Dormem menos e sofrem mais com as insónias. Também pode ser mais difícil tratar a apneia do sono que, já agora, pode ser prevenida se em bebé tiver sido amamentado pela mãe. Mas nem tudo é mau — há doenças que de facto afetam mais o sexo masculino, assim como a tendência para desregular o ritmo circadiano (período de 24 horas sob o qual se baseia o ciclo biológico). Por outras palavras, se tem dois filhos adolescentes de sexos opostos em casa, é provável que ele se deite (ainda) mais tarde do que ela.

A propósito do Dia Mundial do Sono, que se celebra esta sexta-feira, 16 de março, a MAGG foi falar com três especialistas para perceber como é diferente o sono das mulheres e dos homens. Spoiler alert: é bastante.

As mulheres dormem menos meia hora do que os homens

Curiosidade. A maior parte dos portugueses prefere dormir de lado

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Pelo menos foi esta a conclusão de um estudo realizado pela empresa Conforama, em parceria com a Associação Portuguesa de Sono, no início do ano passado. 69% dos inquiridos respondeu que prefere dormir de lado, sendo a segunda posição favorita dormir de barriga para baixo (22%).

Os estudos comprovam-no: as mulheres dormem menos do que os homens. Segundo Joaquim Moita, presidente da Associação Portuguesa do Sono e diretor do Centro de Medicina do Sono do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, há investigações que garantem que elas passam, em média, menos meia hora por dia a dormir do que eles.

As explicações são várias.

Ciclo menstrual. Há mulheres que durante este período têm dificuldade em adormecer e manter o sono.
Gravidez. Na primeira fase o sono é agravado pelas alterações hormonais. Nas fases finais, e devido ao movimento do feto, a tendência para urinar mais também perturba a noite.
Menopausa. As mulheres também dormem menos durante este período, em resultado das alterações hormonais.
Aspetos de natureza psicológica e social. Regra geral, a mulher tem uma vida mais atarefada do que o homem: trabalha, assegura o cuidado dos filhos, o trabalho em casa.

As mulheres sofrem mais com as insónias

“A insónia predomina nas mulheres e nos idosos em todas as estatísticas que existem no mundo, inclusivamente em Portugal”, explica Teresa Paiva, neurologista e especialista em medicina do sono.

"Os médicos dão pouca a atenção à insónia e, quando dão, tratam mal"

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Na opinião de Joaquim Moita, em Portugal a insónia é uma doença mal-medicada. “Os médicos dão pouca a atenção à insónia e, quando dão, tratam mal”. Uma das razões para esta afirmação é a utilização em excesso de Benzodiazepinas.

“As Benzodiazepinas podem ser úteis nas insónias transitórias por um período muito curto de tempo. A partir dos 30 dias — a insónia é a doença dos três, há sempre um três —, de grosso modo, o consumo diário leva à dependência, a efeitos secundários.”

Sonolência, tontura, desequilíbrio (especialmente nos idosos), fraqueza mental e confusão mental são alguns dos efeitos colaterais da toma destes fármacos. Segundo o especialista, as mulheres e os idosos são quem mais consome Benzodiazepinas em Portugal.

Por insónia compreende-se a dificuldade em adormecer, o adormecer e acordar com frequência durante a noite e acordar antes da hora habitual. Existem dois tipos de insónia: a transitória e a crónica. A insónia transitória está associada a um período de maior stresse. Quando se resolve o problema, a insónia desaparece. A insónia crónica arrasta-se ao longo do tempo — dura mais do que três meses, portanto.

“É a regra dos três: 30 minutos para adormecer, três vezes por semana, mais do que três meses. Chama-se a isto insónia crónica”, diz Joaquim Moita.

A curto prazo, as insónias causam cansaço e fadiga, sonolência, problemas de memória e raciocínio lento. A longo prazo, podem ser responsáveis por problemas cardiovasculares, hipertensão, doenças metabólicas como a diabetes e enfarte miocárdio.

Pode ser mais difícil tratar a apneia do sono

A apneia do sono caracteriza-se por paragens respiratórias durante o sono. Em termos percentuais são eles quem sofrem mais com esta doença, no entanto o tratamento é mais difícil para elas. Porquê? Porque são mais resistentes à utilização do equipamento médico utilizado nestes casos.

Enquanto a mulher aceita mais facilmente o marido que está com a máscara, o contrário não é verdade.”

“As mulheres não aderem tão bem ao tratamento da apneia do sono e a culpa principal está nos homens”, explica Joaquim Moita. “As mulheres têm um problema de auto-imagem. Isto é a minha perspetiva, é a perspetiva de alguém que trabalha desde 1990 nesta área e já viu muitos homens e muitas mulheres com Síndrome da apneia do sono. Enquanto a mulher aceita mais facilmente o marido que está com a máscara, o contrário não é verdade.”

O bebé que foi amamentado pode ter menos apneia do sono

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“Há artigos recentes que descrevem que a amamentação ao peito pode ter um papel protetor a nível futuro na prevenção da apneia obstrutiva do sono”, explica a médica pediatra Maria Helena Estêvão. Numa fase em que o bebé tem toda a estrutura facial em desenvolvimento, mamar no peito da mãe exige mais força do que mamar no biberão. Além disso, dá uma conformação ao céu da boca. “Pensa-se que possa ajudar a prevenir a apneia do sono”.

