Escolheu o nome de MissFit, porque queria manter-se anónima num Instagram que criou para partilhar os seus hábitos saudáveis. Foi em junho de 2014 que começou a publicar fotografias de treino na rede social, habituando os seguidores a ver as caneleiras pesadas das aulas de localizada, mas também os pratos que faziam parte da sua alimentação, sempre saudável. Aos poucos foi dando a conhecer a cara, depois a cara metade, e nos últimos tempos um terceiro rosto.

Foi em janeiro que descobriu que estava grávida e, logo no primeiro trimestre, os treinos — já limitados depois de ter descoberto que tinha amenorreia (ausência de menstruação) — foram adaptados à nova fase. Nada de corridas, abdominais ou exercícios de grande impacto.

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A Alice nasceu a 7 de setembro e passados alguns tempos, Mariana Rocha, o nome verdadeiro da MissFIT, tentou encontrar uma forma de conciliar os cuidados com a bebé sem descurar o seu bem estar, que passaria por um regresso aos treinos no ginásio. Solução? Levar o bebé consigo.

“Só retornei o ginásio depois de ter tido autorização da minha fisioterapeuta pélvica e da minha personal trainer. A recuperação pós parto durou cerca de 12 semanas, pelo que a Alice só me acompanhou nos treinos já com 3 meses”, conta à MAGG Mariana Rocha.

São esses mesmos treinos que partilha com os 114 mil seguidores do Instagram e as publicações contam sempre com vários comentários de apoio e admiração. Até esta semana, altura em que o tom dos comentários mudou.

Mariana partilha uma fotografia sua a treinar numa aula de grupo com a bebé ao lado, e a imagem suscitou a curiosidade dos seguidores.

Levantaram-se questões relacionadas com as regras dos ginásios para evitar “acampamentos”, o conforto das pessoas que também frequentam o ginásio, a segurança do bebé — colocando-se a hipótese de se “um peso cair-lhe em cima é capaz de criar mazelas” — e a higiene, como a possibilidade de o bebé fazer cocó ou bolsar. Uma das seguidoras dizia que “parece só um pouco de logística extra não só para a mãe (a responsabilidade é dela) mas também para as pessoas que estão na aula. Se eu fosse uma dessas pessoas, assumiria um pouco essa responsabilidade também.”

Mas ainda que a imagem tenha sido uma novidade para muitos, a verdade é que é prática comum em alguns ginásios. Síntia Leal Machado, de 36 anos, estava na mesma aula que Mariana e não estranhou ver lá um bebé. Conta à MAGG que frequenta ginásios há cerca de cinco anos, e entre algumas pausas e trocas de estabelecimentos, viu algumas mães a levarem bebés para as aulas de grupo.

“Já tinha visto numa aula de zumba. Sempre foi tranquilo, porque os bebés já eram tranquilos”, conta, acrescentando que todas as pessoas presentes na aula aceitaram bem a presença do bebé. Contudo, reconhece que é preciso avaliar o espaço para onde se leva o bebé: “Só não é possível na sala de musculação, mas quando são aulas de grupo, acho que não há problema nenhum.”

Sintia, não só não se sente incomodada com a prática, como a estimula. À MAGG, diz que todos os ginásios deviam ter uma maior abertura com as mães, não só dando a possibilidade e incentivando a que levem os filhos, como criando um espaço próprio para os bebés. “Também nos aviões há um espaço, tudo se pode adaptar”, conclui.

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A experiência de quem já o fez

No caso de Mariana Rocha, não foi preciso informar com antecedência o ginásio que frequenta, o Be in Balance, no Porto, porque é um ginásio com um conceito muito familiar, e onde todos se habituaram a vê-la treinar, mesmo durante a gravidez.

“No entanto, informo sempre o professor da aula dessa minha intenção, para garantir que está de acordo e que a presença da Alice não compromete o seu normal funcionamento”, diz Mariana à MAGG.

Apesar de sentirem que a Alice, agora com quatro meses, já faz parte da “família”, Mariana refere que quem não a conhece acha curioso a presença de um bebé. “Penso que compreendem que a logística não é simples e que, se levo a bebé, é porque quero mesmo treinar e não encontro outra alternativa.”

É por isso que muitas das reações que lhe chegam, quer pessoalmente no ginásio, quer nas redes sociais, são na maioria de admiração pela “coragem”, porque como diz, “quem é mãe, sabe a dificuldade que é gerir toda a situação” e, por outro lado, “quem ainda não é diz que um dia gostava de seguir o meu exemplo.”

E quanto aos perigos?

Todos concordamos que o ginásio não é o lugar mais aconselhado do mundo para um bebé, certo? Mas todos concordamos também que a sanidade mental da mãe é fundamental para o bem estar do bebé, certo? Então, se a única solução para a mãe voltar a treinar e voltar a sentir-se bem com ela própria é levar o seu filho uma hora para o ginásio, não há drama”, diz à MAGG Sara Rocha, irmã de Mariana e instrutora da aula de localizada onde esteve a filha da MissFit.

