Resort. Ora ai está um estrangeirismo que aprecio. Pelo menos naquilo que na gíria da redação damos o nome de #vidaparela, aquela que temos quando a profissão exige que sejamos os primeiros a experimentar hotéis ou restaurantes. É um trabalho duro, mas alguém tem de o fazer.

Essa vida paralela dura normalmente o tempo de uma refeição ou, no máximo, duas noites, quando o assunto é hotel. Aí entramos numa bolha de “minha senhora”, de portas que se abrem, de pessoas que nos levam a mala, nos massajam as costas e perguntam se o vinho está fresco o suficiente.

No dia seguinte, voltamos a carregar o passe de metro para poder ir ao Continente aproveitar os 10% em cartão que servirão para encher a marmita que levamos para o trabalho no dia seguinte. Mas está tudo bem, adoro dicotomias.

Rumamos então ao Algarve para dois dias em Vilamoura, zona que se já no verão não me traz uma excitação por aí além, no inverno então, equivale a mandarem-me para a Serra da Estrela em pleno inverno. Nota: odeio frio.

Vilamoura é pubs, é empregados que falam inglês, é comida pensada para turista e é, acima de tudo, uma bolha de luxo a dois passos do Algarve real. É também hotéis, claro, e aqui falamos dos melhores.

Entre eles está o Anantara, o primeiro resort da cadeia tailandesa Anantara em Portugal e que é também um dos melhores da Europa. Foi eleito nos prémios da reputada revista “Condé Nast Traveler” como um dos melhores 25 resorts da Europa.

Quando alguém me diz que vai de férias para “resorts com pulseirinha”, faço, ainda que mentalmente por boa educação, um grande revirar de olhos. Pensar numa semana num hotel, com comida buffet, copos o dia inteiro e piscina a todas as horas pode ser o cenário ideal para muita gente, mas não para mim. Então quando me dizem que vão nesse regime para o México ou para a Costa Rica, começo a sentir o meu olho a tremer de nervos.

É que ir nesta bolha para o outro lado do mundo, é vir de lá sem sair dela. É aí que costumo dizer: “Para isso mais vale ir para um no Algarve”. E agora, bato na boca e entro eu num resort no Algarve, a achar que é igual ser aqui, no México ou na Costa Rica.

Mas ainda nem demos o cartão do cidadão para o check in e já nos vêm de copo na mão. “É sumo das nossas laranjas aqui do Algarve”, garantem-nos. Damos o primeiro gole e o difícil é acreditar que ali não há açúcar acrescentado. Mas não há mesmo.

Ainda no balcão da receção há figos e amêndoas, tudo da zona mais a sul do País. E a verdade e que sem sair do hall de entrada do hotel já vimos Algarve por todo o lado. As almofadas dos sofás são pintadas em tons de mar e as cadeiras e centros de mesa foram construídas a fazer lembrar os cestos onde os pescadores capturam os polvos.

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Ora portanto, cinco minutos depois de entrarmos e já somos obrigados a deixar cair o mito de que resort é resort, seja aqui ou no México. E é sem marguerita mas de copo de sumo de laranja na mão que subimos ao quarto.

Assim que se abrem as cortinas, voltamos ao conceito de resort que sempre idealizamos: palmeiras e piscinas. Está tudo lá. Mas também há o verde dos campos de golf, o que ajuda a montar um cenário perto da perfeição para um fim de semana que se quer de descanso.

Não é por estar num resort que tem que passar o dia de papo para o ar — ainda que também seja um bom plano

Descanso, dizia eu? Pois. Esqueci-me que no programa me esperava uma aula de Pilates ao ar livre, uma atividade que, aparentemente, para quem já correu uma maratona e acordava a levantar pesos no crossfit, é sempre sinónimo de aborrecimento. Mas não com Bruno Simões no comando, que assim faz cair mais um mito.

O personal trainer do hotel, entre pranchas, abdominais e movimentos calmos mas intensos, põe-nos a pensar em todos os bocejos que demos durante o Pilates que fazemos nas aulas de ginásios low cost. “Não quer vir dar aulas para Lisboa?”, pergunto-lhe. Mas quem é que se quer enfiar num espaço fechado, quando pode praticar desporto em dezembro como se fosse primavera?

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Dez minutos depois da aula começar e algumas pranchas depois, estamos prontos a dar um mergulho na piscina. Relembro que esta visita aconteceu em dezembro. De-zem-bro. Como não amar o Algarve?

