Quando entra na mercearia habitual, o dono diz sempre: “Lá vem a menina dos sacos de pano”. E quando, a dois, vão jantar ao italiano, o empregado de mesa já sabe que naquele pedido não entram garrafas de plástico e, como não há de vidro, é sempre servido um jarro de água da torneira.

Sara da Silva e Paulo Dinis, os dois com 36 anos, tentam levar uma vida sem desperdício e, com casamento marcado para 23 de novembro, decidiram assumir o desafio de fazer uma cerimónia com o menor impacto ambiental possível. “Mas sem extremismos”, começa por esclarecer Sara à MAGG, como se o dissesse em voz alta para se auto convencer. “É que há semanas que a minha cabeça não para. Quando o assunto é sustentabilidade queres sempre mais, pensas sempre que há mais qualquer coisa que podes fazer, que podes cortar da lista, que podes transformar”, admite.

E agora, sem extremismos mas com foco, o casal tem já tudo alinhavado para o dia que, por ser só deles, tinha que ser feito à sua medida. Como Dinis se divide entre o trabalho como team leader de um call center e o hobbie da fotografia, decidiram que não precisariam de alguém que registasse em imagem os momentos mais importantes. “Vai ter que se dividir entre o papel de noivo e o de fotógrafo”, brinca Sara.

Um é vegan, uma é do zero desperdício e a outra adepta do slow living. Juntos servem-lhe um brunch

Já Sara, que ocupa o pouco tempo livre que a enfermagem lhe deixa com a decoração feita à base de produtos naturais, assume para si a tarefa de transformar o Selina Boavista Ericeira no salão onde vão comemorar os dez anos de relação. É que ainda que falemos aqui de casamento, a relação já está oficializada há dez anos. “Na altura casámos sem festa e decidimos que ela viria com o décimo aniversário juntos. E assim vai ser”, conta Sara.

Assim, as tolhas e os guardanapos vão ser feitos de restos de lençóis que Sara tinge com pétalas de flores e caroços de abacate. As velas foram compradas a granel e as flores que decoram o ambiente são secas, para poderem ficar a decorar o espaço mesmo após o casamento.

Sara e Paulo casaram há dez anos, mas a grande festa é agora

Os convites foram todos enviados por email, no qual aproveitaram para pedir para que ninguém comprasse roupa propositadamente para a cerimónia. É que nem os noivos o vão fazer. Paulo vai usar um fato com três anos, usado já várias vezes para ir aos casamentos dos outros, e Sara vai reutilizar um vestido de 1977. “É de uma tia, a minha mãe já casou com ele e agora é a minha vez”. Ainda pensou alugar um vestido ou comprar online em sites mais em conta, mas acabou por gastar 200€ a adaptar um modelo ao seu corpo que, desta forma, continua na família.

Sara admite que é na parte do catering que é difícil manter o controlo da situação, mas ainda assim precaveu-se. Fazem questão de que a comida seja vegetariana e, por isso, contrataram o restaurante The Food For Real, para tratar do que é servido na boa-vinda aos convidados. Já para o jantar, feito pela equipa do hostel, o casal comprou os frescos à empresa familiar e de agricultura sustentável Do Quintal Farmhouse, e é daí que vão sair as bruschettas, a sopa, os sumos naturais e o risotto de cogumelos que compõem o menu.

Fui a um casamento sem plástico — e não, os noivos não são hippies

No casamento de Joana toda a gente levou tupperwares para casa

Já Joana Tadeu, quando casou, pediu para que cada um levasse comida para que juntos pudessem fazer um piquenique. Da bebida e da sobremesa tratavam ela o marido, Martim, e fizeram questão de servir apenas vinho e espumante português e um gelado de iogurte feito pela empresa de um amigo.

Foi uma festim de lasanhas vegetarianas, frango assado, leitão, paelha, feijoada, caldo verde, muita salada e muita batata frita.

Hoje em dia, talvez preferisse ter mais pratos vegetarianos, mas a agora conhecida como A Minimalista, graças ao nome que deu ao seu projeto que propõe uma vida com menos, começava nesta altura a despertar para um mundo mais sustentável. Falamos aqui de 2015 que, ainda que pareça que foi ontem, era uma época ainda sem Gretas nem palhinhas de plástico demoníacas.

Se fosse hoje, Joana sabe que usaria guardanapos de pano em vez dos de papel, teria feito compostagem e teria pensado duas vezes em fazer o casamento em Manteigas — de onde a família é natural —, decisão que obrigou a que os mais de 200 convidados atravessassem de carro todo um País.

Mas tal como Sara, também Joana defende que a sustentabilidade não é só ambiental. “É a maior urgência, é certo, mas a urgência somos nós”, garante. E, por isso, a sustentabilidade do casamento de Joana e de Martim nota-se no facto de terem trocado o arroz por confetis feitos de flores e folhas secas ou nas argolas de cortinado que passaram a enrolar os guardanapos, mas nota-se sobretudo no cuidado com o impacto na comunidade.

6 fotos

Por ser um piquenique, o copo de água foi servido num jardim público e Joana pediu a todos os convidados que, por favor, não levassem descartáveis. Alugou a maioria da loiça e reaproveitou um serviço com mais de 100 anos que encontrou na casa do trisavô.

Os centros de mesa foram feitos com as dezenas de frascos que a mãe guardava e usaram almofadas antiga para encher sacos de serapilheira e fazer daquilo uma espécie de puffs para os convidados se sentarem.

O budget apertado e a vontade de fazer tudo de raiz levou a que os amigos se juntassem para preparar jogos, e que todos participassem no enchimento dos saquinhos — feitos com linho português com mais de cem anos — com sementes de girassol, que todos os convidados levaram para casa.

O casal entregou à florista os girassóis que sobraram intactos da festa, ofereceram o resto dos barris de cerveja aos bombeiros de Manteigas e todos os convidados levaram comida nos tupperwares para casa. “Esforçámo-nos para que não sobrasse nada, mas é impossível”, admite. Já a antever esta situação, Joana e Martim falaram com instituições de solidariedade de Manteigas para que pudessem receber tudo o que sobrasse do almoço.

Joana admite hoje que o casamento serviu de ponto de viragem para que começasse a assumir a sustentabilidade como uma missão. “É uma cerimónia que te leva a pensar em todos os detalhes, desde a vela que está em cima da mesa ao laçarote que envolve o guardanapo. É aí que uma pessoa se apercebe do impacto dos pormenores”, admite.

Joana não se cansa de mostrar as fotografias onde se notam todos os toques sustentáveis que tentou dar a esta data única, e Sara acredita que as duas não serão caso único nesta busca por uma festa sustentável. É por isso que Sara e o marido, Paulo, pretendem abrir em breve uma empresa focada na organização de eventos sempre com esta vertente do mínimo impacto ambiental. ”

O nosso casamento vai servir de protótipo”, admitem. A partir daí estarão, em dupla, prontos para ajudar quem quiser entrar nesta onda de festejar em tons de verde.