Importa referir que a apneia do sono também pode surgir nas crianças e adolescentes. No caso das crianças, de um modo geral, resulta de uma hipertrofia das amígdalas e dos gestações adenóides. Nos adolescentes, há uma prevalência aumentada de obesidade que os coloca tão suscetíveis à doença como os adultos.

Na opinião de Teresa Paiva, as mulheres detestam aceitar que ressonam. “Acham que é uma coisa própria dos homens, por isso não admitem ressonar.” Além disso, a apneia nas mulheres é acompanhada pela insónia, o que faz com que muitas das vezes o diagnóstico da apneia não seja feito — ou seja feito muito mais tarde do que devia.

As mulheres passam mais tempo no sono profundo

“Essa é uma das explicações para a maior longevidade da mulher. Apesar de terem mais insónias, entre outras coisas, há de certa forma uma protecção que contrabalança as dificuldades”, explica Teresa Paiva.

Durante o sono profundo (NREM), há como um verdadeiro “adormecimento” do nosso corpo. Ele não é total, obviamente, mas a atividade do cérebro, a respiração e a frequência cardíaca, por exemplo, ficam mais lentas. Ora isto é particularmente importante para recuperar. Digamos que este é que é verdadeiramente reparador, mais do que os estágios iniciais do sono — que é onde os homens passam mais tempo.

Na adolescência elas podem ter tendência a deitar-se mais cedo do que eles

Na adolescência, os rapazes e as raparigas podem registar diferenças no chamado Síndrome de Atraso de Fase do Sono. Essencialmente, isto traduz-se num ritmo circadiano fora do comum. Voltámos a complicar? Vamos diretos ao assunto: a hormona da melatonina é aquela que nos prepara para dormir.

“O nosso corpo começa a produzi-la ao entardecer, tem um pico a meio da noite e depois começa a descer. Nos adolescentes, por razões fisiológicas, essa produção da melatonina é mais retardada”, explica à MAGG Maria Helena Estêvão, médica pediatra com competência em medicina do sono.

Resumindo, não vale a pena mandá-lo dormir às 22 horas — por questões fisiológicas, o mais provável é os adolescentes não conseguirem de todo adormecer. “Muitas vezes eles só têm sono por volta da meia-noite, ou mais, o que corresponde a um desfasamento do que é habitual. Isto é um pouco mais frequente no sexo masculino do que no feminino.”

A enurese infantil é mais frequente nos rapazes do que nas raparigas

Lisbon Sleep Summit chega a Lisboa de 16 a 19 de maio

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A primeira edição do congresso internacional é o sono e as mulheres. Um dos grandes destaques será o debate sobre o sono e a violência. Teresa Paiva, neurologista, responsável pelo Centro de Medicina do Sono (CENC) e uma das organizadoras do Lisbon Sleep Summit explica que a relação entre sono e comportamentos violentos ou criminosos acontece de várias formas.

“As vítimas de crime sofrem ou de stresse agudo (insónia, flasbacks, irritabilidade, ansiedade, dificuldades de memória e de concentração, fadiga) ou de stresse pós-traumático com insónia complexa, pesadelos graves e depressão e fadiga. Outras sentem desrealização, negação, ou sentido de injustiça (porquê a mim?) ou raiva, rancor ou vingança.”

A enurese infantil, isto é, a perda involuntária de urina, é mais frequente no sexo masculino, explica Maria Helena Estêvão. A maior parte das crianças deixa as fraldas entre os dois e três anos. Quando aos cinco anos ainda continuam a haver “incidentes” noturnos, podemos estar perante uma disfunção.

Segundo estudos portugueses, há uma prevalência de enurese noturna, isto é, perdas de urina durante o sono, entre os 6,1 e os 15,6% em crianças do ensino primário. A perturbação é duas a três vezes mais frequente em rapazes do que em raparigas.

O que é que posso fazer para dormir melhor?

1. Ter um horário regular de sono. O horário de levantar e deitar deve ser o mesmo todos os dias. Já agora, entre sete a nove horas são as horas de sono recomendados para os adultos;
2. Estipular uma rotina na hora de deitar;
3. O quarto deve ser agradável. Desde a ausência de luz até à temperatura amena (entre os 18 e os 20 graus), tudo isso vai ter influência no sono;
4. Desligar os equipamentos eletrónicos uma hora antes de dormir e deixá-los fora do quarto. Tal como a luz natural do sol, as televisões e ecrãs emitem muita luz azul, que atrapalha a libertação de melatonina;
5. Não ter fome ao deitar;
6. Evitar alimentos ou bebidas com estimulantes nas várias horas que antecedem o sono;
7. Não ingerir líquidos excessivos ao deitar ou durante as horas noturnas;
8. Evitar atividades vigorosas nas duas horas que antecedem a hora de deitar.

O tema do Dia Mundial do Sono é “Abrace o sono, cuide dos seus ritmos, desfrute a vida” e por isso a Assocaição Portuguesa do Sono produziu um vídeo para alertar a população para o “relógio circadiano e a importância de atender aos seus ritmos para conseguir um vida saudável”. O pequeno filme de sensibilização está a ser divulgado em hospitais, centros de saúde e outros prestadores de cuidados de saúde, nas farmácias e em redes sociais.