Dos Bafta aos Globos de Ouro, ou Critics Choice Awards, “Bombshell” já foi indicado para 17 prémios, de onde se destacam as nomeações nos papéis de Melhor Atriz e Melhor Atriz Secundária. Não é para menos: o filme integra um trio feminino explosivo. Charlize Theron veste-se de Megyn Kelly, Nicole Kidman é Gretchen Carlson, duas antigas pivots da conservadora estação televisiva americana Fox News. Margot Robbie é uma personagem fictícia: veste-se de Kayla, uma produtora recém-chegada ao canal onde reina uma cultura pouco favorável ao género feminino.

Realizado por Jay Roach, estreou em dezembro nos Estados Unidos e chega a Portugal já a 23 de janeiro. O filme que se concentra nos casos de assédio cometidos pelo Roger Ailes, o fundador e antigo diretor da Fox News, é a primeira estreia mais relevante de 2020, trazendo ao ecrã mais pormenores sobre o escândalo sexual que é, em parte, narrado na série da HBO “Loudest Voice“, uma espécie de biografia deste CEO, contratado em 1996 por Rupert Murdoch, o magnata dos media, fundador da Fox.

A propósito da estreia, reunimos pormenores dos casos de Gretchen Carlson e de Megyn Kelly, duas das mais de 20 mulheres que vieram falar sobre os comportamentos daquele que foi descrito como um “predador”.

As cassetes de Gretchen Carlson

Roger Ailes tirava partido do poder que concentrava e assediava sexualmente mulheres. O homem que fez nascer a Fox News em 1996 pedia-lhes que dessem voltinhas, de modo a analisar os seus corpos, gostava de lhes tocar, e fazia com que subissem na carreira em troca de favores sexuais. Esta era a realidade da estação que já foi acusada de manter uma cultura de terror, de medo e de silêncio, comandada por um “clube de rapazes”. A verdade manteve-se escondida durante muitos anos, para só vir ao de cima entre 2014 e 2016, com dois momentos fundamentais.

O escândalo que denuncia o comportamento de Roger Ailes surge primeiro na sequência da publicação do livro de 2014 assinado por Gabriel Sherman, “The Loudest Voice in the Room: How the Brilliant, Bombastic Roger Ailes Built Fox News – and Divided a Country” — que foi a principal fonte para a construção da narrativa em “The Loudest Voice”.

Apesar de pormenores sobre os comportamentos de Ailes contra mulheres terem sido revelados por este correspondente da “New York Magazine”, “Bombshell” vai focar-se nas consequências do segundo momento: aconteceu em 2016 e teve como protagonista a jornalista Gretchen Carlson, uma pivot a trabalhar na Fox desde 2005. Foi ela que derrubou Roger Ailes, depois de avançar com um processo legal contra o homem.

Estava a par daquilo que acontecia no sítio em que trabalhava e indiretamente compactuava com aquela cultura. Mas Carlson não bem era aquilo que aparentava. “Ex-Miss America de 50 anos, ela era a pivot arquetípica da Fox: loira, de direita, orgulhosamente anti-intelectual. (…) Mas a televisão é um meio enganador. Fora das câmaras, Carlson é uma feminista educada em Stanford e Oxford que se irritou com a cultura da Fox News”, pode ler-se num extenso artigo assinado também por Gabriel Sherman, na “New York Magazine.”

Abraços desnecessários, comentários sobre a sua aparência, propostas indecentes. Esta jornalista nunca acedeu aos pedidos de Ailes, tentando cordialmente ignorar as suas investidas. Só que a sua posição no canal começou a ser posta em causa e aí a coisa mudou de figura. É que o CEO desta Fox começou a antipatizar com a mulher e fez-lhe a vida negra assim que percebeu que esta não iria quebrar ou responder às suas vontades.

“Quando Ailes fez comentários assediadores sobre as suas pernas e sugeriu que ela usasse roupas justas depois de entrar no canal em 2005, ela tentou ignorá-lo. Mas, eventualmente, ele foi longe demais. Quando Carlson fez queixa ao seu supervisor em 2009, por considerar que o co-anfitrião Steve Doocy era condescendente com ela dentro e fora de ar, Ailes respondeu que ela era ‘mulher que odiava homens’ e uma ‘assassina’ que ‘precisava se dar bem’ com os meninos’.”

Depois desta conversa, Carlson sofreu as tais represálias: viu o seu papel no noticiário “Fox&Friends” decrescer, até ter ser oficialmente afastada, depois de sete anos naquele lugar. Foi posta num programa da tarde, o “The Real Story with Gretchen Carlson”, ocupando o lugar de Megyn Kelly, que é promovida para horário nobre.

Vendo que o homem lhe boicotava a carreira, não se deixou ficar. Decidiu começar a reunir provas do comportamento de Ailes, através de gravações de áudio que foi reunindo ao longo dos meses que antecederam o fim do seu contrato com o canal: “Enfrentar Ailes era perigoso, mas Carlson estava determinada em contra-atacar. Ela optou por uma estratégia simples: iria vigiá-lo. A partir de 2014, de acordo com uma pessoa familiarizada com o processo, Carlson levou o iPhone para as reuniões no escritório de Ailes e o gravou-as secretamente revelando o tipo de coisas dizia sempre: ‘Eu acho que devíamos ter tido um relacionamento sexual há muito tempo (…)  Às vezes, os problemas são mais fáceis de resolver’ (…) “Tenho certeza de que podes fazer as coisas mais doces quando quiseres”, disse ele outra vez”, lê-se no artigo da “NYM”.

