A missão foi entregue a Evgenia Arbugaeva: a fotógrafa, que cresceu no ártico russo, iria fotografar a ativista Greta Thuberg para a capa da revista “Time“, que entregou o prémio de personalidade do ano de 2019 à sueca de 16 anos — transformando-a, assim, na figura mais jovem a receber este reconhecimento, que é atribuído pela publicação desde 1927. Junto da imagem da capa da edição de 23 de dezembro, divulgada esta quarta-feira, 11, pode ler-se a frase “o poder da juventude”.

“Quando a ‘Time’ me pediu para fotografar Greta, pensei sobre como conseguir um retrato que combinasse a gentileza e ao mesmo tempo a coragem. Como é que ia captar o olhar intenso e concentrado tanto para dentro quanto para fora, característica do que sinto ser o de Greta ”, disse Arbugeava, citada pela revista. “Não foi uma tarefa fácil.”

Greta Thunbeg chegou a Lisboa na manhã de terça-feira, 4 de dezembro. Veio num barco, que a deixou na Doca de Santo. Evgenia Arbugaeva já cá andava e sabia o que tinha de fazer. Como inspiração, criou um mood board com diversas referências que fossem ao encontro daquilo que queria capturar. Entre elas estavam Botticelli, Monet, inspirações da mitologia nórdica, cartas de tarot e arte do período romântico. 

Depois, andou pela área da Grande Lisboa em busca do local ideal. “Um dia, vi uma praia de inverno calma, quase sem pessoas, além de pescadores”, conta a fotógrafa, que considerou o local “perfeito”. O fator sossego teve também de entrar na equação: “Tinha de considerar a privacidade por causa da multidão que cerca Greta para qualquer lado que ela vá.”

A ativista chegou à tal praia para a sessão fotográfica num Tesla alugado, quando o sol já se estava a pôr. “Enquanto ela posava para a fotografia, o céu estava cor de rosa dourado, a criar uma luz bonita, a maré do oceano estava a subir e as ondas estavam furiosas ao seu redor”, lembra a fotógrafa. “Greta manteve-se alta e, sorte, sem se mexer, com alguns fios de cabelo apenas a flutuarem na brisa suave. Ela olhou diretamente para o oceano que acabara de atravessar. Nesse momento, parecia que todos os elementos e forças da natureza estavam alinhados para criar a magia — o presente mais valioso para um fotógrafo.”

Greta Thunberg já sabia por esta altura que tinha sido eleita a personalidade do ano. Tanto que, três semanas antes de partir de Hampton, no estado americano da Virginia, a ativista foi entrevistada pela correspondente nacional Charlotte Alter e pelo correspondente climático Justin Wordland, a bordo do catamarã Vagabonde, relata a mesma revista.

Depois, já em Lisboa, a ativista encontrou-se com o correspondente de Londres Suyin Haynes, que em abril já tinha passado cinco dias com Thunberg — esteve em sua casa, na sua escola e esteve também numa viagem de comboio, a propósito da edição de maio da “Time”, dedicada aos “Líderes da Próxima Geração“.

No dia que sucedeu a passagem por Lisboa e a sessão fotográfica, Greta Thunberg já se encontrava num comboio para Madrid, ainda na companhia de Arbugaeva e de um conjunto de jornalistas, que a seguiram pela capital espanhola. Lá encontrou milhares de apoiantes à sua espera, do lado de fora da Conferência Climática das Nações Unidas, onde a ativista discursou.

“A partir de então, multidões de jornalistas e seguranças estiveram constantemente à volta de Greta”, contou Arbugaeva.  “Foi a primeira vez que vi algo assim, uma verdadeira histeria insana de pessoas a tentar chegar até ela. Mas Greta parecia saber lidar com isso muito bem. Pude ver que ela está concentrada na sua missão.”

Edward Felsenthal, diretor da “Time”, justificou o destaque da jovem ativista, dizendo: “Por fazer soar o alarme acerca da relação de predador da humanidade com a única casa que temos, por trazer para um mundo fragmentado uma voz que transcende contextos e fronteiras, por nos mostrar a todos o que pode acontecer quando uma nova geração liderar, Greta Thunberg é a pessoa do ano da Time de 2019″.