No admirável mundo de um Google com resposta para tudo, são milhares os artigos que aconselham alimentos alegadamente capazes de criarem uma barriga mais lisa. Das duas uma: ou estes conteúdos dizem a verdade ou constituem uma grande aldrabice — depende da causa atribuída ao volume abdominal. É que existem alimentos que, de facto, são capazes de contornar algumas condições que levam a uma barriga mais dilatada. Mas se a conversa meter perda de gordura, a coisa muda de figura: não existe nenhum ingrediente que, ao ser consumido, nos emagreça miraculosamente. Lamentamos.

Há três causas para uma barriga mais volumosa, explica à MAGG a nutricionista Lillian Barros. São elas a obstipação intestinal, acumulação de gases ou acumulação de gordura. Nas duas primeiras existem alimentos que ajudam a resolver o problema (assim como a adoção de hábitos de vida específicos). Na terceira, a história já é outra — e a fórmula já é antiga. Mas vamos por partes.

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Obstipação intestinal

Na gíria comum, isto significa prisão de ventre. “Temos obstipação por vários motivos: falta de consumo de água, carência de fibra e falta de exercício físico”, explica a nutricionista, autora do blogue “Santa Melancia”. “A longo prazo, estas carências podem gerar uma deficiência da flora intestinal, que se vai agravando.”

Para contornar este mal, um dos primeiros conselhos da especialista passa por beber um copo de água morna logo pela manhã, ainda em jejum: “A água de manhã não é milagrosa, mas já é o primeiro passo para despertar essa necessidade”, explica. Porque é que a falta de água potencia a obstipação? É simples: “As fezes precisam de ser hidratadas. De outra forma, ficam secas e há uma maior dificuldade de passagem.”

Por outro lado, nisto de manter a barriga lisa, a fibra é um micronutriente fundamental porque ajuda a “captar a água para as fezes”, fazendo com que a coisa fique toda mais bem “oleada” — à falta de melhor palavra. Ora, isto resulta numa pescadinha de rabo na boca: ao levarem mais água para este habitante dos intestinos, o consumo de produtos ricos em fibra faz também com que haja uma necessidade ainda maior de hidratação, de forma a que não fique a faltar nada ao resto do organismo.

O exercício físico também tem aqui uma função importante: quanto mais treinar, mais vai potenciar os movimentos peristálticos dos intestinos — isto é, os movimentos naturais deste órgão, que resultam em contrações — o ajuda a melhorar a sua função mecânica. Como resultado, as fezes vão descendo com mais eficácia, até à zona que leva a que sejam expulsas do organismo. A carência de treino resulta no inverso: um intestino mais preguiçoso, com menos contrações e com mais obstipação.

O que deve comer, então, para evitar a obstipação? Alimentos ricos em fibra: vegetais verdes escuros, cereais integrais, farelo e fruta — de preferência,com casca. “A casca de banana é muito rica em fibra”, diz a nutricionista, dando um exemplo menos óbvio. Além destes, os alimentos ricos em probióticos (iogurte, kombucha) ou prébióticos (biomassa de banana verde).

E não se esqueça de evitar aquilo que faz mal. É que nem a kombucha o salva se depois andar a comer batatas fritas todos os dias.

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Acumulação de gases

Isso mesmo: os gases constituem outro motivo que leva a uma barriga mais volumosa. “É muitas vezes associada à obstipação, que pode alterar a flora intestinal e levar a uma hiper fermentação que gera a acumulação dos gases”, explica Lillian Barros. “Mas não tem de ser exclusivamente associado a esta condição.”

O que é que poderá levar a este mal? No fundo, hábitos de vida pouco saudáveis: “A alteração da flora intestinal tem gatilhos como poucas horas de sono, medicação, má alimentação, rica em processados, alimentos refinados e aditivos artificiais, como os adoçantes.”

Por outro lado, há organismos que lidam mal com determinados alimentos, que são saudáveis: “As leguminosas, como o grão ou feijão, são alimentos associados a uma maior acumulação de gases, assim como as couves crucíferas, como os brócolos ou as couves”, explica.

Vamos aos motivos. “As leguminosas são ricas em antinutrientes [compostos naturais que interferem na absorção do nutriente e que são uma espécie de armadura que os alimentos têm para se protegerem contra as agressões da natureza], que fermentam no intestino. Há pessoas mais ou menos sensíveis a isto.” No caso das couves, acontece o mesmo.

Há truques para conseguir manter estes ingredientes na alimentação, protegendo-se contra o efeito dos gases. No caso das leguminosas, o melhor é demolhá-las durante mais tempo, permitindo que se dê a germinação, que ajuda a eliminar esses antinutrientes”, explica. “Demolhar e cozinhar com alga kombo também ajuda a minimizar a acumulação de gases.”

No caso das crucíferas, além destes antinutrientes, há ainda o facto de serem muito ricas em fibra, o que, neste caso, poderá aumentar a acumulação de gases. “Nem todos os alimentos que são bons, são bons para toda a gente. Por isso é que as dietas são personalizadas. Se uma pessoa sofrer horrores com isto, não deverá comer estes alimentos. O que se faz é tratar a causa desta acumulação de gases para depois se irem reintroduzindo gradualmente.”

Que alimentos consumir para diminuir o volume da barriga — e a sensação desconfortável dos gases? Além de evitar aqueles que indicámos, aposte em probióticos, funcho ou carvão vegetal — é um suplemento que se compra na farmácia. “A erva doce também é boa e pode infusionar-se com o funcho”, aconselha a especialista, também autora de vários livros, incluindo o último “A Comida que Vai Mudar a sua Vida.”

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Acumulação de gordura

Aqui não há grande novidade: “A acumulação de gordura está relacionada com a má alimentação e, consequentemente, com uma dieta com excesso calórico”, diz Lillian Barros. “Não há alimentos que queimem gordura, portanto tem de haver um plano alimentar estrutural que permita um défice de calorias [consumir menos do que aquelas que gasta] de forma a que se perca peso.”

Aqui o ideal passa mesmo por consultar uma nutricionista: com a ajuda de um especialista conseguirá ter acesso a um plano alimentar que restrinja o consumo de calorias — de forma equilibrada, sem que ponha em causa a saúde —, ajustado às suas necessidades pessoais. “Tem de se personalizar mediante as queixas e objetivos de cada individuo”, conclui.