Mandam-na voltar para as aulas, tomar Ritalina (Greta Thunberg sofre de Síndrome de Asperger), devorar calmantes para a raiva e estar mais caladinha. Uma miúda sueca de 16 anos chegou a Lisboa esta terça-feira, 3 de dezembro, e ficou o caldo entornado nas redes sociais. Já ninguém tem paciência para ouvi-la a falar sobre o clima, e o principal argumento é este: o que é que ela está a fazer pelo ambiente? Efetivamente, o que é que ela está a fazer?

Boyan Slat. Não lhe diz nada? Falamos do jovem de 25 anos que inventou o primeiro sistema para limpar plásticos dos oceanos. O nome tem sido amplamente repetido nas redes sociais para provar como Greta Thunberg é uma inútil. Ora vejamos a imagem abaixo: ela tem 16 anos e não conquistou absolutamente nada, aponta problemas sem sugerir soluções e tem 176 milhões de resultados na pesquisa do Google.

O meu Google diz-me que são 137 milhões, na realidade. Assim como o nome de Boyan Slat dá-me 450 mil resultados e não 270 mil, mas não vamos entrar por aí. Portanto, este dinamarquês tinha 16 anos quando inventou o primeiro sistema para limpar plásticos dos oceanos (segundo o site oficial dele, na realidade tinha 18) e não culpou o sistema económico, nem requer a sua destruição. É obviamente muito melhor do que ela. Conclusão? Greta para a fogueira.

Continuamos nesta estupidez massiva de encarar a luta contra as alterações climáticas como uma guerra de pontos, como se comprar uma garrafa de água de plástico significasse imediatamente a desclassificação no jogo. Problema? A partir do momento em que está assumida a desclassificação, em vez de uma garrafa de água são 20. Atira-se a toalha ao chão, admite-se que já não há mais nada a fazer e segue-se em frente, aceitando a condenação como inevitável.

Crónica. A roupa em segunda mão não é só fixe, é uma chapada na cara da Zara

Vamos lá ver se nos entendemos: Greta não inventou nenhum sistema inovador, mas dizer que não realizou nada nos seus 16 anos de vida é absolutamente anedótico. Cada um deve — ênfase na definição do dicionário, “está obrigado a” — contribuir como pode. Greta não tem conhecimentos científicos para desenvolver um mecanismo inovador, mas tem um poder de oralidade especial. Estamos a falar de uma criança que neste momento dedica o seu tempo a inspirar o mundo.

E sim, gladiadores da internet, inspira. Nem todos os adolescentes são uns idiotas que fazem greve só porque querem faltar às aulas — pelo contrário, estamos perante uma nova geração muito mais ativista do que a minha, por exemplo, que nos anos 2000 estava mais interessada em fazer os testes de compatibilidade da “Bravo” e em imitar a Britney Spears com as calças de cintura descida. Há miúdos inspirados por Greta que estão de facto a mudar alguma coisa.

“O quê?”, perguntam os gladiadores da internet cuspindo saliva para o teclado. Ainda ontem uma jovem dizia para um canal de televisão que se tornou vegetariana. Os pais não acharam muita piada, mas agora também a mãe já deixou de comer carne. Inventou um sistema para limpar os oceanos? Não. Mas nós não precisamos que toda a gente invente um sistema para limpar os oceanos, precisamos que toda a gente faça alguma coisa — por mais “pequena” e “insignificante” que seja aos vossos olhos.

  • “Se ela é mesmo ambientalista, que viesse a remar numa canoa feita de um tronco de árvore que tivesse caído e não num iate de luxo com um fato de intempérie dos mais caros do mercado.”
  • “Está na moda dar palco a esta pita mimada, que nada faz a não ser apontar o dedo aos outros, oferecendo zero alternativas ou soluções.”
  • “Temos tantos jovens em Portugal com tantos valores e ninguém se preocupa e vem esta que só anda nisto porque está a ser bem paga e tem toda atenção.”
  • “Rica vida farta-se de passear. Os cientistas dizem que é um génio. Precisas de comer uns bifes com ovos estrelados.”
  • “O fabrico deste barco? Já questionaram os materiais e quanto se polui para o seu fabrico, plásticos, fibra, tecidos, tintas, cordas, etc…”.

Continuamos tão pequenos escondidos atrás de um computador.

Se ela veio de barco, já não merece ser ouvida — ninguém quer saber que o avião seja mais poluente e que ela tenha escolhido o meio de transporte que menos afeta o planeta, se fosse de facto ambientalista tinha vindo a nado.

Olhem para ela, só quer atenção, os discursos onde apela à mudança — como aquele que incita, por exemplo, a deixar de comer carne — não valem nada, ela tinha sim que descobrir a solução para manter tudo como está e mesmo assim deixar de haver crise climática.

E claro, o argumento sempre válido do “há outros a fazer o mesmo”. Há, claro que há. Mas isto não é uma competição (ou pelo menos não devia ser), para ver quem é que faz mais. Ela não está a passear, está a defender um mundo melhor. E eu quero que ela continue a fazê-lo, porque quero continuar a ver os nossos jovens inspirados por ela.

Deixem a Greta falar, esse é o dom dela. Deixem Boyan inventar, esse é o dom dele. A mim, deixem-me continuar a apelar ao facto de todos podermos contribuir de alguma forma, seja trocando a água engarrafada por uma garrafa de vidro ou fazendo reciclagem. Não estamos todos num jogo do Super Mário, onde os derrotados ficam quietos a uma canto à espera de entrar novamente na corrida, porque a seguir a um Game Over vem sempre uma nova tentativa. Não há de facto planeta B, e não há de facto esperança para esta humanidade se não mudarmos as coisas.

Quanto a vocês, gladiadores de teclado, respondam-me apenas a isto: o que é que estão a fazer? É que destilar ódio na internet não conta para salvar o planeta.