Viajantes

Elsa é casada, tem uma filha e viaja sozinha. "A minha depressão era só ausência de sonhos"

Aos 40 anos, a jornalista decidiu parar de tomar antidepressivos e começar a viajar sem a família. O resultado foi transformador.

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A primeira viagem de Elsa foi em 2004, a Barcelona

A primeira viagem de Elsa foi em 2004, a Barcelona

Elsa Gonçalves entrou na farmácia e pediu para a depressão que o médico lhe tinha receitado. A conta ultrapassava os 100€. Quando olhou para aquele número, a jornalista de 40 anos começou a pensar que nada daquilo fazia sentido. Não eram cinco comprimidos que lhe iam resolver a infelicidade que sentia. Além disso, pensou, com 100€ conseguia comprar uma viagem.

E foi exatamente isso que fez. Naquele dia, Elsa parou de tomar a medicação e marcou uma viagem para Londres. Estávamos em 2016 e, desde então, todos os anos faz uma viagem sozinha no seu aniversário. O resultado foi transformador, mas nem todos veem esta decisão com bons olhos. A sociedade ainda censura uma mulher que deixa o marido e a filha para partir à descoberta do mundo sem a família. “Tive de trabalhar nas minhas crenças por me sentir uma má mãe por ir sozinha”, recorda.

Elsa Gonçalves é casada e tem uma filha de 12 anos

Em entrevista à revista espanhola “VIX“, Nava Silton, psicóloga na Universidade de Cornell, Nova Iorque (Estados Unidos), frisou a importância de as mães manterem os seus hábitos — como por exemplo tirarem férias ou até viajarem sozinhas.

“Aproveitar esse tempo [de férias] para si traz benefícios para a saúde mental, que se vão refletir também no contexto do lar”, afirma. Na opinião da especialista, o papel de uma mãe é equiparável ao de um trabalhador em full time. Tal como no emprego, também uma mãe precisa de férias.

Mas isto não significa que todas as mães tenham de viajar para se sentirem mais realizadas. Passar tempo sozinho não é relevante para todos e não tem de ser. “Mais do que aquilo que a mulher vai fazer sozinha são as necessidades que ela vai satisfazer, a importância que tem para o seu equilíbrio e bem-estar e de que forma prejudica ou compromete o seu papel de mãe, esposa, filha, profissional…”, explica Cristina Sousa Ferreira da Oficina da Psicologia, à MAGG.

Para além disso, viajar não é a única atividade que promove o bem estar individual, nem tem de ser feito sozinho. “Nesta dialética de dependência, independência, sozinho e acompanhado é importante que cada um de nós reflita sobre o que o faz feliz, quais as doses de que necessita e o que pode fazer para satisfazer as suas necessidades encontrando o equilíbrio e o bem-estar.”

Mas a jornalista encontrou o equilíbrio e a felicidade que lhe faltavam nas viagens. E, por isso, não parou de o fazer até hoje.

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“Se não tivesse amor e respeito por mim, não conseguia dar para os outros”

Desde miúda que Elsa Gonçalves adora viajar, mas vinha de uma família com poucos recursos e que não lhe podia proporcionar essas experiências. Em 2004, com 24 anos, fez a primeira viagem sozinha. “Enfiei-me num comboio em Santa Apolónia e fui até Barcelona”. Não quis companhia, “porque é mais difícil encontrar as condições ideais para ir com outras pessoas”, explica.

A vida de Elsa seguiu o percurso “normal”, mas casada com um homem que não partilhava da mesma paixão por viagens, deixou o prazer de conhecer o mundo para trás. Aos 40 anos era uma mulher aparentemente realizada: tinha um filha, uma carreira estável e um casamento feliz. Só que alguma coisa continuava sem estar bem. Deprimida, procurou a ajuda de um especialista: “Eu não conseguia perceber o que era. Para a sociedade eu tinha tudo”.

Diagnosticada com uma depressão, Elsa começou a tomar antidepressivos, mas nada mudou e a tristeza mantinha-se. Foi só naquela farmácia, naquele dia, decidiu dar um novo rumo à sua vida e tentar algo diferente. “Se eu tenho dinheiro para a farmácia, tenho dinheiro para ir viajar”, pensou. “Disse ao senhor que não queria nada e fui à agência de viagens mais próxima dar entrada numa viagem”.

O marido ficou surpreendido com a sua decisão. Mas Elsa perguntou-lhe: “Queres uma mulher feliz ao teu lado ou uma infeliz?”. Ele percebeu e apoiou-a, até porque apesar de fazerem viagens pontuais, a verdade é que o marido não gosta particularmente de viajar.

Elsa viaja todos os anos sozinha no seu aniversário

Dez meses depois, Elsa partia para Londres. Apesar de tudo, não foi fácil entrar no avião. A família não percebeu porque é que uma mulher com família decidia viajar sozinha, e rapidamente se deparou com comentários de censura. Só que o resultado daquela viagem provou-lhe que estava certa: não voltou a sentir-se depressiva e sentia-se mais feliz. Nem sempre é possível curar um quadro depressivo desta forma, no entanto, para Elsa as viagens trouxeram-lhe o que precisava para superar a tristeza.

“Agora posso dar aquilo que tenho. Se não tivesse amor e respeito por mim, não conseguia dar aos outros”, diz. Desde então, continua a viajar com a família, também já viajou sozinha com a filha de 12 anos, e o marido está sempre convidado a juntar-se. Só que a viagem a solo é algo de sagrado: pelo menos uma vez por ano, o que geralmente acontece por ocasião do seu aniversário, tem de fazer as malas e seguir viagem.

E nesta experiência, quem ganha, segundo Cristina Ferreira, são todos. “A mulher que está mais feliz, os filhos que aproveitam a disponibilidade de uma mãe de bem consigo, com histórias e experiências para contar e um marido que usufrui de uma mulher mais rica de aventura.”

Para Elsa, o percurso ainda não terminou e a sua maior conquista é “ir sem culpa e sem estar preocupada com o que vão dizer ou pensar sobre mim.” Já conheceu várias cidades e não tem dúvidas: “A minha depressão era só ausência de sonhos”.

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