Carlson ainda trabalhava no canal quando começou a preparar o processo contra o homem. Um dia depois da sua demissão, avança com a queixa e rebenta o escândalo. Culminou com uma investigação interna na empresa, que resultou em mais 20 mulheres a denunciarem Ailes, que é então afastado do canal. O homem morreu no ano seguinte.

O caso de Megyn Kelly

É nesta mulher que se centra a história do filme. A jornalista conservadora Megyn Kelly, interpretada por Charlize Theron, está em 2016 no auge da sua carreira — mesmo depois de ter feito uma série de declarações controversas, que só neste canal seriam capazes de a elevar —  mas já lá vamos.

Em “Bombshell”, ela é mais uma das vítimas dos ataques do CEO do canal e tem uma decisão a tomar: contar a sua história e terminar a sua relação com a Fox ou calar-se e seguir em frente naquela mesma estação de televisão.

Ao contrário de Carlson, a sua relação com Roger Ailes evoluiu de forma bastante mais harmoniosa e frutífera para a sua carreira. Kelly também sofreu investidas do diretor da Fox News, e recusou-as, mas sem fechar as portas do estrelato. Pelo contrário. 

“Megyn Kelly não era um nome familiar quando começou na Fox News em 2004. Ex-advogada corporativa, ela desembarcou na Fox quando a ex-pivot Brit Hume, do “Special Report”, a recomendou a Ailes. Ela ainda não era conhecida em 2006, quando se divorciou, altura em que Ailes tentou tirar proveito da sua vulnerabilidade”, conta Gabriel Sherman.

“Ela pode não ter sido mais poderosa na época do que as outras mulheres que ele perseguia, mas ela era uma das sortudas: ela conseguiu rejeitar as suas propostas sexuais de uma maneira que não a alienou do seu chefe. ‘Ela conseguiu navegar no relacionamento para um local profissional, disse uma pessoa próxima a Kelly.”

Com isto, a sua carreira floresceu. Em 2013 Ailes promoveu Kelly, provavelmente porque esta era também uma entusiasta conservadora de direita: deu-lhe o programa “The Kelly File”,  transmitido em horário nobre. Foi aqui que, em dezembro do mesmo ano, a mulher declarou “a todos os miúdos”, que o Pai Natal é “branco”.

A sua relação com o CEO era excelente, segundo aquilo que a jornalista demonstrava no Twitter: quando uma seguidora lhe perguntou quem é que era a sua maior influência, a mulher respondeu “Roger Ailes”.

Em 2015, ainda era visível a crença conservadora, mas Kelly começou a ganhar uma veia mais feminista. Este posicionamento tornou-se evidente com o rebentar do polémico conflito com Donald Trump, que ainda só era um dos concorrentes ao lugar da presidência dos Estados Unidos pelo partido Republicano — a candidatura do então empresário à presidência também terá tido mão de Ailes.

A jornalista, a moderar um debate na Fox News nas eleições de 2015, questionou o candidato sobre a forma como várias vezes se referia a mulheres — destacando que este teria já utilizado termos como “cão” ou “porco” para as descrever.

Tendo desobedecido às regras invisíveis do canal de Ailes, que ali representava, e tendo sido uma das que pouco tempo depois se chegou à frente para acusar o CEO,  Kelly caiu nas boas graças do público. Da Fox News, a pivot foi para a NBC para apresentar o “Megyn Kelly Today”. Aqui acabou por regredir e por voltar aos seus hábitos antigos. Foi aqui que proferiu o infeliz comentário, onde declarou que mascarar-se de negro no Halloween não tinha mal nenhum. O programa foi cancelado em outubro de 2018. Em 2019 a jornalista acabou por abandonar o canal.

Apesar da qualidade da representação em “Bombshell”, os críticos não foram brandos nos comentários, sobretudo em relação à forma como esta jornalista da Fox News  é representada: acusam o realizador Jay Roach de criar uma narrativa que a desresponsabiliza das suas atitudes polémicas e questionáveis, transformando-a quase numa heroína, quando na realidade terá contribuido e compactuado com a cultura deste canal que tantas vezes foi acusado de ser racista, xenófobo e tendencioso.

“Nem mesmo a Charlize Theron consegue fazer-me olhar para a Megyn Kelly como uma heroína”, escreveu a “Slate“. “O filme acaba por ser, de certa forma, um infocomercial para as encarnações pós-Fox News de [Kelly e Carlson], além de promover a ideia de uma Fox News mais gentil sem Ailes no comando”, disse o “BuzzFeed News“.

O “The Guardian” aponta o mesmo problema, num artigo totalmente concentrado na representação desta jornalista: “A sua presença no filme [momento do Pai Natal] parece uma brincadeira, um reconhecimento obrigatório do facto de Megyn Kelly, numa ocasião de um passado remoto, ter feito algo errado. Mas os seus lapsos morais mais profundos e mais fundamentais são amplamente varridos para debaixo do tapete.”