Os piores alimentos que encontrámos à venda no bar de cinco escolas

Baguetes com Nutella, bolos cheio de gordura, chocolates, gomas. Fomos a alguns estabelecimentos de ensino de Lisboa: o que vimos não é bom.

“A goma é 0,30€, não é? Então quero uma, por favor”, pede um dos alunos da ETIC – Escola de Tecnologias Inovação e Criação, em Lisboa. É hora do lanche. Nas vitrines do bar desta escola profissional, que recebe alunos a partir do 10.º ano, a oferta é grande, mas nutricionalmente muito pobre. Há bolachas americanas grandes com pepitas de chocolate, croissants com creme, com chocolate ou simples. Há chocolates Milka de Oreo, há KitKats, Mars ou Sneakers. Atrás, estão as batatas fritas, os rebuçados e chupa-chupas. Também há Nutella, que é barrada em baguetes brancas feitas de farinha refinada.

A MAGG entrou em cinco escolas de Lisboa e viu o que é que os miúdos podem comprar para comer. A oferta é variada mas está longe de seguir os critérios nutricionais básicos para aquilo que se pode considerar uma alimentação minimamente saudável. A nutricionista Mafalda Rodrigues de Almeida ajudou-nos a identificar as piores escolhas, entre tudo aquilo que identificámos.

Na ETIC, apesar de todos os chocolates e guloseimas, a nutricionista escolheu um alimento menos óbvio, como sendo dos piores que os miúdos podem comer: a bola de Berlim. É um bolo grande, frito, cheio de gorduras saturadas, quase sempre recheado de creme de ovo, coberto de açúcar branco e feito com farinha processada, também misturada com açúcar. Desta combinação resultam cerca de 600 calorias, número que representa cerca de um terço da energia que deve ser consumida num só dia, se tivermos como referência as 2000 calorias.

Num colégio privado, junto ao Saldanha, onde miúdos com idades entre os 9 e os 18 anos frequentam o bar, vendem-se muitos croissants, mas a escolha principal é outra, bastante mais surpreendente e improvável: “O pão com manteiga é o que os miúdos mais pedem. E nem é em carcaça. É com mistura”, relata uma das funcionárias à MAGG.

Merendas, vários salgados e refrigerantes à venda no bar de uma escola secundária de Lisboa.

Os chocolates existem, sim, mas são retirados à hora do lanche. Sobram os queques, madalenas, palmiers, folhados de salsicha ou merendas. Neste caso, a pior escolha feita pela nutricionista é o palmier recheado, pelos motivos de sempre: há creme, massa folhada, muito açúcar e gordura. E ainda por cima é grande, o que faz com que estes ingredientes estejam presentes em grandes quantidades.

O mesmo bolo foi eleito como o pior num liceu próximo, junto às Avenidas Novas. A merenda mista e o croissant são os que são mais vezes pedidos pelos alunos. Ambos são feitos com massa folhada, com muita gordura saturada e muitas vezes trans, responsável por inflamações nas células de gordura do organismo (celulite e quistos sebáceos, por exemplo), por alterações no sistema hormonal, por ciclos menstruais com mais dores e mau odor corporal. E agravam um problema que afeta, e incomoda, muito os adolescentes: a acne.

Com alunos desde o primeiro ciclo até ao secundário, a oferta do bar desta escola é extensa. Entre o excesso de bolos e salgados, existem algumas opções mais equilibradas. Mas, surpreendentemente, mesmo à frente, estão também duas grandes máquinas de venda automática. Mafalda Rodigues de Almeida, autora do livro “Superalimentos”, tem dificuldade em escolher o produto menos saudável: os Maltesers, M&M’s, barrinha de cereais Nesquik, KitKat ou chocolates Kinder. “São todos péssimos”, diz.

