Ninguém queria acreditar quando Marta Norte anunciou que se ia candidatar a presidente da associação de estudantes. “Tenho a reputação de ser uma miúda tímida”, conta à MAGG.

Não deixou de o ser, mas sabe que se pode sempre apoiar no resto da equipa da Lista S, que venceu as outras duas listas em competição pela liderança de quem dá voz aos alunos da Escola Secundária Rainha Dona Leonor, em Lisboa.

Só de saber que estava a concorrer contra alguém já era suficiente para ficar ansiosa, principalmente porque a campanha, que se queria amigável, tornou-se um pesadelo. “Tiravam os nossos cartazes das paredes, faziam vídeos a criticar os candidatos”, explica. Mas ainda assim, levou as coisas até ao fim e a 20 de novembro tornou-se presidente da associação de estudantes.

Agora, aos 17 anos, sabe que tem que manter as boas notas se quer entrar no curso de Engenharia Aeroespacial. Pelo meio, não pretende deixar o andebol e nem vai deixar de dar explicações a crianças. “Há tempo para tudo”, garante.

Tem noção de que na escola, a associação não tem força para grandes mudanças estruturais e, por isso, quer que a associação seja mais uma espécie de base de apoio aos alunos.

Reunidas as principais queixas, as obras nas casas de banho são uma prioridade, assim como a colocação de mais ecopontos nas escolas.

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A instalação de mais ecopontos está também na lista do “fazer já” de Tiago Alves. Assumiu a presidência da associação de estudantes do Liceu Camões, em Lisboa, recentemente e além de caixotes diferenciados para os resíduos, quer cinzeiros no portão e um depósito para que os óleos usados sejam reutilizados. “Para fazer velas, por exemplo”, refere.

Aos 19 anos, já passou por Economia e Humanidades até voltar àquilo do qual nunca devia te fugido: a sua paixão pelas artes. Pinta, faz teatro e no futuro quer seguir design de moda ou arquitetura.

Marta Norte (à esquerda) com Bia Ribeiro, também da direção

Sabe que assumiu o cargo num ano especialmente difícil. “Dois terços da escola estão fechados para obras e sabemos que será assim por pelo menos dois anos”, salienta. Ainda assim, quer aproveitar o pouco espaço circulável para promover a atividade física, com a criação de equipas de futsal e de basquetebol femininos e ainda de uma mascote que represente o liceu nos jogos com outras escolas.

No Liceu Camões a campanha é levada a sério e as fotos no Instagram da lista I, a de Tiago, são prova disso. Como cada uma das quatro listas em despique tinha um dia para campanha, Tiago e o resto da sua equipa prepararam o dia ao pormenor. Desde torneios de matraquilhos, a bancas com comida, concertos, vendas de roupa e pinturas faciais, houve de tudo. E mais. Com a ajuda dos pais de alguns dos alunos ou mesmo com contactos diretos, conseguiram o apoio de marcas e ainda um vídeo do humorista Fernando Rocha a promover a lista nas redes sociais.

Tal como Marta, também Tiago não está associado a qualquer partido político. Mas ao contrário de Marta, que culpa a falta de vontade para nunca ter entrado mais seriamente numa das opções de esquerda, Tiago não o faz por convicção. “Não sou apologista de que as associações de estudantes estejam ligadas a partidos, não têm que estar”, refere.

Tiago acredita que o seu papel é o de dar a saber mais sobre política e não o de influenciar o voto. É por isso que alguns dos eventos que já tem no calendário são conversas moderadas por deputados ou representantes políticos de cada partido. “Devemos sim apelar ao voto e dar a conhecer o que cada partido defende”, afirma.

Este afastamento político não é fácil, até porque é sabido que serve de rampa de lançamento para muitos que, mais tarde, se aliam às juventudes partidárias e aos respetivos partidos. Freitas do Amaral, por exemplo, presidiu à assembleia geral da Associação de Estudantes da Faculdade de Direito e Durão Barroso foi presidente da associação académica da Faculdade de Direito de Lisboa.

Tiago Alves (à esquerda) considera que o seu papel como presidente é associar-se a um partido. Duarte Forte (à direita) estuda numa escola na qual 70% dos alunos estão ligados a partidos de esquerda.

Duarte Forte, que começou recentemente a liderar a associação de estudantes da Escola Secundária António Arroio, em Lisboa, sabe que estes órgãos são independentes do Estado, dos partidos políticos ou das organizações religiosas. Mas também sabe, tal como nos conta, que 70% dos alunos da escola estão ligados a algum partido político, principalmente ao Partido Comunista.

“O meu avô, que é militante há muitos anos do PCP, perguntou-me se eu queria alguma ajuda e eu recusei. Também já pensei tornar-me militante do PS, mas depois pus essa ideia de lado”, conta à MAGG.

Escola tira portas de casa de banho para evitar que os alunos usem cigarros eletrónicos

Para já, está concentrado em liderar uma equipa que quer que marque a diferença. “Faço isto pelos alunos, não por mim”, garante. Até porque tem noção de que, ao contrário do que acontece na maioria dos casos, está longe de ser dos alunos mais populares da escola. “Talvez agora fique”, brinca.

Ganhou com maioria absoluta e desde esse momento que todos os dias faz uma reunião ao fim do dia com a sua equipa. “Não obrigo ninguém, atenção. Mas é importante”.

É que desses encontros diários já surgiram ideias inovadoras. Como pertencem a uma escola ligada às artes, fecharam parceira com três galerias, para que abram os seus ateliês aos alunos. Além disso, também a escola vai ser palco de exposições e workshops ligados à arte.

Vão criar um banco de resumos e de partilha de trabalhos escolares, conseguiram uma parceria com um clube para promover o desporto e está previsto o lançamento de uma revista escolar sobre ambiente. E já que falamos disso, querem mais ecopontos para a escola, claro.