres
. Aumento do corrimento vaginal;
. Hemorragias após o coito;
. Spotting, isto é, pequenas perdas de sangue fora da menstruação.

Homens
. Dor ou sensibilidade testicular

“Tanto em homens como em mulheres pode haver sintomas de uretrite (ardor miccional, corrimento uretral) ou de proctite (dor e/ou escorrência anal). Em casos mais graves, pode haver algumas complicações associadas, nomeadamente dor abdominal e febre.

4. Como reduzir o risco de contrair clamídia?

A única maneira de não apanhar DST é não tendo relações sexuais vaginais, anais ou orais. Se é sexualmente ativo, pode diminuir fortemente as probabilidades de contrair esta doença usando preservativo.

5. Como é feito o diagnóstico?

Segundo a OMS, os testes são feitos em laboratório. Os médicos podem usar uma amostra de urina ou fazer uma colheita na vagina.

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6. A clamídia tem cura?

“Tem cura, mas pode haver reinfeções – que, aliás, parecem ter um papel importante em termos de complicações”. Tomando os medicamentos prescritos pelo médico, a infeção é interrompida e diminui a probabilidade de ter complicações mais tarde. “Há estudos em curso para o desenvolvimento de uma vacina, mas para já ainda não é uma realidade.”

7. O que acontece quando a clamídia não é tratada?

“Regra geral, a infeção acaba por resolver-se espontaneamente (curiosamente, tanto mais depressa, quanto maior a idade), mas nalguns casos pode haver lesões das trompas”. Estas lesões podem levar à infertilidade ou a gravidezes ectópicas (quando o embrião se forma fora do útero). “A infeção não tem necessariamente de ser grave para condicionar a fertilidade — mesmo assintomática, pode levar a dano significativo das trompas.”

A identificação e tratamento da clamídia também interrompe a cadeia de transmissão — o que é particularmente importante se tivermos em consideração que “as reinfeções parecem ser um dos fatores que mais contribuem para o risco de sequelas.”