Enquanto subimos o elevador do Crisfal, um externato de ensino básico e secundário, uma das alunas garante que o bar “é ótimo”. Chegando ao balcão, pouco mais há do que donuts, queques, alguns chocolates (Twix ou Mars), pão, queijo e fiambre. A pior escolha é, de acordo com Mafalda Rodrigues de Almeida, o folhado de salsicha, por ter massa folhada e por incluir esta carne altamente processada, associada já a várias doenças.

Na Escola de Música do Conservatório de Nacional de Lisboa não há bar, apenas máquinas, mas com uma oferta que é diferente e melhor. Mas está lá o waffle de chocolate, que a nutricionista aponta como a pior opção: é grande e tem quantidades consideráveis dos ingredientes a evitar.

E quais as opções mais saudáveis?

Perante montras reluzentes e repletas de más escolhas, há sempre alternativas mais acertadas e que podem até ser boas. Mas é preciso compreender os alimentos e os nutrientes. O lanche deve ser variado, completo e satisfazer o apetite durante um tempo aceitável. A fórmula passa por juntar a uma fonte de hidratos de carbono saudável, outros macronutrientes mais lentos: “Precisamos de atrasar a absorção da glicémia com proteína ou gordura [saudável]”, explica. “Se assim não for, absorvemos a energia muito rapidamente e, em pouco tempo, volta a aparecer a fome”.

Na máquina de venda automática do Conservatório há opções nutricionalmente mais interessantes do que as das outras escolas. Aqui, a nutricionista aconselha a combinação de fruta desidratada Fruut de maçã com o iogurte líquido, que “aumentam a saciedade”. A especialista sugere duas outras combinações possíveis: iogurte líquido com Kellogs All Brain ou Bolachas Gullon Diet Fibra, com uma garrafa de água.

Na Escola de Música do Conservatório de Nacional de Lisboa só há máquinas de venda automática, mas com escolhas mais equilibradas.

Por outro lado, na máquina que está na escola secundária junto às Avenidas Novas há pouco de bom por onde escolher. A melhor opção são os palitos de Vaca que Ri com um Santal Cenoura-Laranja, o sumo que, ao contrário do manga-laranja, tem “um legume e menos açúcares disponíveis”. Neste local, o melhor mesmo é ir ao bar e pedir uma “peça de fruta com um pão de sementes com queijo fresco”. Para quem tem menos fome, a nutricionista sugere apenas o queijo com um chá. A verdade é que esta não é propriamente uma bebida que rime bem com adolescentes, mas é uma alternativa. No entanto, alerta a nutricionista, o melhor é fugir do chá preto: “Pode ser muito excitante e interferir com a concentração”. Recomenda antes o de menta “porque tem uma acção digestiva.”

O queijo fresco é uma das opções mais equilibradas e está também disponível no colégio privado e na ETIC. A nutricionista elegeu-o sempre como a melhor escolha, por ser “rico em proteína” e por ter “menos gordura do que os outros”. Quando há apetite, deverá ser acompanhado com um pão integral ou de mistura (“onde há bolos, em geral também há pão, solução muito melhor”)

Por outro lado, não havendo alternativa, como aconteceu na ETIC, poderá ainda ser conjugado com o “pão branco”. Neste bar, pode optar-se também por uma peça de fruta, como uma banana, com iogurte, ou leite que é também o único lanche saudável do Crisfal.

Ainda que o cenário possa parecer negro, há sempre opções mais equilibradas. Nas quatro escolas onde há bar, por exemplo, há sempre fruta. “A maior parte dos miúdos não come muita fruta no dia-a-dia. A hora do lanche pode ser boa para incentivar um consumo maior”, frisa Mafalda Almeida. Conjugada com um iogurte poderá ser também uma escolha saudável para o lanche, por garantir a ingestão de todos os nutrientes aconselháveis.

Mas nada será tão bom e controlado como levar a refeição de casa, numa lancheira, sem excesso de calorias e sem a torrente de gordura, sal, açúcar e alimentos processados que os miúdos têm à disposição sempre que soa o toque do intervalo.

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