E é também debaixo de sol forte que usufruímos de outra das valências do hotel: os passeios de tuc tuc a Vilamoura e Quarteira. De uma forma gratuita, pode ser guiado por Carlos, um fotógrafo cheio de histórias para contar que passou recentemente a levar os turistas a conhecer a região que, para ele, não é só de verão. “É até muito melhor no inverno”, admite, lembrando a cada esquina as filas de carros que encontra nos passeios que faz no mês de agosto.

Em segurança, Carlos deixa-nos de novo no hotel, cheios de dicas de restaurantes onde se come o melhor peixe de Quarteira. Apontem: O Jacinto. De nada.

Peixe fresco, mas opções para todos

E já que falamos de peixe, saiba que o Anantara tem três restaurantes a funcionar, quatro em época alta. No Ria serve-se peixe e marisco, no Emo o conceito é fine dining, no Lounge as refeições são mais ligeiras e no Victoria — o tal que só abre para refeições em estilo buffet durante o verão — é servido o pequeno-almoço.

Por ser um hotel do grupo Anantara, com uma forte presença na Ásia, é obrigado a ter pelo menos um prato asiático logo de manhã. Apanhamos noodles num dia e arroz no outro, sempre com vegetais. Intactos nas duas situações porque, convenhamos, quem quer um pequeno-almoço asiático quando se está no Algarve?

Aqui há tudo o que se pode esperar de um pequeno-almoço de hotel: ovos, panquecas, pães, bolos. Mas também há tudo o que se pode esperar de um pequeno-almoço tomado em pleno Algarve: sumo de laranja, amêndoas, queijo de cabra local, iogurte também local, compotas de figo, de laranja e mel ainda no favo, também ele de produzido nas proximidades.

Com direito a dois jantares, dividimo-nos entre o Emo e o Lounge, esperando um serviço muito diferente entre um e outro, mas não. A simpatia é a mesma, seja no momento em que é servido um menu de degustação de 95€ ou um hambúrguer com batatas fritas.

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No Emo provamos um pregado à algarvia, como tinha que ser, servido com xerém, amêndoa tostada e molho de bivalves. Mas também arriscamos nos pratos vegetarianos. A entrada de tofu e espargos fica-nos até hoje no palato. Já o caril de vegetais de prato principal, era pobre em ingredientes e em quantidade. Foi salvo pelo vinho adocicado do pairing, perfeito para cortar o possível picante.

Já no Lounge, o vinho continua incrível, desta vez com origem na Nova Zelândia, mas aqui a carta deixou-nos confusos. A primeira que nos põem na mesa é do Lounge, que serve também a piscina durante o dia e, por isso, é feita de saladas, hambúrgueres e alguns finger foods. Logo de seguida, apresentam-nos um menu muito mais completo e requintado, totalmente vegetariano e com uma descrição a fazer antever uma qualidade superior.

Sabemos que fazem pão caseiro no restaurante, mas não é esse que servem no Lounge. E mesmo o pão pita que acompanha o húmus fica duro cinco minutos depois de chegar à mesa. Já sem grande esperança para os pratos principais, surpresa. Um tofu devidamente marinado, temperado e servido numa cama de espargos e puré de cenoura algarvia e, do outro lado da mesa, um queijo haloumi delicioso, servido com cebola caramelizada e puré de feijão frade.

Confusos com estas diferenças, questionamos o funcionário que diz que “às vezes” entregam este menu ao cliente quando percebem que são vegetarianos. “Mas e para quem quer carne?”. Aí o melhor mesmo é apresentar o menu de room service, no qual estão todos os pratos, de carne ou vegetarianos.

Confusos, confirmamos já no quarto que o menu de room service não tem nenhum dos pratos que comemos ao jantar. Mas encolhemos os ombros e enfiamo-nos na banheira, que há que aproveitar o champô, gel de banho e creme feitos também com Algarve na sua essência. É que as etiquetas de papel que envolvem os frascos (de cerâmica, yey zero plástico) ditam que ali dentro estão amêndoas e laranjas prontas para nos hidratar.

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E não podíamos falar de hidratação sem uma ida ao spa do Anantara. O menu é maior do que o dos restaurantes, mas aqui não há confusões: tudo é feito para nos deixar relaxados.

E é Bruno Simões, o mesmo que nos pôs em prancha de manhã na aula de Pilates que nos compensa o esforço com um tratamento de corpo inteiro. O corpo é esfoliado com uma mistura de café orgânico e sal grosso para depois ser hidratado com um óleo de laranja. De onde? Do Algarve, claro.

Deitados abaixo quase todos os mitos que tínhamos com o conceito de resort, ficamos curiosos com a experiência num Anantara internacional. É que depois de tanta laranja e amêndoa no Algarve, não espero menos que cajus na mesinha de cabeceira no hotel de Moçambique ou uma paella barrada no corpo no spa de um Anantara em Espanha.