Tudo se resume à forma como a logística é pensada: desde a escolha da aula, à definição de um lugar estratégico na sala (em conjunto com o professor) para colocar o bebé e para permitir que a mãe possa sair facilmente caso seja necessário. Todos estes fatores devem ser tidos em conta de forma a não interferir na segurança do bebé ou na qualidade do treino das pessoas que estão presentes na aula.

Quanto aos perigos de cair um haltere ou saltar um bola de Pilates, a personal trainer mostra que com bom senso, tudo se faz: “Há riscos em todo o lado. Já se inventou muita coisa no mundo do Fitness, mas ainda não conheço uma modalidade que seja andar a atirar halteres e bolas pelo ar! É preciso bom senso e profissionalismo”.

É por isso que desaconselha levar bebés para aulas de Cycling ou de Body Combat — até porque o volume da música é normalmente mais alto e desaconselhado para o bebé. Mariana sabe disso e decidiu também que não leva a Alice para salas de musculação ou para aulas que impliquem muitos movimentos e utilização de material, como treino funcional, ou outras que impliquem mais silêncio, como o Pilates e Ioga. “Acima de tudo, garanto a segurança dela”, diz.

Mas tem truques: “Sempre que a Alice está mais inquieta, eu vou ter com ela. Evito sempre que chore, antecipo-me e, se necessário, interrompo o treino e saio da sala. Por isso, posiciono-me sempre num cantinho junto da porta, para perturbar o menos possível”, conta Mariana Rocha.

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Prática ainda é pouco comum

A personal trainer Sara Rocha refere que a procura ainda não é significativa e que só uma minoria das mães pergunta se pode levar o seu bebé. “Não temos essa cultura no nosso País, por isso é que ‘assusta’ tantas pessoas. Normalmente quem pede é a minoria que já fazia aulas de grupo antes de engravidar e que continuou a fazer as mesmas aulas quando engravidou”, acrescenta.

Não por se sentir “assustada”, mas por uma questão de logística, Maria Morais Gama, nutricionista e mãe há sete meses, tem optado por treinar em casa, sempre com o filho por perto. O Vasco já se habituou aos agachamentos, burpees ou lunges da mãe, que está sempre de olho na caminha ou cadeira onde fica durante os treinos.

Apesar de já ter pensado levá-lo para o ginásio, em conversa com a MAGG Maria Morais Gama diz que “tenta conciliar os treinos com a chegada do pai a casa, por exemplo”. Mas esse não é o único fator em causa. “Nós damos muita importância ao sono do Vasco, pelo que ir ao ginásio teria de ser num período de ‘não sesta’ e nem sempre é possível”, refere.

No caso da nutricionista não está em causa a segurança, mas principalmente a organização do tempo. Mas não deixa de lado a hipótese de, no futuro, levar Vasco consigo até ao ginásio: “Até agora não foi necessário porque vou treinando em casa ou ao fim da tarde. Mas talvez no futuro seja preciso”. Contudo, Maria não deixa de referir que prefere não levar o filho consigo, porque em casa está mais confortável.

Os ginásios em Portugal

No caso do ginásio que Mariana frequenta e que tem um conceito familiar, talvez esta prática seja aceite com mais facilidade. Mas e quando falamos em grandes cadeias, como o Holmes Place?

“O Holmes Place não permite que as mães levem bebés para qualquer aula de grupo. Permitimos para o curso de pós-parto, natação para bebés e para sessões de treino personalizado nos clubes que têm pequenos estúdios para esse efeito”, esclarece à MAGG a coordenadora das aulas em grupo e eventos do Clube Holmes Place Amoreiras, Bárbara Piassarollo.

A decisão, explica, está relacionada com o facto de os clubes não estarem preparados para receber os bebés. Apesar disso, a procura existe e é por essa razão que alguns deles já têm espaços pensados na integração de crianças.

“Temos os Kids Places com atividades para as crianças e babysitting, bem como aulas para crianças como dança, capoeira, karate. Não há em todos os Holmes Place devido ao espaço necessário para isso”, refere Bárbara Piassarollo.

Já na cadeia de ginásios Fitness Hut, a entrada de bebés também não é permitida, uma vez que, conforme explica à MAGG o diretor de operações Amâncio Santos, “não temos infraestrutura nem condições para receber crianças”, acrescentando que todo o tipo de produtos e serviços que dispõem estão apenas adaptados a jovens a partir dos 16 anos e adultos.

Apesar de alguma procura por parte das mães, o diretor de operações refere que percebem quando lhes é explicado o porquê de não ser possível. Amâncio adianta ainda: “Não pretendemos investir neste tipo de serviços futuramente”.